Crônica – Praia, esse esporte radical chamado paciência

 

Ou: como transformar uma ida relaxante ao mar numa maratona sonora e emocional

 

Verão chega. E com ele vem aquela ideia brilhante, quase ingênua: “Vamos à praia com a família.”
Você separa tudo com carinho e esperança. Bebidas geladas, guarda-sol, calção de banho, protetor solar, cadeiras, toalhas, crianças, expectativas. Parece simples. Spoiler: não é.

A viagem começa otimista. O GPS jura que é uma horinha. Uma hora que, misteriosamente, se estica para três, às vezes quatro, como se o tempo entrasse em férias antes de você. A estrada vira palco do Movimento dos Diabos, uma procissão de carros parados, buzinas nervosas e motoristas que claramente esqueceram como se troca de marcha.

Dentro do carro, o mantra ecoa a cada cinco minutos:
Falta muito?
Não, filho. Só falta metade da sua infância.

Depois de muito suor, discussão sobre quem encostou em quem no banco de trás e promessas vazias de “já estamos chegando”, você finalmente vê o mar. Ou melhor, imagina o mar, porque o que aparece primeiro é um oceano de guarda-sóis. Tão juntos que se um espirrar, o vizinho pega resfriado emocional.

Você caça um cantinho como quem procura vaga em shopping na véspera de Natal. Ajeita tudo com a precisão de um engenheiro da NASA: guarda-sol inclinado, cadeira estrategicamente posicionada, cooler na sombra. Faz as recomendações clássicas aos filhos — não corre, não entra fundo, não some, não briga, não chama a mãe a cada dois minutos — coloca os óculos escuros… pronto. Agora é só relaxar.

É aí que ela aparece.

A caixa de som.

Porque sempre existe alguém que acorda e pensa: “Hoje vou compartilhar meu gosto musical duvidoso com absolutamente todo mundo.” O volume é tão alto que a música não toca — ela invade. O baixo vibra na alma, a letra é um crime contra a língua portuguesa e o refrão gruda no cérebro como areia molhada.

A pergunta que não quer calar: caixinha de som na praia é perturbação do sossego ou ataque sonoro coletivo?
Porque respeito virou artigo de luxo, igual água de coco gelada sem fila. Não basta curtir o dia: é preciso impor a trilha sonora, como se o mar pedisse aquele hit inacreditavelmente ruim.

E lá está você, tentando ouvir o barulho das ondas, mas recebendo um remix forçado de sofrência, funk duvidoso e batida eletrônica de guerra. O mar continua lindo. O céu, azul. A paciência… essa já pediu férias há muito tempo.

No fim do dia, você volta pra casa queimado de sol, cansado, com areia até na alma e um refrão horrível tocando em looping na cabeça. E mesmo assim pensa:
Ano que vem a gente volta.

Porque brasileiro é assim: reclama, sofre… mas ama a praia. Mesmo quando ela vem com som alto demais e bom senso de menos.

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Compositor – Escritor

 

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