Como a Netflix virou lugar de resistência para o cinema independente

Num cinema que mais do que nunca depende de co-produções com o exterior, a Netflix pode ser não a revolução que Martin Scorsese acredita estar vivendo. Mas a plataforma ao menos tem enfrentado os grandes estúdios e a concorrência com os blockbusters

Martin Scorsese não mede elogios ao falar da Netflix numa mesa-redonda entre diretores promovida pela revista The Hollywood Reporter. Para ele, não estamos num processo de evolução, mas de revolução. A opinião pode soar enviesada. Afinal, seu O Irlandês só saiu do papel quando a plataforma de streaming topou bancar o projeto que ele e Robert De Niro desenvolviam desde 2009, recebido com sucessivas portas na cara pelos executivos dos estúdios tradicionais.

Todd Phillips concorda com a observação e vai mais longe. Seu Coringa teve imensas dificuldades para ganhar as telas. Além de fazer um filme lateral ao universo dos super-heróis, mas não propriamente um filme de super-herói, ele teve que lidar com a constante troca de diretores na Warner: “Quando por fim todo mundo embarcou, de repente você fica sabendo que eles foram embora e tem de começar tudo de novo”.

Nesse caso, deu certo. O que não impede Noah Baumbach e Scorsese de comentarem a respeito da ideia de produção independente. Para Scorsese, os cineastas enfrentam dificuldades enormes com os estúdios desde o fracasso de O Portal do Paraíso (1980), de Michael Cimino: “Ali foi o fim. Eles estavam de saco cheio desses autores malucos. Tentei fazer A Última Tentação de Cristo e, seis semanas antes de as filmagens começarem, o filme foi cancelado”.

Baumbach fala sobre a enorme concorrência que seus filmes enfrentam com os blockbusters para entrar nos cinemas (dos Estados Unidos): “Nesse sentido, a Netflix reflete o modelo tradicional da produção cinematográfica independente”. E uma prova disso seria, para Phillips, o fato de que três dos seis cineastas reunidos para essa conversa já tiveram filmes produzidos pela Netflix (Scorsese, Baumbach e Meirelles).

O brasileiro Fernando Meirelles diz não sofrer com o tipo de pressão que se encontra em Hollywood. Afirma estar contente no Brasil, trabalhando apenas eventualmente no exterior e valorizando sua independência. A que teve da Netflix, por exemplo, para escolher os atores de Dois Papas.

Esse belo mundo tem lá seus problemas. Por exemplo, as grandes dívidas da Netflix, a perspectiva de concorrência contra os streamings que os grandes estúdios preparam. Talvez seja isso que tenha levado a Netflix a se tornar mais flexível. Foi assim com Scorsese que, ao receber um telefonema do produtor Rick Yorn perguntando se ele estava interessado em produzir para a plataforma, retrucou: “Mas vai passar nos cinemas, não?”.

Passou por pouco tempo, mas passou. Já é um sinal de flexibilidade da Netflix, que ainda precisa enfrentar resistências em países centrais. Na França, por exemplo, um filme só pode ir para o streaming três anos após sua exibição nos cinemas. Ainda assim, O Irlandês foi lançado nos cinemas de lá.

Se Greta Gerwig não parece estar tão interessada nessa discussão – seu problema está mais ligado a como dar voz às diretoras mulheres –, e Baumbach pensa no streaming como um modo mais democrático de lançar obras, Lulu Wang, a menos conhecida do grupo, coloca na mesa um problema grave.

Autora de The Farewell (A Partida, 2019), seu terceiro filme, ela afirma que a Netflix favorece cineastas que já criaram uma marca pessoal, o que não é seu caso. Ela e outros tendem a ficar perdidos no meio de uma multidão de filmes e séries vindas do mundo inteiro.

Exemplo recente: Atlantique, o filme senegalês incluído na lista de pré-indicados ao Oscar de melhor filme internacional, foi premiado em Cannes no ano passado, mas entrou na plataforma sem nenhum estardalhaço (e, em São Paulo, só foi exibido no Instituto Moreira Salles, o IMS).

É uma pena que a Hollywood Reporter não tenha perguntado, ou Meirelles tenha lembrado de colocar na roda, a questão brasileira, onde a produção cinematográfica tem sido hostilizada desde a chegada ao poder do governo Bolsonaro.

Por aqui, a Netflix deu uma segunda chance a filmes que, apesar da repercussão no exterior, tiveram bilheterias irrelevantes (Temporada, de André Novais Oliveira, é um exemplo evidente) nacionalmente. Em parte, justamente porque permite a eles driblar a concorrência com os blockbusters, inclusive brasileiros.

Num cinema que mais do que nunca depende de co-produções com o exterior, a Netflix pode ser não a revolução que Scorsese acredita estar vivendo, mas, pelo menos, um lugar de resistência – ao menos para aqueles que, como lembra Wang, já têm uma marca.

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo

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