Com a participação popular e a juventude no centro da mobilização, a vitória de Lula reabre o debate sobre democracia, direitos sociais e soberania cultural — em um país cuja música é cada vez mais atravessada pelos interesses do mercado, do agronegócio e da política.
Por uma perspectiva crítica do jornalismo cultural
Há vitórias eleitorais que ultrapassam as urnas. Elas expressam expectativas, revelam divisões profundas e reabrem disputas sobre o país que uma sociedade deseja construir. A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026, insere-se nesse contexto. Com 51,79% dos votos válidos, diante dos 48,21% obtidos por Flávio Bolsonaro, Lula conquistou um novo mandato em uma eleição marcada pela polarização política. O resultado oficial, anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), confirma a escolha da maioria dos eleitores que votaram em um dos candidatos no segundo turno. <sup>1</sup>
Mas o que começa depois das urnas? Como transformar expectativas de justiça social, fortalecimento democrático e soberania nacional em mudanças concretas na vida cotidiana?
Uma parte da resposta passa pela cultura — e, particularmente, pela música popular brasileira.
A cultura não é um ornamento da democracia, reservado aos festivais, às cerimônias oficiais e aos discursos de ocasião. É um espaço de disputa por valores, construção de identidades e interpretação da realidade. Nela se projetam sonhos, contradições e conflitos que atravessam a sociedade. Também se definem, muitas vezes de maneira silenciosa, quais experiências merecem visibilidade, quais grupos ocupam o centro da narrativa nacional e quais vozes permanecem à margem.
Por isso, discutir o futuro da música brasileira significa ir além dos gostos pessoais e das rivalidades entre gêneros. Significa perguntar quem financia a produção cultural, quem controla os grandes circuitos de divulgação, quais interesses orientam a indústria do entretenimento e que espaço ainda existe para a diversidade artística em um mercado cada vez mais concentrado.
A cultura também é um campo de disputa democrática
Da tradição do samba às canções de protesto, da Tropicália ao rap, do forró à MPB, a música brasileira construiu formas próprias de narrar o país. Em diferentes épocas, artistas transformaram experiências individuais e coletivas em expressão estética, memória social e crítica política.
Durante a ditadura militar, músicos enfrentaram censura, perseguição e exílio. Em outros momentos, a canção popular deu voz às lutas dos trabalhadores, aos movimentos negros, às reivindicações das mulheres e às aspirações democráticas de uma sociedade que procurava superar suas estruturas autoritárias.
Essa história não significa que toda música deva assumir uma posição partidária, nem que a qualidade artística possa ser medida pela concordância com determinada ideologia. A liberdade de criação pressupõe justamente o direito à experimentação, à divergência e à existência de obras que não tenham qualquer compromisso explícito com a política.
O ponto central é outro: uma democracia culturalmente saudável precisa garantir condições para que diferentes expressões existam, circulem e encontrem seus públicos. Isso exige políticas públicas consistentes, financiamento transparente, preservação do patrimônio, formação artística e oportunidades para produtores independentes, artistas regionais e novas gerações.
Exige também impedir que o financiamento público se transforme em instrumento de propaganda governamental ou de perseguição a quem pensa diferente. A cultura pertence à sociedade, não a um governo, a um partido ou a um grupo empresarial.
Agronejo: quando a música encontra o poder econômico
A ascensão do agronejo, vertente contemporânea do sertanejo associada à estética e ao imaginário do agronegócio, oferece um ponto de partida para compreender as relações entre música, mercado e política no Brasil atual.
Caminhonetes de luxo, grandes propriedades, festas milionárias, marcas patrocinadoras e referências recorrentes à prosperidade material compõem parte da identidade visual e comercial desse segmento. O campo, nesse universo, aparece frequentemente associado ao sucesso empresarial, ao consumo e à conquista individual.
Essa representação não surgiu por acaso. Ela dialoga com um setor econômico de grande peso nacional e com uma indústria do entretenimento capaz de reunir artistas, patrocinadores, produtores de eventos, empresários e lideranças políticas em torno de interesses convergentes.
O apoio público de artistas sertanejos a candidaturas de direita, quando documentado, também merece análise jornalística. Mais do que julgar preferências eleitorais individuais, interessa compreender como se estabelecem as relações entre celebridade, poder econômico, financiamento de eventos e construção de identidades políticas.
A questão não é condenar o sertanejo. A música sertaneja possui uma história ampla e diversa, vinculada à vida rural, à migração, ao trabalho, à saudade, aos afetos e à urbanização brasileira. Tampouco se pode presumir que todos os artistas, produtores ou ouvintes do gênero compartilhem a mesma visão de mundo.
O problema começa quando uma expressão cultural é reduzida a uma vitrine de prosperidade e determinada visão econômica passa a ser apresentada como se representasse, sozinha, o Brasil rural.
É nesse contexto que aparece o termo provocativo agronojo, empregado em certos discursos críticos como uma forma de contestar a associação entre agronegócio, ostentação e conservadorismo político. A expressão pode funcionar como provocação, mas não substitui a análise. Quando o deboche ocupa o lugar da investigação, corre-se o risco de trocar a crítica às estruturas de poder pelo desprezo a artistas e públicos.
A pergunta relevante é mais profunda: quem financia os grandes espetáculos? Como se distribuem os recursos de patrocínio? Quais artistas conseguem ocupar os principais palcos e espaços publicitários? Que narrativas recebem investimento contínuo e quais dependem de iniciativas locais, editais ou redes de apoio comunitário?
O agronegócio brasileiro é heterogêneo e tem grande importância econômica. Ao mesmo tempo, sua expansão e suas formas de organização estão relacionadas a debates sobre concentração fundiária, conflitos territoriais, condições de trabalho e impactos ambientais. Examinar essas questões não significa atribuir as mesmas responsabilidades a todos os produtores rurais. Significa reconhecer que o poder econômico também produz representações culturais — e que essas representações podem ser investigadas.
O jornalismo cultural precisa olhar para essas conexões sem se limitar à promoção de lançamentos, à reprodução de discursos publicitários ou à guerra de opiniões nas redes sociais.
A perversidade não está no ritmo, mas nas relações de poder
Uma das contradições da indústria cultural contemporânea está na distância entre determinadas imagens de prosperidade e as condições materiais de vida de grande parte da população.
Enquanto grandes espetáculos movimentam patrocínios, publicidade e contratos milionários, inúmeros trabalhadores enfrentam baixos salários, insegurança econômica e dificuldades de acesso à cultura. A contradição se torna mais evidente quando a ostentação deixa de ser apenas um recurso estético e passa a funcionar como medida universal de sucesso.
O capitalismo contemporâneo não comercializa apenas produtos. Comercializa estilos de vida, aspirações e identidades. A publicidade associa felicidade ao consumo; as redes sociais transformam a exposição da riqueza em conteúdo; e a indústria do entretenimento converte imagens de sucesso em marcas capazes de gerar audiência e lucro.
A música participa desse processo, mas não é sua única responsável.
Seria equivocado atribuir ao público uma postura passiva ou imaginar que ouvir determinada canção significa aderir a um projeto político. As pessoas se relacionam com a música por razões afetivas, familiares, estéticas e culturais. Uma canção pode acompanhar uma história de amor, uma festa entre amigos ou uma lembrança de infância sem que o ouvinte compartilhe todos os valores sugeridos por sua letra ou por seu videoclipe.
A crítica deve se dirigir às estruturas que condicionam a produção e a circulação cultural, não à desqualificação de quem consome.
O que merece ser questionado é a naturalização de um mundo no qual o sucesso parece pertencer exclusivamente aos grandes proprietários, aos empresários e aos consumidores de luxo, enquanto o trabalho cotidiano, a solidariedade e os direitos coletivos desaparecem da paisagem simbólica.
Quando a cultura apresenta a riqueza como único horizonte desejável, pode contribuir para transformar desigualdades históricas em diferenças aparentemente naturais entre indivíduos. Quando amplia as experiências representadas, pode revelar o trabalho invisível, dar centralidade aos grupos historicamente silenciados e abrir espaço para outras formas de imaginar o futuro.
A perversidade, portanto, não reside em um acorde, em um ritmo ou em uma preferência musical. Está nas relações de poder que limitam as oportunidades de criação, circulação e reconhecimento.
MPB, plataformas digitais e concentração de mercado
A defesa da música popular brasileira não precisa se transformar em uma disputa entre MPB e sertanejo. Ambos os universos são diversos, possuem públicos próprios e se transformam continuamente. A questão fundamental é saber se existe espaço suficiente para essa diversidade em um mercado no qual plataformas digitais, gravadoras, redes sociais, anunciantes e grandes produtores de eventos influenciam a visibilidade dos artistas.
A internet ampliou as possibilidades de gravação, distribuição e divulgação. Hoje, artistas podem lançar músicas sem depender exclusivamente das estruturas tradicionais da indústria fonográfica. Ao mesmo tempo, a abundância de conteúdo tornou a atenção um recurso disputado, e alcançar um público amplo continua sendo um desafio.
Estar disponível em uma plataforma não significa necessariamente ser ouvido. A circulação depende de mecanismos de recomendação, estratégias de divulgação, investimentos promocionais e da capacidade de construir uma audiência em meio a uma oferta praticamente inesgotável de conteúdo.
Nesse ambiente, artistas independentes, músicos regionais e projetos experimentais frequentemente enfrentam dificuldades para financiar gravações, organizar turnês e garantir remuneração adequada. A concentração de recursos e oportunidades pode reduzir a diversidade efetivamente acessível ao público, mesmo quando a diversidade de conteúdo parece ilimitada.
A defesa da MPB, entendida aqui em sentido amplo como uma tradição de criação, experimentação e interpretação crítica do Brasil, deve partir desse diagnóstico. Não se trata de exigir privilégios para determinados artistas nem de impor uma estética oficial, mas de ampliar as condições de produção e circulação.
Samba, choro, forró, rap, funk, rock, música indígena, tradições afro-brasileiras, expressões regionais e diferentes vertentes do sertanejo precisam encontrar caminhos sustentáveis para desenvolver seus públicos.
O país não precisa escolher entre sucesso popular e qualidade artística. Precisa evitar que o sucesso comercial de alguns se transforme em barreira para a existência de muitos outros.
Juventude: da mobilização política à participação cultural
A juventude ocupa lugar decisivo nesse debate. É uma geração que cresceu conectada, produz conteúdo, compartilha referências culturais e acompanha a política em um ambiente marcado pela velocidade da informação, pela disputa de narrativas e pela economia da atenção.
As plataformas abriram possibilidades inéditas de expressão. Jovens artistas podem gravar em casa, divulgar trabalhos sem grandes intermediários e construir comunidades em torno de suas produções. Mas a democratização das ferramentas não eliminou as desigualdades de acesso, a precariedade profissional nem a dependência dos mecanismos comerciais de visibilidade.
Também não existe uma juventude homogênea. Jovens brasileiros possuem experiências sociais, convicções políticas e preferências culturais muito diferentes. Sua importância democrática não está em corresponder a uma expectativa ideológica, mas em participar da construção de uma sociedade na qual possam desenvolver suas capacidades e influenciar as decisões coletivas.
Uma política cultural voltada às novas gerações precisa ir além de campanhas pontuais. São necessários espaços de ensaio e apresentação, bibliotecas, centros culturais, formação artística, editais acessíveis, proteção dos direitos autorais e oportunidades profissionais.
É igualmente importante reconhecer a produção das periferias, das universidades, dos territórios indígenas, das comunidades quilombolas e das pequenas cidades. Nesses lugares, a cultura não é apenas entretenimento: também é trabalho, pertencimento, memória e possibilidade de transformação social.
A juventude não pode ser lembrada somente durante as eleições ou convocada apenas para mobilizações ocasionais. Precisa encontrar condições permanentes para produzir, trabalhar, participar e decidir.
Cultura também é trabalho — e democracia também é direito social
Por trás dos grandes espetáculos existe uma cadeia de trabalhadores que raramente ocupa o centro das atenções: técnicos de som, iluminadores, montadores de palco, profissionais de limpeza, seguranças, motoristas, músicos contratados e tantos outros responsáveis por fazer um evento acontecer.
A valorização da cultura exige remuneração justa, contratos transparentes, segurança, respeito aos direitos autorais e condições dignas de trabalho. A precarização não se torna menos grave porque ocorre em um setor associado à criatividade e ao entretenimento.
Essa dimensão precisa integrar o debate sobre desenvolvimento nacional. Não basta celebrar o crescimento da indústria cultural se os benefícios ficam concentrados e os profissionais que sustentam sua atividade permanecem vulneráveis.
O mesmo princípio vale para o conjunto da sociedade. A democracia se fortalece quando a liberdade política vem acompanhada de condições materiais para exercê-la. Educação pública, saúde, proteção social, valorização do trabalho e combate à pobreza não são temas separados da vida cultural: influenciam quem consegue estudar música, frequentar um teatro, adquirir um livro ou dedicar tempo à criação artística.
A soberania nacional também precisa ser compreendida para além dos discursos patrióticos. Envolve capacidade de decisão sobre os recursos do país, desenvolvimento científico e tecnológico, proteção ambiental, valorização do trabalho e fortalecimento de atividades produtivas capazes de gerar conhecimento e renda.
Inclui, ainda, a capacidade de preservar a memória e produzir nossas próprias narrativas, sem depender inteiramente dos interesses de grandes grupos econômicos ou de padrões culturais impostos de fora.
A música brasileira reúne sotaques, ritmos, idiomas, tradições religiosas, experiências migratórias e formas de resistência que não cabem em uma identidade nacional uniforme. Sua força está justamente nessa multiplicidade.
O papel do Estado: garantir diversidade sem impor uma estética
Se a cultura é um direito e um elemento estratégico da vida democrática, cabe ao Estado criar condições para que ela floresça. Isso significa investir de forma continuada, preservar arquivos e acervos, incentivar a pesquisa, ampliar a formação artística e democratizar o acesso às tecnologias de produção e distribuição.
Significa também assegurar transparência na aplicação dos recursos públicos, critérios claros de seleção e distribuição regional equilibrada dos investimentos. Políticas culturais precisam alcançar não apenas os grandes centros e os projetos de maior visibilidade, mas também comunidades e artistas que encontram dificuldades para acessar os circuitos comerciais.
A atuação pública, entretanto, deve respeitar a autonomia da criação. Financiar cultura não significa determinar o que os artistas devem cantar, quais ideias podem defender ou que estética representa oficialmente a nação.
Uma política democrática precisa proteger tanto as manifestações que dialogam com o governo quanto aquelas que o criticam. O pluralismo perde sentido quando se converte em exigência de alinhamento político.
O desafio é construir um ambiente no qual a liberdade artística não dependa exclusivamente da capacidade de atrair patrocinadores, conquistar algoritmos ou se submeter às exigências de rentabilidade imediata.
Uma vitória eleitoral não é uma transformação concluída
A reeleição de Lula abre um novo capítulo político, mas não resolve automaticamente a polarização, a desigualdade ou os conflitos que atravessam a sociedade brasileira. Tampouco garante, por si só, o fortalecimento da cultura ou a ampliação dos direitos sociais.
As expectativas precisam ser acompanhadas de cobrança pública. No campo cultural, isso significa avaliar os investimentos, a transparência dos editais, a distribuição regional dos recursos, as condições de trabalho e os resultados das políticas de acesso.
É preciso reconhecer, ainda, que nenhuma transformação depende exclusivamente da vontade de um presidente. Movimentos sociais, trabalhadores, artistas, educadores, universidades, organizações comunitárias, empresas e instituições democráticas participam, de diferentes maneiras, da construção dos rumos nacionais.
Se o resultado eleitoral representa uma oportunidade, convertê-la em avanços concretos exige participação social, políticas consistentes e capacidade de enfrentar interesses estabelecidos.
A cultura pode contribuir para esse processo não porque deva se tornar instrumento de um governo, mas porque é um dos espaços em que a sociedade interpreta a própria realidade, questiona suas contradições e imagina alternativas.
O Brasil que queremos ouvir
No fim, a discussão sobre agronejo, MPB, juventude e indústria cultural conduz a uma pergunta maior: quem tem o poder de definir o imaginário brasileiro?
Uma cultura democrática não precisa silenciar o sertanejo para valorizar o samba, nem desqualificar o público dos grandes festivais para defender artistas independentes. Precisa questionar a concentração de oportunidades, investigar os interesses que atravessam a produção cultural e garantir que a diversidade não seja apenas um slogan publicitário.
O futuro da música brasileira será construído nas plataformas digitais e nos grandes palcos, mas também nos bairros, nas escolas, nos terreiros, nos estúdios independentes, nas universidades e nos espaços culturais de pequenas cidades. Será resultado tanto das escolhas individuais quanto das condições coletivas que permitem a uma sociedade criar e compartilhar suas histórias.
É nesses espaços que a cultura revela aquilo que a publicidade nem sempre mostra: um país não é apenas a imagem de sua riqueza, mas a expressão das vidas que o constroem.
A vitória eleitoral pode renovar as expectativas de fortalecimento democrático, ampliação dos direitos sociais e valorização da cultura. Mas a profundidade dessa mudança dependerá das decisões tomadas, dos recursos aplicados e da capacidade de preservar a autonomia crítica da sociedade.
Se a democracia deve ser mais do que um procedimento eleitoral, a cultura também precisa ser mais do que um negócio. Ambas devem servir à liberdade, à dignidade humana e à possibilidade de que cada brasileiro participe da construção de um futuro coletivo.
A tarefa histórica não é impor uma música oficial ao país, mas garantir que o poder econômico não tenha a última palavra sobre aquilo que o Brasil pode ouvir, criar, lembrar e imaginar.
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