Alejandro Zambra e Ana Martins Marques tratam das feridas da ditadura

Paraty RJ 10 07 2019-Começa hoje na cidade de Paraty a flip17ª Festa Literária Internacional Foto Roberto Parizotti/Fotos Publicas

Na Flip, segundo relata artigo publicado na Folha de S. Paulo, escritores discutiram como florescimento das plantas pode interromper legado autoritário no Brasil e no Chile.

O lirismo suave com que o chileno Alejandro Zambra e a mineira Ana Martins Marques se identificam com a natureza verdejante marcou neste sábado (4) o penúltimo dia da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, segundo artigo publicado na Folha de S. Paulo.

Ambos da mesma geração de autores, nascidos na ditadura militar em seus respectivos países e vistos como vozes originais da literatura contemporânea, falaram da relação explícita entre as plantas e a escrita, o escrever e o plantar, e o silêncio do autoritarismo e a repressão.

Na mesa “Ouvir o Verde”, eles debateram as principais motivações da dimensão metafórica que a imagem dos jardins evoca em suas literaturas. “É uma tentativa de aproximação, mas ao mesmo tempo uma certa consciência da fratura e da distância”, afirmou Marques, revelando sua falta de conhecimento “para discernir uma árvore da outra” apesar da veemência de seu “O Livro dos Jardins”, de 2019. “Eu me lembrei do livro ‘A Mulher que Matou os Peixes’ [1968], da Clarice [Lispector] e recordei de todas as plantas que deixei morrer por falta de zelo”, completou, bem-humorada, relata a Folha.

De acordo com o jornal, já o poeta chileno relacionou a sensação de repressão que seu primeiro romance, “Bonsai”, de 2006, carrega, com a amplitude de sua obra. “Bonsais são árvores reprimidas e acho isso muito comovente”, disse, sobre o processo de florescimento lírico do interior do livro. O autor ainda de “A Vida Privada das Árvores”, de 2007, e de “Poeta Chileno”, recém-lançado, citou a dificuldade dos poetas atuais de superarem a paralisia imposta pelos períodos de repressão em seus países: “Crescemos na ditadura e diziam para nós que crescíamos protegidos. Eu me interesso muito em saber o que fazemos com a ideia da autoridade. Acredito que crescemos com uma ideia agressiva disso. O que escrevo nos livros é uma busca, uma forma de falar desses assuntos”.

“Marques realçou que no Brasil o período da ditadura costuma ser menos debatido do que no Chile. “Temos um presidente que é capaz de fazer uma homenagem a um torturador.” E, segundo menciona o artigo, Zambra completou com a avaliação de sua última visita ao país: “Quando estive no Brasil, Bolsonaro ainda não havia sido eleito, mas me identifiquei com os diálogos sem esperança dos meus amigos brasileiros. É difícil não falar disso.”

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