Evangélicos já atuam em 53,5% dos grupos indígenas na Amazônia

Missionários cristãos já atuam em mais da metade de grupos indígenas na Amazônia, informa reportagem publicada sábado (2/2) pelo jornal O Globo. De acordo com a matéria, há religiosos que chegam a construir igrejas dentro de unidades de conservação – o que é proibido por lei – e desrespeitam tradições das comunidades locais.

Perpera perdeu o respeito da comunidade quando indígenas locais foram convertidos por pastores Perpera perdeu o respeito da comunidade quando indígenas locais foram convertidos por pastores

Das 340 etnias indígenas presentes na região, 182 (53,5% do total) têm presença missionária evangélica. Em 132, representantes da população nativa participam da pregação, segundo um relatório de 2010 da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB). Mas órgãos oficiais, como a Fundação Nacional do Índio (Funai), não têm estimativas sobre a quantidade de grupos atuantes nas tribos.

 

“É uma ocupação desordenada. Quando percebemos, os missionários já estão ali sem respeitar critérios, como apresentar documentação e vacinação”, diz Junio Esllei Martins de Oliveira, coordenador geral da ONG Instituto Kabu, que representa 12 aldeias caiapós no Pará. “Às vezes, as missões condenam aspectos de nossa cultura, como o canto, a dança e a figura do pajé.” Conforme estimativas da ONG, entre os 1.700 caiapós que habitam as aldeias, 30% foram convertidos ao cristianismo evangélico.

 

Esllei ressalta que “não é contra nem a favor” do fenômeno, desde que as crenças indígenas sejam respeitadas: “A Funai – que deveria controlar a entrada dessas pessoas – está muito fragilizada. Tem outras prioridades, como conter a ação de nosso território por grileiros. Estamos em uma área conhecida pelo intenso desmatamento.” O órgão indígena reconhece que algumas missões religiosas chegam à Amazônia sob o pretexto de realizar pesquisas científicas, incluindo o aprendizado de idiomas.

 

Antropóloga e professora do Museu Nacional, Aparecida Vilaça critica o “descontrole e a conivência” do poder público. “Um pesquisador precisa passar por uma série de requisitos para entrar em uma aldeia, como apresentar cronogramas do estudo e enviar seu projeto a colegas. Para os missionários, porém, não há controle, uma autorização formal para ingresso ou processo de expulsão. Alguns estão na mesma região há gerações”, compara.

 

De acordo com Aparecida – que estuda em Rondônia a tribo wari –, há missionários que “entram no território com tecnologias e medicamentos. Associam a cura de doenças à oração, dizem que o fim do mundo está próximo e, por isso, aqueles que não rezam podem sofrer punições como ser engolidos por animais gigantes”.

 

O sermão catastrofista e o encanto com os artigos levados à aldeia põem em xeque a credibilidade dos líderes locais. É o caso de Perpera Suruí, pajé do Território Indígena Paiter Suruí, na fronteira de Rondônia com Mato Grosso. A cruzada promovida por pastores evangélicos contra rituais tradicionais, como a adoração de espíritos, jogou-o em uma espécie de limbo – ele deixou de receber remédios, bolsa de assistência social e carona para a cidade.

 

“Entregar programas de educação e saúde indígena a fundamentalistas é complicado”, adverte Luiz Bolognesi, diretor e roteirista de “Ex-pajé”, documentário sobre Perpera Suruí. “Os missionários promovem uma série de práticas ilegais, como montar igrejas em territórios indígenas. Hoje, Perpera é zelador de um templo.”

 

Em 2010, segundo o relatório da AMTB, o país contava com uma associação indígena de tradutores – voltados principalmente para a conversão da Bíblia aos idiomas locais – e um conselho de pastores e líderes evangélicos indígenas. “Os missionários estabelecem nas aldeias uma relação de cumplicidade, inclusive com os líderes indígenas, que muitas vezes estão em situação precária. Hoje, muitas têm pastores e diáconos indígenas”, explica a antropóloga Artionka Capiberibe, da Unicamp.

 

Conforme O Globo, os missionários não encontram dificuldades em retirar crianças daquele ambiente. Para isso, fazem exames em que atestam o que seriam más condições de saúde e, já na cidade, cortam o contato entre os pequenos índios e sua família. Eles, então, passam por um processo “civilizacional” — aprendem o cristianismo, são alfabetizadas em português, ganham roupas e brinquedos e provam alimentos que não existem em sua aldeia.

 

Com informações do jornal O Globo

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