Aquarela do Brasil chega aos 80 como um Hino Nacional

 

Dois leitores me perguntaram se considero Aquarela do Brasil a melhor composição de Ary Barroso. Escrevi sobre ela, no Aliás de domingo passado, sem atirar-lhe confetes e muito menos hierarquizá-la na extensa obra do autor. Não é, dos sambas do Ary, o meu preferido, longe disso; mas me curvo à sua incomparável e universal popularidade, e à sua originalidade, pois daquela paleta de hipérboles coloridas nasceu um novo subgênero musical, o samba-exaltação.

 

Por Sérgio Augusto

Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, é, consensualmente, um marco, um monumento musical. Por sua causa, a palavra aquarela ganhou no Aurélio uma nova acepção

Outro leitor quis saber, justamente, por que e quando o samba-exaltação morreu. Suspeito que tenha sumido por falta de oxigenação e esgotamento de seus chavões. Mas assim como a chanchada trocou o cinema pela televisão, o samba-exaltação sobreviveu nos enredos das escolas de samba, que se ufanam desde que a primeira delas, Deixa Falar, celebrou nos mesmos versos a primavera brasileira e a recém-triunfante Revolução de 1930.

 

Ainda que eu prefira Morena Boca de Ouro, Pra Machucar Meu Coração, É Luxo Só, entre outras, Aquarela do Brasil é, consensualmente, um marco, um monumento musical. Não me oporia a oficializá-lo como Hino Nacional Brasileiro, pois oficiosamente já o é faz tempo. Por sua causa, a palavra aquarela ganhou no Aurélio uma nova acepção: “Visão alegre ou otimista de uma época, uma situação, um lugar etc.”. No Houaiss ainda não.

 

Foi composto numa noite chuvosa do verão de 1939. Em sua casa no bairro carioca do Leme, Ary saiu, sorrateiro, de uma conversa fiada com a mulher, Ivone, e o cunhado, sentou-se ao piano e começou a dedilhar alguns acordes, até que encontrou o samba que havia meses buscava, na contramão dos sucessos da moda: sem tristeza nem dor de corno, um samba esfuziante, “um clangor de emoções positivas” sobre esta “terra boa e gostosa”.

 

Vivíamos, desde o final de 1937, sob o tacão do Estado Novo, eram cada vez mais intensos os rumores de guerra na Europa, mas ainda assim ou talvez por isso Ary insistiu em levantar o nosso moral, enaltecendo riquezas que este país “lindo e trigueiro” tinha ou acreditava ter. Uma delas era ser “a terra de Nosso Senhor”, meu primeiro contato com a crença de que Deus é brasileiro.

 

O cunhado de Ary foi o primeiro a invocar com o pleonástico “esse coqueiro que dá coco”, a meu ver, mais enfático do que redundante. De todo modo, a audição doméstica foi exitosa e celebrada com uma garrafa de vinho. E no embalo da euforia, Ary voltou ao piano e compôs a canção As Três Lágrimas, inteirinha. Noitada memorável.

 

“Este samba tem futuro”, empolgou-se o maestro Radamés Gnatalli, sem dar pelota para as pelancas poéticas da letra: “inzoneiro”, “merencória”, as mais salientes. Objetou a tímida abertura prevista pelo autor, com aquele pom-pom-poróm, pom-pom-pom dedilhado num contrabaixo, que trocou por um imponente quinteto de saxofones.

 

Escolhida para abrir a cortina do passado e tirar a Mãe Preta do serrado, Aracy de Almeida acabou substituída pelo “Rei da Voz” Francisco Alves, que se consagraria como o mais cobiçado intérprete de sambas-exaltação. Quem, porém, cantou a Aquarela pela primeira vez em público foi o barítono e socialite Cândido Botelho, no espetáculo beneficente Joujoux e Balangandãs, no Teatro Municipal do Rio, em junho e julho daquele ano. Como não há, creio, registro gravado daquela performance, a de Chico Alves, em disco, saiu na frente.

 

A histórica gravação, realizada nos estúdios da Odeon em 18 de agosto, foi um arraso. Ambicioso e arrojado, para os padrões da época, o arranjo de Gnatalli previa o dobro do tempo normal de duração de um 78 rotações, o que exigiu a utilização dos dois lados do disco. Conforme a agulha da vitrola se aproximava dos últimos sulcos da face A, a orquestra solava, caindo em BG, para retomar o mesmo solo no início do lado B, com Chico Alves nos arrastando até o apoteótico finale: “Brasil! Brasil! Pra mim… pra mim…”.

 

 

Apesar da implicância da Censura estado-novista com a imagem do Brasil como “terra do samba e do pandeiro”, para ela despicienda, a metonímia ficou.

 

Na versão americana, assinada por S.K. “Bob” Russell e intitulada Brazil, a terra do mulato inzoneiro virou mero pano de fundo de uma reminiscência romântica, embocadura parcialmente adotada pelo letrista francês Jacques Leruej, que só na segunda parte alude a riachos, gaúchos, tardes quentes e límpidas – e até ao Cruzeiro do Sul. Adotada em Hollywood, onde Ary tentou carreira, Aquarela aninhou-se no repertório de uma legião de cantores e orquestras. Bing Crosby a gravou duas vezes; mas a melhor gravação ainda é a de Frank Sinatra.

 

Aloisio de Oliveira, líder do Bando da Lua e parceiro de Carmen Miranda, foi o primeiro a cantá-la na tela em português, no desenho de Walt Disney Alô, Amigos, em 1943. Sua estreia cinematográfica, três anos antes, no filmusical carioca Laranja da China, dirigido por Ruy Costa, tivera um intérprete improvável, o mexicano Pedro Vargas, o que pode ter determinado a identificação de Brazil, no Hit Parade americano, como um tema “originalmente composto em espanhol”.

 

Estimulado por seu prestígio internacional, Ary planejou adaptá-la a uma ópera rural, uma versão Jeca Tatu de Porgy e Bess movida a congadas, maracatus e capoeira, com assessoria técnica do folclorista Câmara Cascudo, uma pincelada erudita do maestro Guerra Peixe e libreto de Millôr Fernandes e Antonio Callado. Que seria imperdível se não tivesse sido apenas um sonho do Ary.

 

 

O Estado de S. Paulo

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