Paulo Freire, Maurício Requião e a coragem de ensinar pessoas a pensar
Há datas que o calendário registra. E há datas que a memória transforma em significado.
19 de setembro é uma delas.
Foi nesse dia, em 1921, que nasceu Paulo Freire, um dos mais importantes educadores brasileiros e uma das vozes mais reconhecidas da educação no mundo.
E foi também em um 19 de setembro, muitos anos depois, que nasceu meu amigo Maurício Requião, professor da Universidade Federal do Paraná, ex-secretário de Educação e alguém por quem nutro profunda admiração, respeito e carinho.
Duas vidas separadas pelo tempo. Duas trajetórias distintas. Dois homens que construíram suas próprias histórias.
Mas, para mim, unidos por uma ideia que transcende a coincidência do calendário: a educação como possibilidade de transformar pessoas e, por meio delas, transformar o mundo.
E talvez seja justamente essa conexão que torne o 19 de setembro tão especial.
Educar nunca foi apenas transmitir conhecimento
Paulo Freire nasceu no Recife, em 1921. Ao longo de sua vida, construiu uma obra que ultrapassou os limites da sala de aula e alcançou uma questão essencial da existência humana: o direito de compreender o mundo e participar de sua transformação.
Para Freire, ensinar não era simplesmente depositar informações na cabeça de alguém.
Educar era despertar.
Era provocar a curiosidade.
Era estimular o pensamento.
Era reconhecer que cada pessoa carrega consigo uma história, uma experiência e um conhecimento que merecem ser considerados.
Era compreender que o estudante não deveria ser um espectador passivo da própria formação, mas um sujeito capaz de interpretar a realidade, questioná-la e participar da construção de novas possibilidades.
Freire acreditava que a educação poderia devolver às pessoas algo que a desigualdade, muitas vezes, lhes tentava roubar: a confiança de que suas vozes têm valor.
E isso tinha consequências que iam muito além dos livros.
Ensinar um trabalhador a ler e escrever não significava apenas ajudá-lo a decifrar palavras.
Significava também oferecer instrumentos para que ele pudesse compreender um contrato, interpretar uma notícia, questionar uma injustiça e reconhecer-se como alguém com direitos.
Quem aprende a ler uma palavra pode começar a ler o mundo.
Quem aprende a fazer perguntas pode começar a questionar o lugar que lhe foi reservado na sociedade.
E quem descobre que sua voz importa dificilmente aceita, para sempre, que outros decidam tudo em seu nome.
Foi também por isso que Freire se tornou uma figura tão controversa.
Quando pensar se transforma em ameaça
Em 1964, com o golpe militar, o Brasil mergulhou em uma ditadura. Paulo Freire foi preso e, posteriormente, exilado.
Seu trabalho passou a ser associado, por seus adversários, a uma ameaça ideológica.
A história, entretanto, guarda uma ironia poderosa:
o educador que queria ensinar o povo a ler foi perseguido em um contexto no qual pensar criticamente podia ser considerado perigoso.
Não porque a leitura, em si, fosse uma ameaça.
Mas porque pessoas que compreendem a realidade podem começar a questioná-la.
Mais de seis décadas depois, Paulo Freire continua sendo alvo de críticas de setores da direita e da extrema direita brasileira.
Seu nome tornou-se um símbolo. Para alguns, uma referência fundamental. Para outros, um adversário a ser combatido.
O problema é que, muitas vezes, Paulo Freire é discutido sem que sua obra seja efetivamente lida.
Debatem-se frases atribuídas a ele, caricaturas de suas ideias e interpretações simplificadas de seu pensamento.
E, quando isso acontece, perdemos algo essencial: a oportunidade de discutir ideias com seriedade.
Uma sociedade que substitui a leitura pela caricatura empobrece o próprio debate.
Não é preciso concordar integralmente com um pensador para reconhecer a importância de conhecê-lo.
Aliás, a capacidade de discordar com argumentos talvez seja uma das maiores expressões de uma educação verdadeiramente democrática.
A pergunta que continua atravessando o tempo
Vivemos em uma época na qual a informação está ao alcance de quase todos, mas a compreensão nem sempre acompanha essa abundância.
Somos diariamente expostos a desinformação, vídeos manipulados, discursos reduzidos a slogans e algoritmos que frequentemente reforçam aquilo que já acreditamos.
Recebemos milhares de respostas antes mesmo de termos tempo para formular uma pergunta.
É nesse cenário que o pensamento de Paulo Freire continua a provocar reflexão.
O que significa, de fato, aprender?
Será que aprender é apenas memorizar?
Repetir?
Aceitar como verdade aquilo que alguém com mais poder, dinheiro ou visibilidade afirma?
Ou aprender também significa desenvolver a capacidade de investigar, duvidar, comparar e compreender?
Perguntar:
Quem está dizendo isso?
Quais são os argumentos?
Onde estão as evidências?
Quem se beneficia dessa ideia?
Quem pode ser prejudicado?
Que outras perspectivas existem?
Essas perguntas não pertencem a um partido, a uma ideologia ou a um grupo político.
Elas pertencem à própria essência da cidadania.
Uma democracia precisa de pessoas capazes de pensar criticamente, inclusive para discordar umas das outras.
Precisa de cidadãos que não confundam convicção com verdade absoluta.
Precisa de escolas que não tenham como objetivo produzir indivíduos que apenas repitam respostas, mas pessoas capazes de compreender, argumentar e participar.
Porque uma sociedade democrática não deveria temer as perguntas.
Deveria preocupar-se quando as pessoas deixam de fazê-las.
Maurício Requião e a beleza das conexões que a educação cria
É nesse ponto que volto ao 19 de setembro.
É bonito pensar que, na mesma data em que celebramos o nascimento de Paulo Freire, celebramos também o aniversário do professor Maurício Requião, meu amigo e irmão de caminhada.
Não porque suas histórias sejam iguais.
Não porque suas trajetórias possam ser comparadas.
Mas porque a educação é feita, também, dessas conexões silenciosas que o tempo constrói.
Um professor inspira outro.
Um livro atravessa gerações.
Uma pergunta formulada há décadas reaparece na voz de um estudante.
Uma conversa aparentemente simples pode mudar a maneira como alguém enxerga a própria vida.
E uma sala de aula pode abrigar uma semente de transformação cujo alcance jamais seremos capazes de prever.
Paulo Freire nos deixou uma obra que continua provocando debates, reflexões e inquietações.
Maurício, como professor, educador e amigo, representa, para mim, a continuidade de uma conversa que nunca deveria terminar: a educação como espaço de diálogo, de construção de conhecimento e de formação de pessoas capazes de pensar por conta própria.
Não se trata de estabelecer equivalências entre duas histórias.
Trata-se de reconhecer o valor de uma mesma disposição diante da vida: a disposição de ensinar, aprender e compreender que o conhecimento não é uma propriedade de poucos.
É um caminho que se abre quando compartilhado.
O melhor presente talvez seja uma pergunta
Aniversários costumam ser celebrados com abraços, mensagens carinhosas e palavras de reconhecimento.
E tudo isso é importante.
Mas há homenagens que podem ir além das palavras bonitas.
Podem nos deixar uma pergunta.
Uma daquelas que não terminam quando o texto acaba.
Que tipo de sociedade queremos construir quando educamos?
Uma sociedade de pessoas que apenas repetem ou de pessoas que também pensam?
De indivíduos que obedecem sem compreender ou de cidadãos capazes de participar das decisões que afetam suas vidas?
De pessoas que aprendem a decifrar palavras ou de seres humanos que desenvolvem a capacidade de ler e interpretar o mundo?
Talvez essa seja uma das grandes contribuições que Paulo Freire nos deixou: a compreensão de que a educação não se resume àquilo que conseguimos ensinar, mas envolve também aquilo que conseguimos despertar no outro.
A curiosidade.
A autonomia.
A consciência.
A coragem de perguntar.
E talvez esse seja também um dos maiores presentes que um professor pode oferecer aos seus alunos: não a promessa de que terão todas as respostas, mas a confiança de que serão capazes de buscar algumas delas.
O que celebramos, afinal?
No dia 19 de setembro, não celebro apenas dois aniversários.
Celebro duas histórias que me fazem pensar sobre a importância da educação.
Celebro Paulo Freire, sua obra e as perguntas que continuam vivas muito depois de sua partida.
Celebro Maurício Requião, meu amigo, sua trajetória e o carinho que tenho por ele.
Mas, acima de tudo, celebro uma ideia.
A ideia de que a educação pode abrir portas que a desigualdade e o autoritarismo prefeririam manter fechadas.
A ideia de que ensinar é também reconhecer a humanidade de quem aprende.
A ideia de que o conhecimento não deve servir para criar muros, mas para ampliar horizontes.
E a ideia de que uma pergunta bem formulada pode ser o primeiro passo de uma transformação que ainda não conseguimos enxergar.
Neste 19 de setembro, lembro de Paulo.
Lembro de Maurício.
E lembro de que, em um mundo cada vez mais cheio de certezas prontas, talvez um dos gestos mais importantes de um educador seja preservar no outro a liberdade de pensar.
Porque o autoritarismo pode até temer os livros.
Mas existe algo que ele jamais deveria subestimar:
a consciência de quem lê, reflete e decide não aceitar o mundo como se ele estivesse pronto para sempre.
Feliz aniversário, Maurício!
Que a vida lhe devolva, em afeto e reconhecimento, um pouco de tudo aquilo que você ajudou a construir por meio da educação.
E que nunca nos falte a coragem de continuar aprendendo e lutando.
Cláudio Ribeiro
Jornalista • Escritor • Compositor
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