O Bolinho de Carne e o Tempo que Mora na Estrada

 

Na Venda dos Preto, tradição, memória e afeto resistem às pressas da modernidade

 

De vez em quando, quando estou em Londrina, sigo rumo à chácara do meu cunhado, Carlinhos Rezende. Quando não vou com meu próprio carro, é o outro cunhado, João, quem me leva. É um caminho que conheço de cor, mas que, mesmo depois de tantas vezes percorrido, nunca deixa de despertar em mim uma sensação especial. Cada curva, cada paisagem parece trazer consigo uma lembrança, uma história, um pedaço da minha vida. A paisagem muda pouco, mas a sensação é sempre diferente.

Talvez porque algumas viagens não sejam feitas apenas de quilômetros, mas, sobretudo, de lembranças, afetos e histórias que o tempo jamais consegue apagar.

Patrimônio Regina — nome que carrega a força e a ternura da minha companheira, irmã de Carlinhos, João, Tião, Josefa, Gorethe e Julia, e também daqueles que a saudade mantém eternamente presentes: os saudosos Chico, Claret Rezende e Tida.

Há caminhos que percorremos com os pés, mas existem outros que fazemos com o coração. E, nesses caminhos, cada nome representa uma história, um abraço, uma voz, um ensinamento e um pedaço daquilo que somos.

Porque viajar também é reencontrar nossas raízes, revisitar memórias e perceber que algumas pessoas nunca ficam para trás. Elas seguem conosco, silenciosamente, em cada passo, em cada paisagem e em cada lembrança.

E é justamente nesse trajeto que existe uma parada inevitável, A Venda dos Preto, no singular, como muita gente fala, é um estabelecimento histórico, assentado há sete décadas no Patrimônio Espírito Santo, zona Sul de Londrina. Tramelas ainda abrem e fecham janelas da venda, erguida com madeira de peroba. Baiano de Paramirim, João Marques Neves adquiriu o local, misto de mercearia e bar, na década de 1950.

Quando avisto a Venda dos Preto, não resisto. Encosto o carro, desço e entro. O motivo oficial é simples: comer um bolinho de carne. Mas, no fundo, sei que a razão é muito maior.

A Venda dos Preto não é apenas um comércio tradicional. É um pedaço vivo da história de Londrina.

Ali, o tempo parece ter decidido permanecer.

Desde a década de 1950, aquele estabelecimento faz parte da paisagem e da vida das pessoas da região. Foi adquirido pela família de João Marques Neves, um migrante baiano que chegou ao Norte do Paraná quando o progresso ainda avançava em meio às matas fechadas. Como tantos pioneiros, sua família participou da abertura da região e trabalhou nas lavouras de café que ajudaram a construir a riqueza e a identidade londrinense.

A venda logo se transformou em muito mais do que um ponto comercial. Tornou-se local de abastecimento, encontro e convivência para agricultores, trabalhadores rurais, viajantes e moradores das redondezas. Em uma época em que as distâncias eram grandes e as oportunidades de encontro eram poucas, lugares assim cumpriam uma função quase comunitária.

Com o passar dos anos, a história ganhou um rosto que se tornou símbolo daquele espaço: Dona Izolina Maria de Jesus Francisco.

Respeitada e querida por todos, Dona Izolina transformou a Venda dos Preto em uma verdadeira extensão da casa de quem chegava. Sob sua administração, o lugar consolidou sua fama de acolhimento, solidariedade e boa conversa. Ali ninguém era estranho. Bastavam alguns minutos para que uma simples parada se transformasse em prosa, café e amizade.

Talvez seja essa atmosfera que me faça parar sempre.

Claro que o bolinho de carne ajuda.

E como ajuda.

Dourado por fora, macio por dentro, servido sem pretensão e sem necessidade de marketing sofisticado. Um sabor que parece carregar décadas de tradição em cada mordida. Não é apenas comida; é memória temperada com simplicidade.

Enquanto saboreio o bolinho, gosto de observar o movimento ao redor. Vejo ciclistas fazendo uma pausa, agricultores conversando sobre a lavoura, visitantes curiosos descobrindo aquele tesouro escondido da zona rural. E penso que poucos lugares conseguem atravessar tantas décadas sem perder sua essência.

Num mundo em que tudo muda depressa, a Venda dos Preto permanece como um raro exemplo de permanência. Não porque tenha parado no tempo, mas porque soube preservar aquilo que realmente importa: a hospitalidade, o senso de comunidade e o respeito pela própria história.

Por isso, sempre que sigo para a chácara do Carlinhos, a parada é certa.

Vou pelo bolinho de carne.

Mas volto pela sensação reconfortante de encontrar um lugar onde o passado ainda conversa com o presente, sentado à mesa, sem pressa alguma para ir embora.

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

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