Ao completar 270 anos, Mozart volta a interpelar o presente: entre toques de celular e óperas abissais, sua música, feita de conflito e humanidade, desafia a ideia de genialidade num tempo de algoritmos criativos
Nesta semana, dia 27 de janeiro de 2026, Wolfgang Amadeus Mozart completa 270 anos. A data poderia soar apenas como um marco redondo na cronologia da música ocidental, mas acaba por soar irônica e perturbadora. Num momento em que a inteligência artificial aprende estilos, replica gestos e produz melodias convincentes, Mozart retorna como pergunta incômoda — o que é, afinal, genialidade? E o que permanece irredutivelmente humano na criação artística?
Perto dos três séculos, Mozart não cabe na moldura dourada do gênio sorridente nem no refrão alegre que virou ringtone. Por que, em meio a tanto som disponível, sua música ainda nos desarma? O estilismo clássico posterior ao barroco, acabou dando uma leveza à música da época, que frequentemente é confundida com futilidade. Mas, para além das bases repetidas de acordes delicados e consonantes, está a inteligência de melodias e massas sonoras que acumulam sombras e dramaticidade. Suas óperas e obras maduras, como o derradeiro e inacabado Requiem, levam seu estilo ao limite, beirando o romantismo rasgado que viria depois.
Para além do menino-prodígio
O clichê persiste: Mozart como criança prodígio, astro pop do século 18, gênio espontâneo que compunha como quem respira. Mas essa imagem açucarada diz pouco sobre o compositor que, em apenas 35 anos de vida, escreveu cerca de 600 obras e passou incontáveis noites solitárias trabalhando, revisando, insistindo.
Sua música, mesmo nas páginas mais leves, abriga fissuras: melancolia sob o brilho, inquietação sob a graça. Nada ali é automático — tudo é resultado de escuta, conflito e escolha.
Chamá-lo de popstar do século 18 é tentador — turnês europeias, aplausos nas cortes, fama precoce. Mas a imagem cai quando se abre a correspondência e se escuta a exaustão. “Era uma criatura que trabalhava duro, noite e dia”, lembra Evelyn Meining, diretora artística do Festival Mozart de Würzburg. O brilho, ali, é suor. A abundância cobra seu preço: solidão, dívida, inquietação.
Mozart não teve túmulo para virar peregrinação. Morreu jovem, enterrado como indigente, numa vala comum. O contraste com a posteridade diz tudo: o mundo demora a entender o que o atravessa. Talvez porque seu gênio não seja um truque, mas um risco contínuo — criar sem garantias, trabalhar sem pausa, escrever sem saber se haverá amanhã.
O trabalho invisível do gênio
A mitologia romântica costuma imaginar o gênio como raio divino. Mozart desmonta essa fantasia. Seu talento parecia não ter botão de desligar, mas vinha acompanhado de exaustão, angústia e precariedade. Morreu jovem, enterrado numa vala comum, sem monumento imediato, como se a posteridade ainda não soubesse o que fazer com tamanha densidade.
Essa dimensão humana — imperfeita, contraditória — é parte indissociável de sua obra. A música não surge do nada; nasce de um corpo, de uma vida atravessada por tensões sociais, afetivas e espirituais.
Mesmo quando dança, Mozart pensa. Eine kleine Nachtmusik sorri, mas não se livra da gravidade. A Flauta Mágica encanta crianças e adultos, mas fala de provas, medo e passagem. O que parece simples abriga conflito. A música não anestesia; revela. E revela porque conhece a ambivalência: alegria que não apaga a tristeza, fé que convive com o frio no peito — “tudo é frio para mim, frio como gelo”, escreveu ele.
Nas óperas, Mozart testa a condição humana. Don Giovanni recusa o arrependimento e cai — não por moralismo, mas por coerência trágica. Così fan tutte brinca e fere: todos erram, todos desejam, todos perdoam — ou fingem. O perdão, aqui, não vem do alto; é negociado entre iguais. Para Nikolaus Harnoncourt, é a ópera mais triste de todas. Porque amadurecer dói.
Mozart diante dos algoritmos
É aqui que o aniversário de 270 anos encontra a inteligência artificial. Hoje, programas analisam milhares de partituras, imitam estilos, “completam” sinfonias inacabadas e produzem músicas capazes de emocionar. A pergunta não é mais se a IA pode compor “como Mozart”, mas o que isso realmente significa.
Algoritmos reconhecem padrões; Mozart os inventava, distorcia, contrariava. Onde a IA opera por probabilidade, Mozart operava por risco. Sua originalidade não está apenas no resultado sonoro, mas na tensão entre forma e abismo, regra e transgressão.
Genialidade como responsabilidade
Análises contemporâneas, mostram Mozart como explorador da alma — alguém que encarou a culpa sem anestesia e o perdão sem ingenuidade. Ao relacionar suas óperas a temas como guerra, memória e extremismo, sugere-se que a arte não é ornamento, mas tomada de posição.
Talvez seja esse o ponto de fricção com a IA: a genialidade humana não se limita à invenção formal, mas carrega responsabilidade ética, histórica e emocional. Não basta soar belo; é preciso responder ao mundo.
O que permanece humano
A inteligência artificial pode gerar música; Mozart gerava sentido. Pode imitar emoções; Mozart as atravessava. Em tempos de criação acelerada e automatizada, sua obra lembra que a arte nasce do atrito entre disciplina e vulnerabilidade.
Aos 270 anos, Mozart não é relíquia nem fetiche cultural. É um desafio vivo. Num mundo em que máquinas aprendem a compor, ele insiste em nos perguntar se ainda sabemos ouvir — e, sobretudo, sentir — aquilo que nenhuma inteligência artificial consegue experimentar.
Aos 270 anos, Mozart não é peruca, chocolate nem jingle. É método: ouvir o humano até onde dói. Num tempo que celebra a facilidade e a reprodução, ele lembra que arte é fricção. E que, enquanto houver culpa a encarar e perdão a negociar, sua música seguirá atual — não como trilha sonora, mas como espelho da condição humana em toda a sua complexidade.
Faça um comentário