Criado em 1989 pelo jornalista paranaense em referência a Luiz Inácio Lula da Silva, gesto que marcou a política brasileira ganha novos significados diante da proposta de internacionalização apresentada por Ada Colau, ex-prefeita de Barcelona. Para seu criador, o “L” ultrapassa a identificação partidária e se transforma em uma mensagem de democracia, igualdade, solidariedade e esperança.
O que nasce como símbolo de uma trajetória política nem sempre permanece limitado às circunstâncias que lhe deram origem. Alguns gestos atravessam gerações, conquistam novos espaços e passam a expressar valores que ultrapassam fronteiras, idiomas e nacionalidades. É nesse contexto que o gesto do “L”, criado em 1989 pelo jornalista paranaense Mário Milani em referência a Luiz Inácio Lula da Silva, volta ao centro do debate político e cultural.
Em entrevista ao Portal Brasil Cultura, Milani comenta a possibilidade de o gesto ganhar uma dimensão internacional a partir da proposta de Ada Colau, ex-prefeita de Barcelona, de associá-lo à resistência ao fascismo. Para o jornalista, essa perspectiva amplia o alcance de um símbolo que nasceu no ambiente da militância política brasileira, mas cuja mensagem, segundo ele, pode dialogar com as grandes questões democráticas do nosso tempo.
“Em 1989, criei o gesto não verbal do L, feito com os dedos indicador e polegar da mão direita. Nasceu como um símbolo de Lula, mas seu significado ultrapassou o tempo, as fronteiras e as gerações”, afirma Milani.
A possibilidade de internacionalização, nessa perspectiva, não representa necessariamente o abandono das origens do gesto, mas a ampliação de seu campo de significados. O “L” continua ligado à história política de Lula e à participação popular que o acompanha, ao mesmo tempo que passa a ser reivindicado como expressão de valores universais, como liberdade, justiça social e dignidade humana.
Um gesto brasileiro, uma linguagem universal
A força do “L” está também na simplicidade de sua comunicação. Sem palavras, discursos ou traduções, a mão desenha uma letra que remete imediatamente a Lula, mas permite associações mais amplas. Para Milani, essa capacidade de comunicação explica por que o símbolo pode encontrar ressonância em diferentes sociedades.
“Hoje, faço o L para o Brasil e para o mundo. Faço o L por todos aqueles que acreditam que a humanidade pode ser melhor, mais justa, solidária e fraterna”, declara.
A dimensão internacional do gesto também se relaciona às manifestações de apoio à democracia brasileira e à trajetória política de Lula protagonizadas por personalidades estrangeiras. Entre os nomes associados a essas manifestações estão os atores Mark Ruffalo, Danny Glover e Javier Bardem, a atriz Tilda Swinton, o músico Roger Waters e os cineastas Pedro Almodóvar e Guillermo del Toro.
Essas manifestações demonstram como os acontecimentos políticos brasileiros podem despertar interesse e mobilização em outros países, especialmente quando estão relacionados a temas como democracia, preservação ambiental, direitos dos povos indígenas e direitos humanos.
Para Milani, a mensagem é clara: “A democracia não tem passaporte. A liberdade não pertence a uma única nação. A luta contra a desigualdade é uma causa humana e universal”.
A resistência ao fascismo e o desafio da ressignificação
A proposta de Ada Colau introduz uma questão relevante: até que ponto um símbolo político pode ser apropriado por movimentos internacionais sem perder sua identidade original?
A resposta exige reconhecer que os símbolos não são estáticos. Eles nascem em determinadas circunstâncias históricas, mas podem adquirir novos sentidos conforme são incorporados por diferentes grupos sociais. A internacionalização do “L”, portanto, abre espaço para uma reflexão sobre a relação entre memória política, identidade coletiva e valores democráticos.
No entendimento de Milani, fazer o “L” significa assumir uma posição diante de diferentes formas de opressão e discriminação.
“Faço o L contra o racismo, a homofobia, o fascismo, o nazismo, a segregação e todas as formas de discriminação”, afirma.
O jornalista também associa o gesto à defesa da igualdade de direitos, da liberdade de amar e do respeito às diferenças. Seu argumento amplia o significado político do símbolo para além do apoio a uma liderança: trata-se, em sua visão, de expressar um compromisso com a dignidade humana.
Essa ampliação, contudo, não elimina a importância de preservar a história do gesto e reconhecer sua origem. Ao contrário, é justamente o conhecimento de sua trajetória que permite compreender como uma criação vinculada à política brasileira pode participar de debates internacionais sem que sua memória seja apagada.
Contra a indiferença e a desigualdade
Na interpretação de Milani, a defesa da democracia não pode se restringir às instituições e aos processos eleitorais. Ela também depende das condições concretas de vida, do combate à fome, da redução das desigualdades e da capacidade de reconhecer o sofrimento alheio.
Ao criticar a valorização excessiva do dinheiro e a indiferença diante das injustiças, o jornalista atribui ao “L” uma dimensão ética e social.
“Porque existe uma diferença entre ter riqueza e ter grandeza. Entre acumular dinheiro e construir um legado. Entre vencer na vida e ajudar outras pessoas a viverem com dignidade”, afirma.
É nesse ponto que seu discurso assume um caráter humanista. O gesto passa a representar, para seu criador, uma escolha de valores: colocar a vida acima do lucro, a solidariedade acima do individualismo e o respeito acima do preconceito.
“Sou um homem do ideal, não do vil metal”, resume.
A frase sintetiza a visão de mundo que Milani associa à criação de 1989 e à possibilidade de o símbolo conquistar novos públicos. Mais do que uma manifestação visual de apoio político, o “L” seria uma forma de tornar visível um posicionamento diante das desigualdades e dos desafios da convivência democrática.
L de Lula, luta, liberdade e Liberté
A dimensão internacional do gesto também aparece na relação entre a letra e as palavras que ela evoca em diferentes idiomas.
“L de Lula. L de luta. L de liberdade. L de livre. L de Liberté, em francês. L de Libertad, em espanhol. L de Liberty, em inglês”, enumera Milani.
A associação linguística não apaga a referência original a Lula. Ela acrescenta novas possibilidades de interpretação e aproxima o símbolo de pessoas que compartilham valores semelhantes, mesmo sem a mesma história política ou identidade nacional.
“L de amor, de luz, de laços entre os povos”, acrescenta.
Essa leitura propõe que a identidade de um símbolo pode permanecer ligada à sua origem e, simultaneamente, adquirir novos significados. O desafio está em permitir que a ampliação seja acompanhada de consciência histórica e de um compromisso coerente com os valores que se pretende defender.
O futuro de um símbolo em um mundo dividido
Em tempos de polarização política, intolerância e conflitos ideológicos, a proposta de transformar o “L” em símbolo internacional de resistência ao fascismo coloca em evidência o papel dos gestos públicos na construção de identidades coletivas.
Símbolos não substituem políticas públicas, instituições democráticas ou mobilização social. Mas podem condensar ideias, despertar sentimentos de pertencimento e tornar visíveis compromissos que, de outra forma, permaneceriam dispersos.
Para Mário Milani, a possibilidade de ver sua criação ultrapassar as fronteiras brasileiras representa a continuidade de uma mensagem que considera maior do que qualquer circunstância política imediata.
“Faço o L por um mundo sem muros de ódio, sem perseguições, sem racismo e sem intolerância. Um mundo em que as diferenças não sejam motivo de guerra, mas oportunidade de convivência.”
A declaração aponta para uma concepção de democracia que não se limita à disputa pelo poder, mas envolve a defesa cotidiana dos direitos, o respeito às diferenças e a solidariedade entre os povos.
Ao mesmo tempo, a discussão proposta por Ada Colau convida a sociedade a refletir sobre como símbolos nacionais podem participar de causas globais sem perder suas raízes históricas. No caso do “L”, a origem brasileira e a referência a Lula permanecem centrais, mesmo quando a letra passa a representar, para seu criador, um horizonte mais amplo de liberdade e justiça social.
Na síntese de Milani, o gesto mantém sua força justamente por ser simples, reconhecível e capaz de comunicar uma ideia sem depender de palavras.
“A mão se levanta. Os dedos formam a letra. A mensagem atravessa fronteiras.”
E conclui com uma convocação que traduz sua interpretação pessoal do símbolo:
“FAZ O L! L DE LULA. L DE LIBERDADE. L DE LUTA.”
Um gesto brasileiro. Uma mensagem universal.
Mário Milani — 2026
Portal Brasil Cultura



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