“‘Essa gente’ somos todos nós”

“É o que o escritor e crítico literário Sérgio Rodrigues registra na apresentação do volume do livro de Chico Buarque lançado em dezembro, ‘Essa gente’, onde ele esmiúça o mundo da burguesia nacional com rigor e forte ironia”

 

por Léa Maria Aarão Reis

 

 

 

Créditos da foto: (Reprodução/Companhia das Letras)

A angústia é o sentimento dominante na vida dos protagonistas dos livros de autoria de Chico Buarque, comentava o escritor José Castello, um dos mais brilhantes críticos literários que atuou durante quase dez anos em caderno literário de jornal do Rio de Janeiro. Quando os jornais ainda tinham cadernos literários. Entusiasta da obra de Chico, compartilhamos com Castello a sua afeição e esta análise: os personagens do autor nascido no Rio e criado em São Paulo são ”corações aflitos”. Foi inclusive o que anotamos aqui, em Arte/Leituras, a propósito de O irmão alemão, o quinto livro do escritor e compositor, lançado há seis anos.

 

Agora, publicado no fim do ano para usufruir da temporada de lançamentos do Natal passado, Essa gente (Ed. Companhia das Letras) vem ocupar seu espaço, na estante, ao lado de Estorvo, Budapeste, Leite derramado e, neste, da narrativa do ghost writer José Costa, outro personagem atormentado de Chico. O seu coração, mais que aflito, neste trabalho, desencantou.

 

Talvez seja o mais cinematográfico dos seus livros e também um dos mais duros e decepcionados. Nele, Chico compartilha o seu desalento nas entrelinhas de uma história relatada na forma de mensagens breves semelhantes a posts de what’s app e a e-mails quando são textos mais extensos, e das impressões do personagem nas caminhadas dele – do escritor Manuel Duarte -, ladeira abaixo ladeira acima, no Alto Leblon, onde o personagem mora.

 

 

O título remete à expressão histórica e cara à burguesia nacional (e à polícia) quando os associados dela se referem ao cidadão que no seu entender não carrega pedigree. Sobrenome. ”Essa gente”, essa gentinha, esse povo que está aí. E é quase cínico o desapontamento com que Duarte assiste o espetáculo proporcionado por essa gente – ela significando igualmente o avesso do direito, tal como os parasitas (o bicho e o filme de Bong Hoo Jo) que adquirem dupla vida e sentido geminado.

 

Uma gente que circula diante dos olhos cansados do escritor sexagenário Duarte. Ou na praia, nas piscinas de casas ”na serra”, nas festas milionárias, nos círculos dos negócios – jurídicos e outros -, ou nas vielas e lajes da favela e nas happy hour das sextas-feiras da varanda do lendário Country Club, em Ipanema.

 

O encontro de Duarte, num desses fins de tarde no cãntri, com o advogado Fúlvio Castello Branco, e a violência do seu ex-colega do colégio Santo Inácio, na calçada, investindo contra um mendigo dormindo encostado no muro do clube é devastador. Sequência com linguagem de roteiro de cinema pronto. E um mundo visto de dentro.

 

E há outros lances: o jantar com abóbora na tapioca na casa da laje de Agenor e Rebekka. E a narrativa paralela das audiências musicais dos castrati, os meninos pobres emasculados (no sentido simbólico e não apenas na referência à crueldade física) pelo pastor neopentecostal em conluio com o maestro italiano. Ambos ganhando rios de dinheiro com as exibições dos garotos no mundo da lírica internacional.

 

Três dessas mulheres desfilam pela vida de Duarte. A mãe do seu filho que sofre bullying no colégio, apontado como ”filho de comunista”, é Maria Clara, a intelectual que acaba pirando. A segunda mulher, uma especialista em ”arquitetura de interior” e em velhos ricos e safados. E a garota holandesa de sardas e shortinho branco apaixonada pelo negão salva-vidas Agenor do Vidigal. Uma voluntária que leciona inglês à meninada da favela e cuida da horta comunitária.

 

A moldura para a existência dessa gente toda é o bairro do Leblon, descrito por Chico e reforçado por Duarte, nos seus 60 anos, como uma região ”revirada”. Uma ”sapataria revirada em dia de liquidação.”

 

(…) ”é como se eu viesse de uma temporada fora, e na minha ausência o restaurante tivesse virado uma farmácia, a farmácia um banco, o banco uma lanchonete, e a população tivesse sido substituída por outra, que me torce o nariz como a um imigrante, um pobretão.”

 

As fronteiras entre um mundo do passado e outro, do presente; o da infância e o das portas da velhice; o universo da infância e da paixão pela mãe belíssima confundido com as noites das prostitutas que chegam para encontrar Duarte a bordo de um Uber. As fronteiras entre os anos das rendas pródigas dos direitos autorais e triunfo literário e agora, o tempo da penúria; as fronteiras entre os sonhos e a realidade, e a lógica – que não existe para os mais velhos -, do tempo passando assimétrico porque as recordações se insinuam pelas frestas da memória. Todas essas fronteiras aparecem imprecisas, como que borradas na fascinante narrativa de Essa gente sobre um mundo sem as referências antigas.

 

”Será que estamos diante de uma alegoria poderosa da emasculação de um povo?” É a pergunta que Sérgio Rodrigues se faz referindo-se ao livro de Chico. ”Sobre essa comédia de costumes tão divertida quanto cruel.”

 

”Um mundo sem fronteiras, sem forma,” Chico já falava sobre essa angústia no seu Leite derramado. Em Estorvo também não havia uma origem precisa para o mal do personagem. Com este seu mais recente livro fica clara a origem do desastre que provoca tanto mal estar e ela é conhecida dessa gente – de todos nós – que está aí.

 

Essa gente é uma leitura indispensável.

 

Fonte: Carta Maior

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