Aramis Millarch: amigo, parceiro de sonhos – Crônicas de Cláudio Ribeiro

 

 

Falar de Aramis Millarch é mais do que lembrar um jornalista; é revisitar uma época em que a paixão pela cultura se escrevia com tinta diária, curiosidade infinita e compromisso com a memória. Há pessoas que passam pela vida deixando marcas discretas, e há aquelas que constroem trilhas para que outros possam caminhar. Aramis foi dessas.

Tive o privilégio de compartilhar sua amizade, algo que sempre considerei um presente raro. Reconhecer isso hoje é também uma forma de celebrar o valor único que cada pessoa pode ter na vida de outra. Aramis não era apenas um profissional brilhante — era um parceiro de sonhos, alguém que acreditava que a cultura precisava ser registrada, discutida e preservada.

Nascido em 12 de julho de 1943 e partindo cedo demais em 13 de julho de 1992, Aramis construiu, em apenas 49 anos de vida, uma trajetória que muitos levariam várias vidas para alcançar. Durante 32 anos de profissão, tornou-se um dos mais importantes jornalistas e críticos de música e cinema do Brasil. Sua escrita acompanhou festivais, debates, movimentos artísticos e transformações culturais que marcaram o país.

Entre tantas conquistas, destacou-se como um dos poucos paranaenses a receber o prestigioso Prêmio Esso de Jornalismo, reconhecimento reservado a profissionais cuja contribuição ultrapassa o cotidiano da notícia e alcança o território da história.

Aramis também esteve presente nos principais festivais, concursos e prêmios nacionais dedicados à arte e à cultura. Onde houvesse música, cinema ou reflexão sobre identidade cultural brasileira, era provável encontrar sua presença atenta, seu bloco de anotações e seu olhar crítico, sempre generoso com o talento e exigente com a mediocridade.

Outro capítulo essencial de sua trajetória foi a participação na criação da Associação dos Pesquisadores da Música Popular Brasileira, entidade da qual foi fundador e primeiro presidente.

Estavam presentes nomes fundamentais do estudo da música brasileira, como Sérgio Cabral, jornalista e pesquisador da música brasileira; Ary Vasconcelos, historiador e pesquisador da música popular; José Ramos Tinhorão, crítico musical e historiador da MPB; Roberto Moura, jornalista e pesquisador da cultura brasileira; Ruy Castro, escritor e pesquisador da música popular; Tárik de Souza, jornalista e crítico musical; Zuza Homem de Mello, jornalista, musicólogo e pesquisador da música brasileira; além de Hermínio Bello de Carvalho, compositor e pesquisador.

Eu também estava ali, presente — participando, testemunhando e, sobretudo, aprendendo.

Ali se consolidava algo que ele sempre defendeu: a música popular brasileira não é apenas entretenimento — é documento histórico, expressão de um povo,  E a seu convite participei patrimônio cultural.

Mas para além do jornalista respeitado, havia o amigo generoso. Aramis tinha um hábito que revelava muito de sua personalidade: quando recebia artistas de grande prestígio — e foram muitos — sempre me convidava para participar das rodas de entrevistas, dos bate-papos demorados e, muitas vezes, dos almoços que se estendiam entre histórias, música e risadas.

Foi assim, de forma natural e afetuosa, que acabei convivendo e fazendo amizade com quase todos os grandes nomes do cancioneiro popular que frequentavam a casa daquele grande amigo. A casa de Aramis não era apenas um endereço; era um ponto de encontro da cultura brasileira, um lugar onde ideias, canções e memórias circulavam com liberdade.

Como consequência natural dessa dedicação incansável, Aramis deixou dois legados monumentais.

O primeiro é material e impressionante: um dos maiores acervos de música e cinema do país. São mais de 30 mil discos, além de livros, recortes, documentos e registros acumulados ao longo de décadas. Esse acervo tornou-se uma fonte preciosa de informação para pesquisadores, jornalistas e amantes da cultura brasileira.

O segundo legado é talvez ainda mais poderoso: sua própria obra jornalística. Durante mais de três décadas, Aramis registrou na imprensa o que de mais significativo aconteceu no universo cultural — no Brasil e no exterior. Suas críticas, reportagens e crônicas formam hoje um verdadeiro diário da vida artística de uma época.

Por isso, iniciativas e projetos culturais dedicados ao seu trabalho não são apenas homenagens. São gestos de preservação da memória. São formas de garantir que a sensibilidade, o rigor e a curiosidade de Aramis continuem inspirando novas gerações.

Quando penso nele, não lembro apenas do crítico respeitado ou do jornalista premiado. Lembro do amigo. Das conversas intermináveis sobre um disco recém-descoberto, de um filme que precisava ser visto, de um artista que merecia ser ouvido.

Aramis tinha a rara capacidade de transformar entusiasmo em missão.

E talvez seja essa sua herança mais bonita: mostrar que amar a cultura também é um modo de cuidar da história. Aramis Millarch, seu exemplo ecoa no tempo e me inspira diariamente. Minha gratidão por ser uma fonte tão nobre de inspiração.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Compositor

 

 

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