Um oráculo chamado Grande Sertão: Veredas

O trabalho de criação brasileiro que mais me impacta, e há muito tempo, é Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa. Li o romance algumas vezes. Li também a versão em quadrinhos, assisti à série do Walter Avancini dos anos 1980, que está no Globoplay, vi o longa em preto e branco rodado em 1965 por Geraldo e Renato Santos Pereira. E assisti recentemente à premiada montagem para teatro da Bia Lessa.

 

Por Fernando Meirelles

Montagem de Bia Lessa adaptada de <i>Grande Serão: Veredas</i>: atores recriam a paisagem com seus corpos Montagem de Bia Lessa adaptada de Grande Serão: Veredas: atores recriam a paisagem com seus corpos

A paisagem do sertão, a flora e a fauna são parte importante do livro; na peça, os atores interpretam os animais, a vegetação, recriam a paisagem com seus corpos. Uma montagem primorosa. Agora o diretor Guel Arraes está preparando uma nova adaptação, bem livre, para cinema.

 

Não recordo ter lido ou assistido a outra obra em tantos formatos, e as versões me fascinam sempre.

 

 

 

 

A primeira vez que eu tentei ler o livro, não fui até o final. Esse era o livro favorito do meu pai que, também médico, sempre achou que Guimarães Rosa fosse o nosso principal escritor. Cheguei lá pela página 50 e não consegui entrar naquela história, me dava sono. Desisti.

 

Anos depois, já na faculdade, quebrei a perna e fiquei seis meses de repouso. Não tinha nada para fazer, então comecei a ler compulsivamente. Nessa onda de ler dois, três livros por semana, pensei: “Agora é a hora”.

 

Mergulhei e fiquei fascinado. Entendi que Grande Sertão: Veredas é uma leitura para períodos em que a mente esteja liberada, uma época de férias, por exemplo. É difícil sair do nosso mundo e entrar naquele quando se está ocupado com o dia a dia.

 

Percebi que é um livro difícil de começar, é preciso entender a linguagem, se acostumar com os neologismos, compreender como vai ser a jornada. Depois de certo ponto, aquele ritmo passa a ser natural. Você nem percebe mais as construções sofisticadas, é como aprender a falar uma nova língua. Vira puro prazer.

 

Foi nesse período que passei a gostar mais de leitura, ou de boa literatura. Desde então, toda noite antes de dormir preciso ler ao menos uns 20 minutos, mesmo se cansado. Desde então, quase todos os dias de minha vida têm sido assim. Não por acaso, quase tudo o que eu faço no cinema é adaptação de livros.

 

Adaptar Grande Sertão: Veredas para cinema é um sonho há 20 anos. Um tempo atrás, eu queria, mas não ousava, achava que faria um arremedo, uma anedota do livro. Agora eu acho que já estou mais maduro, não para encarar o livro, mas sim para encarar o ridículo de errar feio.

 

Se algum dia eu adaptar a história, iria pelo caminho da Bia Lessa: usaria muitas imagens da natureza do sertão. Mas este não é um filme que se financie facilmente e não dá para rodá-lo com pouco dinheiro. São muitos cavalos, muitos atores e figurantes, muito figurino e estrutura a levar para o meio do sertão. Mas a cada seis meses eu penso nisso. E a versão do Guel será tão livre que não impede uma mais clássica.

 

 

 

 

A história de Grande Sertão: Veredas é a narração de um ex-jagunço, Riobaldo, revendo a sua trajetória e tentando entender se o Diabo, o mal, existe e de onde ele vem.

 

Essa mesma questão está em uma das sequências cinematográficas de que mais gosto, em Além da Linha Vermelha (1998), do Terrence Malick. Na Segunda Guerra, o Exército americano invade um acampamento japonês e os soldados vão trucidando e destruindo tudo e todos que encontram. É muito violento, vemos de perto o sofrimento dos japoneses.

 

De repente, o som da cena é cortado e, diante da barbaridade, entra uma narração do personagem que conta a história. É um recurso muito usado pelo Malick. Ele se questiona de onde vem essa crueldade, a vontade de destruir. “De onde vem este mal diabólico?”, pergunta-se.

 

É a mesma reflexão sobre a origem do mal, sobre o porquê de agredir os outros, que faz Riobaldo. Às vezes me faço essa pergunta ao entrar na internet: por que entrar em redes sociais para xingar quem não se conhece? Por que, em vez de discordar, queremos aniquilar o outro?

 

No livro, existe uma história objetiva que permeia toda a jornada, mas o que gosto não é dessa trama, ótima aliás, mas da subjetividade do Riobaldo, suas reflexões e conclusões, que sempre deixam espaço para a dúvida. “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”, diz.

 

Há muitas leituras sobre o significado do livro. Uma de que gosto é a que vê o “grande sertão” como os espaços desconhecidos e selvagens da nossa mente. As “veredas” seriam as dobras do nosso cérebro. A obra seria um mergulho na consciência, na profundidade da psique.

 

Em uma passagem, os personagens precisam atravessar o liso do Sussuarão, uma jornada à qual ninguém sobrevive. É como estar diante de áreas da psique com as quais não se ousa lidar. Mas eles escolhem atravessar.

 

Acho interessante essa interpretação do livro como um processo de autoconhecimento, cada parte da história sendo uma etapa do desenvolvimento no processo de individuação.

 

Para mim, Grande Sertão: Veredas funciona até como um oráculo. Abre-se uma página ao acaso, lê-se o que está à frente e ali estará uma pequena revelação. Dificilmente outra obra me tocará tanto na vida.

 

* Fernando Meirelles é cineasta

 

 

Publicado originalmente na Ilustríssima (Folha)

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