Filme “Azangule: o Levante” mostra revolta de escravizados no Rio

 

A obra narra a história da Revolta liderada por Manoel Congo e por Marianna Crioula. Para muitos historiadores esse foi o mais importante quilombo constituído no Rio de Janeiro, em 1838.

O lançamento do filme Azangule: o Levante, de Pedro Sol e Dani Balbi, ocorre nesta terça-feira (20), com debate às 19h30. Participam do debate, os autores, Anielle Franco e Silvo Tendler. “O filme surge a partir de uma pesquisa preliminar feita pelo diretor, Pedro Sol, que, na condição de morador da região de Paty do Alferes, no Rio de Janeiro, resolveu buscar maiores informações acerca da lenda de Marianna Crioula e Manoel Congo”, explica Dani Balbi, roteirista e uma das diretoras do documentário.

A obra narra a história da Revolta de Paty do Alferes, também chamada de Revolta de Manoel Congo, liderada por ele e por Marianna Crioula. Para muitos historiadores esse foi o mais importante quilombo constituído no Rio de Janeiro, em 1838.

A repercussão da Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, levou temor aos senhores de escravos, com isso, começaram a reprimir com mais virulência as lutas dos seres humanos escravizados. O capataz da fazenda, onde Manoel Congo e Marianna Crioula trabalhavam, matou o escravizado Camilo Sapateiro. Os escravizados exigiram providências do fazendeiro.

Como as providências não vieram, os escravos mataram o capataz e fugiram para as matas. O quilombo foi formado com cerca de 200 escravizados, em novembro de 1838. Utilizaram ferramentas e armas levadas da fazenda de Manuel Francisco Xavier. Foi necessária a intervenção da Guarda Nacional, comandados por aquele que viria a se tornar o Duque de Caxias. A força repressiva prendeu quase todos os revoltosos, matando vários deles.

Não perca a chance de ver essa obra que conta a nossa história

De acordo com Dani, após a aprovação do projeto com recursos da Lei Aldir Blanc, ela foi contatada pelo Pedro para desenvolver de forma mais consistente o argumento, elaborar o arco dramático das personagens, da intriga e dar corpo aos tratamentos do roteiro. “Foram semanas de extensa pesquisa, reconhecimento de locação e rastreamento de documentação, de pesquisadores e de interessados que pudessem nos auxiliar na reconstrução do percurso da rota que fizeram esses seres humanos escravizados”.

Ela relata ainda que chamou a atenção deles “a escassez de referências históricas mais precisas acerca da revolta”, a questão é mais relevante ainda, porque, argumenta Dani, “trata-se da maior revolta de negros contra a situação de escravizados ocorrida no território fluminense. Mais que isso, a forma como o processo de condenação dos poucos recapturados, a maneira como a Guarda Nacional foi mobilizada, os acordos escusos e as disputas entre a fidalguia local revelam muito do século 19”.

A proposta do filme alinha-se com a visão defendida pelo historiador Clóvis Moura (1925-2003), talvez o mais importante estudioso da classe trabalhadora do sistema escravista. Ele sempre enfatizou as inúmeras lutas dos escravizados contra o sistema e pela liberdade, em vez de muitos autores que passavam uma visão passiva dos escravizados.

Dani afirma que “a persistência desses protocolos de hierarquização e dominação, a manutenção da forma como a plutocracia brasileira existe, revela-se muito do presente” e, por isso, “contar histórias como essa, mais do que negritar a forma de organização e resistência da população negra escravizada, ajuda-nos a entender a costura do tecido social brasileiro que enfeixa racismos, sexismo e plutocracia”.

Assista o trailer como aperitivo

Ela destaca a importância do público para filmes como esse serem visibilizados. “Tem sido difícil contar com o apoio quase inexistente do governo nos últimos anos. Ainda assim, algumas conquistas do movimento de realizadores do audiovisual, como manutenção do tempo de tela para produções nacionais, por exemplo, tem forçado a articulação entre cineastas brasileiros e os players que entraram de vez no Brasil, sobretudo nos últimos anos”.

Dani destaca também a importância da “produção de conteúdo independente disponibilizado em plataformas de amplo acesso e que depois podem ser remuneradas ou revendidas, o que, de algum modo, ajuda-nos a sobreviver nesses tristes tempos de aprofundamento da mentalidade neoliberal e de seus protocolos de sobrevida. Esperamos por dias com políticas públicas melhores. Eles hão de chegar, pois não há noite que dure eternamente”.

Dani Balbi, uma das diretoras de Azangule : o Levante

Para ela é fundamental que obras com “histórias densas, profundas, mimetizadas a partir da vida do povo, sejam contadas”. Essa é a melhor forma “para que elas tenham impacto significativo, a fim de lançar luz à dinâmica sub-reptícia de exploração, dominação e violência. São necessários dois imperativos: compromisso ético, político com a minoração radical das desigualdades sociais; e perspectiva de construção, produção pautada pelo olhar, pela escrita, direção e pelo protagonismo do povo negro, pobre, periférico”.

Vale muito a pena acompanhar esse projeto a partir do lançamento na terça-feira (20), disponível no Youtube, a partir das 10h e assistir ao debate às 19h30. Em fase de negociação, o filme deverá estar disponível em plataformas de streaming.

Da CTB

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