Maestro Nunes, frevo e povo

Os dados secos, objetivos, falam que o Maestro Nunes foi batizado com o nome de José Nunes de Souza, nasceu em (Angélica, distrito de Vicência, 22 de julho de 1931 e faleceu em — Paulista- em 14 de setembro de 2016. Ccompositor, arranjador e maestro pernambucano.

Por Urariano Mota*

E mais falam os chamados fatos de arquivo: o maestro Nunes compôs frevos como É de perder os sapatos, É de rasgar a camisa, Cabelo de fogo, Mosquetão, Bala doida, Bomba-relógio, Folhas não caem. Coquinho no frevo, Fubica, Folhas que não caem, Santa, Ecos do Carnaval, Balançando a pança. O clássico Cabelo de Fogo, feito para um amigo, apelidado de Birino, que pintava os cabelos. Entre as músicas premiadas estão: Formigueiro, numa homenagem ao maestro Formiga, ou Ademir Araújo; “É de perder o sapato”, relembrando o fato de um músico ter perdido o sapato enquanto tocava na banda do maestro, durante o desfile da troça carnavalesca mista O cachorro do homem do miúdo; Mosquetão, em referência a um colega que foi baleado durante a ditadura; “É de rasgar a camisa”, dedicado à troça Camisa Velha; “Bomba-Relógio”, em parceria com Mário Orlando, após a explosão de uma bomba, no Recife, durante a ditadura militar.

 

Comunista desde jovem, quando se filiou ao ao Partido Comunista Brasileiro, e se engajou no Movimento de Cultura Popular (MCP), o que lhe rendeu perseguição política e afastamento da Banda Municipal do Recife, no início da década 60.

 

Aqui, o grande Nunes fala das circunstâncias em que criou o frevo Mosquetão:

“Eu estava terminando o curso de Belas Artes. Então eu estou lá no Departamento de Desenho… Na turma de desenho, tínhamos filhos de trabalhadores, não é? E na turma de música o que você encontrava era filho de Armando Monteiro, Cid Sampaio, de usineiros, né? Então foi naquela época que o partido comunista se organizou. Eu trabalhava na Banda Musical e vendia o jornal Novos Rumos, do Partido. Mas também era o maestro do MCP. Então foi quando o Doutor Arraes foi deposto em 64. Aí nós fizemos uma passeata, lá da Escola de Belas Artes até o palácio, dando apoio ao governo. Meu amigo, quando chegamos lá estava assim (gesto com as mãos) de soldado do Exército. Aí o coronel Cahu, que estava comandando a PE do Exército, deu ordem pros soldados atirarem com os mosquetões deles. Foi um inferno. Aí eu saí Mataram quatro, os sodados da PE do Exército. Então eu, revoltado, lá em casa fiz o frevo Mosquetão, pra dar uma resposta ao coronel Cahu, que o meu mosquetão não matava ninguém, dava alegria. E fui campeão… Me perguntam por quê mosquetão. É uma homenagem ao colega, que sofreu o que eu sofri. Perdi emprego na prefeitura, passei meses nas matas de Paratibe, escondido, pra não morrer. Porque o cara que me despachava Novos Rumos, assassinaram ele ali na porta”.

 

Mas o mais importante, e para isso estou aqui, é falar do que é fora do arquivo frio. Eu quero falar de um momento fundamental do documentário Sete Corações, em uma fala do Maestro Nunes, quando ele disse e falou esta maravilha de reflexão, de sabedoria:

 

“Quando eu componho, eu estou em diálogo com todos os compositores que me antecederam. Eles estão comigo”.

 

Isso é genial e raras vezes foi expresso com tamanha simplicidade. Todo artista, todo escritor de gênio sente isto: o seu trabalho é um diálogo com os grandes que o antecederam. Isso foi expresso de maneira mais rude por Isaac Newton na frase: “Se pude ver longe foi porque estava sobre os ombros de gigantes”. Mas o maestro, como artista, pôs uma nota mais eloquente: ele está em diálogo permanente. E não só: os seus antepassados de gênio estão com ele. Isto é mais: falam por ele e com ele. Percebem? É uma dimensão que vai além do carnal, do físico puramente material: é uma tradição que se leva com a gente aonde a gente for, como muitos em um só. Que traduz à sua maneira e alma – esta a palavram que muitos ateus têm vergonha e pejo de falar: leva na própria alma as almas das gerações que o antecederam. A sua família espiritual, digamos assim.

 

É lindo, belo e verdadeiro. Os ateus sectários não entendem: o artista verdadeiro fala com os que vieram antes dele. É um diálogo permanente. O que os espíritas interpretariam como uma reencarnação. E nós ateus entendemos como uma continuação de humanidade, pelo avanço da tradição e pelas formas que se alimentam de antes.

 

No documentário, Spok, o entrevistador e idealizador do filme, deixa passar essa frase, que me pôs em êxtase. Como uma revelação. Spok não lhe pergunta como é mesmo esse diálogo do Maestro com os seus grandes. Mas teve o bom senso de não cortar a frase na edição do filme.

 

O maestro negro, o genial músico da família espiritual de Moacir Santos, Bach, Nelson Ferreira, Capiba e Zumba, as suas declaradas admirações. Ele encontrou a sua veia, o seu estilo, o seu gênio no frevo de rua, que o Maestro Duda, de modo tão preciso falou: “Foi o maior compositor de frevo de rua do meio das ruas”. Preciso e modelar, o maestro Duda.

 

Em 1972, na condição de assessor musical da Federação Carnavalesca de Pernambuco, abriu a Escola Musical do Frevo, aqui no Pátio de Santa Cruz, destinada a crianças de baixa renda e aos filhos dos presidentes das agremiações, e foi a partir desse ano que passou a ser o principal e mais prolífico criador de frevo para os grupos foliões pernambucanos. Em 1984 criou a Banda de Frevos do Nordeste. Foi fundador do Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO)

 

Um mestre, um maestro, um educador de homens e mulheres, de adultos e pequenos, como todo artista é e deve ser. Assim como outro grande artista e educador comunista, Abelardo da Hora, que formou gerações de artistas em Pernambuco.

 

Por fim, o maestro faleceu há dois anos no Dia Nacional do Frevo. Aos 85 anos. Numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no bairro de Jardim Paulista, em Paulista, Maestro Nunes estava em grave demais de saúde. Ele aguardava transferência para um hospital público onde poderia receber o devido atendimento, mas, devido à falta de leitos, teve que esperar. Um médico havia dado um laudo atestando a gravidade do caso. Mas não havia vaga. Horas depois, Nunes conseguiu a transferência, mas já não pôde resistir à demora.

 

Na aparência, faleceu há 2 anos. Nesse particular, os artistas são privilegiados. O que outros homens buscam em riquezas materiais, o artista de gênio consegue o sonho dos sonhos: a imortalidade. Um gênero de paraíso na terra entre os seus, na memória e na vida. Cabelo de Fogo é eterno. Assim como o grande maestro Nunes, músico, maestro, amante do povo do Recife. Um comunista no frevo, do frevo para o mundo do povo.

 

“Quando eu componho, eu estou em diálogo com todos os compositores que me antecederam. Eles estão comigo”.

 

Quando ouvimos o Cabelo de Fogo nas ruas, o Maestro Nunes está conosco. E na glória também.

*Urariano Mota é jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”.

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