QUEM PAGA A CONTA DO “SERTANOJO”?

 

Entre a tradição da música caipira e a indústria milionária do sertanejo, a discussão não é apenas sobre gosto: envolve cultura, dinheiro público e a disputa pelo imaginário do Brasil

 

Existe uma diferença enorme entre a velha música caipira e aquilo que seus críticos, de forma provocativa, chamam de sertanojo. Uma nasceu da viola, da terra, da poesia, da saudade e das histórias do interior. A outra transformou o universo rural em uma poderosa indústria de entretenimento, marketing, publicidade e celebridades.

Não se trata de demonizar o sertanejo nem de dizer ao público o que deve ouvir. O problema surge quando um determinado modelo musical passa a ocupar uma parcela desproporcional dos espaços culturais e, impulsionado por grandes investimentos e contratos públicos, começa a ser apresentado como se fosse a expressão mais autêntica — ou até a principal representação — do Brasil.

A comparação entre Marília Mendonça e Ana Castela ajuda a compreender essa transformação.

Marília ampliou o protagonismo feminino no sertanejo ao colocar mulheres no centro de histórias sobre amor, abandono, desejo, independência e contradições. Sua relevância artística esteve, sobretudo, na capacidade de transformar experiências pessoais e coletivas em canções que alcançaram milhões de pessoas.

Ana Castela (Ana Castela mora atualmente na mansão que virou seu lar em Londrina), representa outro momento da indústria. Sua trajetória combina música, redes sociais, estética cuidadosamente construída, forte apelo comercial e diálogo com um determinado imaginário rural e político. Nada disso, por si só, constitui um problema. Artistas têm liberdade para manifestar suas preferências e posições.

A questão muda de natureza quando celebridade, política e dinheiro público se encontram.

Há relatos e informações públicas sobre contratos envolvendo valores expressivos e também foi mencionada uma emenda de R$ 850 mil relacionada a uma apresentação com finalidade política. Essas informações precisam ser verificadas, contextualizadas e documentadas antes que se transformem em acusações.

Mas, se houver utilização de recursos públicos, as perguntas são perfeitamente legítimas:

Quanto foi pago? Quem pagou? Para quê? Qual foi o interesse público? Houve critérios transparentes para a contratação?

E, caso recursos públicos tenham sido utilizados de maneira irregular ou com finalidade eleitoral, cabe às autoridades competentes apurar responsabilidades.

O problema não é a artista. É o sistema.

O debate também alcança o modelo de financiamento cultural.

Enquanto grandes estrelas conseguem cachês milionários para apresentações patrocinadas ou contratadas pelo poder público, milhares de compositores, músicos, grupos regionais, orquestras, teatros, projetos independentes e artistas dedicados à preservação de tradições culturais lutam por espaço, público e recursos.

Por isso, a discussão não deveria se concentrar em uma única cantora.

O problema é o sistema que define quem recebe visibilidade, dinheiro e espaço — e quem permanece à margem.

O Brasil produziu samba, choro, bossa nova, forró, frevo, fandango, maracatu, rock, rap, MPB, música instrumental e uma extraordinária tradição caipira. Cornélio Pires, Tonico & Tinoco, Inezita Barroso e tantos outros ajudaram a construir essa história muito antes de telões, influenciadores, plataformas digitais e guerras culturais.

Barretos pode existir. O público pode gostar. O agronegócio pode celebrar sua estética. Tudo isso faz parte de uma sociedade plural.

O que não faz sentido é transformar uma manifestação cultural específica em a representação do chamado Brasil profundo.

A velha música caipira carregava algo essencial: histórias para contar.

O sertanejo contemporâneo, em suas vertentes mais industrializadas, parece muitas vezes carregar também — e cada vez mais — algo para vender.

Isso não significa que toda música sertaneja contemporânea seja artisticamente inferior, assim como não significa que toda música caipira tradicional seja necessariamente boa. Sucesso comercial não é sinônimo de qualidade artística.

Milhões de visualizações demonstram audiência. Estádios lotados demonstram popularidade. Faturamento demonstra força de mercado.

Nenhum desses indicadores, isoladamente, determina valor cultural.

Que cada artista escolha seu lado político. Isso faz parte da liberdade de expressão.

Mas o contribuinte também tem o direito de fazer perguntas:

Quanto custou?
Quem pagou?
Por que pagou?
Qual era o interesse público?
Houve transparência?

Porque, se existe uma suposta “guerra cultural”, há uma pergunta que não pode ser evitada:

Quem está pagando a conta?

O Brasil não precisa escolher entre música popular e música de qualidade. Precisa apenas parar de confundir o que vende mais com aquilo que representa mais.

Cultura não se preserva permitindo que um único gênero domine os palcos.

Cultura se preserva garantindo espaço para a diversidade.

DUAS GERAÇÕES, DOIS MOMENTOS POLÍTICOS

A diferença entre Ana Castela e Marília Mendonça também pode ser observada na relação de cada uma com a política.

Marília Mendonça se posicionou publicamente contra Jair Bolsonaro em 2018, quando aderiu à campanha #EleNão. Na época, afirmou que sua manifestação era uma questão de consciência.

Ana Castela, por sua vez, afirmava em 2022 que não se posicionava politicamente. Posteriormente, sua imagem pública passou a registrar aproximações com figuras identificadas com a direita e o bolsonarismo.

Em agosto de 2026, agora portanto, durante a Festa do Peão de Barretos, ela apareceu ao lado do deputado Nikolas Ferreira, do PL, fazendo com as mãos o número 22, associado ao partido e, no contexto eleitoral atual, à candidatura de Flávio Bolsonaro.

A imagem foi interpretada por parte do público como um sinal de aproximação com esse campo político. É importante, porém, distinguir interpretação de declaração formal: até o momento, não se deve apresentar essa imagem, por si só, como prova de apoio eleitoral da cantora a Bolsonaro ou a qualquer candidatura específica.

Esse contraste não precisa transformar nenhuma das duas em símbolo de “certo” ou “errado”.

Ele revela algo mais interessante: como mudou a relação entre música sertaneja, indústria do entretenimento, redes sociais, identidade rural e política.

Marília tornou-se conhecida também por dar voz, em suas músicas, a experiências e conflitos vividos por muitas mulheres. Sua manifestação política em 2018 mostrou disposição para assumir publicamente uma posição.

Ana Castela representa uma geração diferente, na qual música, redes sociais, agronegócio, celebridade e política aparecem cada vez mais próximos. Sua recente aproximação pública com representantes da direita e o bolsonarismo é um fato que pode ser discutido.

E é justamente aí que a discussão sobre dinheiro público ganha ainda mais importância.

Independentemente da posição política de qualquer artista, o dinheiro do contribuinte exige transparência, justificativa e prestação de contas.

A questão, portanto, não deveria ser simplesmente se o artista é de esquerda ou de direita.

A pergunta é outra:

Quando política, celebridade e dinheiro público se encontram, quem está pagando a conta?

Essa talvez seja a discussão que realmente importa.

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor –  Compositor

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