Quem viveu os palanques sabe: a música e a cultura não afastavam o eleitor da política — eram justamente o que levava milhares de pessoas às ruas
Antigamente, os comícios eram uma das principais ferramentas para conquistar votos. Não reuniam apenas aqueles que já estavam decididos: atraíam também milhares de eleitores indecisos, curiosos ou simplesmente interessados em participar de um grande evento. Era justamente nesse contato direto, na emoção do momento e na força da manifestação popular que muitas pessoas acabavam definindo seu voto.
E havia um ingrediente fundamental para levar esse público aos comícios: a participação de artistas e apresentações musicais. Eles funcionavam como um poderoso instrumento de mobilização, atraindo pessoas que talvez não fossem ao evento apenas para ouvir discursos políticos. Ao reunir cultura, entretenimento e política, os comícios conseguiam alcançar um público muito mais amplo e transformar a campanha em um verdadeiro acontecimento popular.
Hoje, com a proibição da participação de artistas em eventos eleitorais, perdeu-se parte importante dessa capacidade de mobilização. O comício deixou de ser, em grande medida, um espaço de encontro espontâneo entre candidatos e população para se tornar uma atividade muito mais restrita e previsível. Ironicamente, uma ferramenta que antes aproximava o eleitor da política acabou esvaziada justamente quando mais se fala na necessidade de ampliar a participação popular.
E digo isso não apenas como uma opinião, mas com base em uma experiência que vivi durante décadas. Desde os meus 15 anos de idade, fui apresentador de inúmeros comícios e pude acompanhar de perto o que realmente levava as pessoas às ruas e como esses eventos eram capazes de conquistar eleitores. Inclusive, tive a honra de ser o apresentador oficial da campanha das Diretas Já, em 1984, um dos maiores movimentos populares da história política brasileira.
Por isso, considero especialmente equivocada a proibição da participação de artistas nos eventos eleitorais. Quem viveu os comícios sabe que a música, a cultura e a presença dos artistas não eram meros adornos de campanha: eram instrumentos de mobilização popular. Proibi-los significa retirar dos comícios justamente um dos elementos que mais contribuíam para transformar uma reunião política em um grande encontro com a sociedade.
É uma contradição difícil de ignorar: enquanto se fala tanto em fortalecer a democracia, a participação popular e o envolvimento do cidadão na política, restringe-se justamente uma das formas históricas de levar esse cidadão às ruas. O resultado é o esvaziamento dos comícios e, consequentemente, o distanciamento entre a política e a população.
Hoje, o comício reúne, em grande parte, quem já decidiu votar no candidato. Quando havia artistas e música, atraía-se também o eleitor indeciso — aquele que ainda poderia ser convencido.
É aí que está o erro estratégico: estamos correndo o risco de fazer comício para quem já está convencido. Reunir militantes e eleitores fiéis pode produzir uma boa fotografia, mas não significa ampliar a base eleitoral — e eleição não se ganha apenas mobilizando quem já decidiu o voto.
Se não houver capacidade de atrair o eleitor indeciso, o eleitor que está fora da bolha e que ainda precisa ser convencido, estaremos abrindo mão justamente de quem pode decidir a eleição. Artistas, música e entretenimento não são um detalhe secundário nesse contexto; são instrumentos para levar gente nova ao espaço político e criar a oportunidade de diálogo com quem normalmente não iria a um comício.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Escritor – Compositor
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