Do altar à desconfiança: memórias de um ex-coroinha diante das engrenagens da fé, do dinheiro e do poder
Quero lembrar aos caros amigos que, na infância, fui coroinha e presidente da Cruzada Eucarística. Lembro-me bem da Igreja Nossa Senhora da Paz, em Londrina.
Sim, meus amigos e amigas: eu também já estive do lado de dentro.
Para quem não sabe, os coroinhas — ou garotos do altar, como eram chamados — são crianças ou adolescentes encarregados de auxiliar o padre durante a missa. O nome vem do latim ministrare, que significa “servir”.
E servir era justamente a palavra de ordem.
O papel do coroinha era levado muito a sério. Havia regras, postura, comportamento, silêncio, disciplina e, naturalmente, aquela expressão facial compenetrada que toda criança precisa aprender quando está diante de um adulto vestido de batina.
Eu levava aquilo a sério.
Mais tarde, porém, quando comecei a estudar outras religiões, a história, a política e os mecanismos do poder, descobri algumas coisas que não estavam exatamente no manual do coroinha.
Descobri que, entre o altar, o dinheiro e o palanque, existe uma velha engrenagem que aprendeu, ao longo dos séculos, a chamar privilégio de tradição e submissão de virtude.
E a máquina continua funcionando.
Há uma velha receita para governar multidões: ofereça-lhes uma promessa no céu, um inimigo na Terra e, enquanto todos discutem sobre a salvação, cuide discretamente dos negócios.
É uma fórmula antiga, eficiente e, convenhamos, de uma simplicidade administrativa admirável.
Durante séculos, o poder aprendeu a utilizar a fé como sofisticada ferramenta de convencimento. O feudalismo tinha seus senhores, a burguesia tinha seus interesses e o capitalismo desenvolveu sua própria lógica de acumulação. No meio disso tudo, a religião institucionalizada também ocupou seu lugar no tabuleiro político europeu — algumas vezes como consciência dos poderosos, outras como sua parceira.
E que parceria conveniente!
Enquanto o povo carregava o peso da pobreza, recebia sermões sobre humildade.
Enquanto os privilegiados acumulavam riquezas, ensinava-se aos pobres que a verdadeira recompensa viria depois da morte.
Uma solução administrativa extraordinária: se a justiça não pudesse ser entregue nesta vida, prometia-se uma versão celestial para a próxima.
E quando a pobreza ficava evidente demais, entrava em cena a caridade.
Que espetáculo bonito!
O mesmo sistema que ajudava a produzir desigualdade podia posar de salvador daqueles que eram esmagados por ela. Distribuía-se o pão com uma mão e preservava-se, com a outra, a estrutura que mantinha tanta gente com fome.
Marketing moral antes mesmo de existir a palavra marketing.
É claro que seria uma enorme injustiça colocar todos os religiosos, todos os cristãos ou todas as instituições no mesmo saco.
A fé de milhões de pessoas foi — e continua sendo — sincera, generosa e profundamente humana. Há religiosos que dedicaram a vida aos pobres, aos doentes, aos perseguidos e aos esquecidos. Há pessoas que encontraram na fé não um instrumento de dominação, mas uma razão para servir.
O problema começa quando a fé deixa de ser espiritualidade e se transforma em instrumento de poder.
Aí o altar ganha contabilidade.
O sermão ganha estratégia eleitoral.
A caridade ganha fotografia.
E a moral ganha preço.
Nos bastidores, a política sempre soube conversar muito bem com quem tinha dinheiro, influência e poder. E quando interesses econômicos, religiosos e políticos se encontram, raramente é apenas para discutir a salvação das almas.
Algumas almas, afinal, parecem ter mais prioridade no atendimento.
A história europeia conheceu guerras religiosas, perseguições e tribunais inquisitoriais. Conheceu também alianças entre tronos e altares, enquanto o povo era convocado a obedecer.
Não era necessário que todos compreendessem o mecanismo.
Bastava que acreditassem nele.
E talvez essa seja a maior genialidade de qualquer sistema de dominação: convencer o dominado de que sua própria submissão é uma virtude.
Séculos depois, a embalagem mudou.
O palanque substituiu parte do púlpito. O marketing político aperfeiçoou a propaganda. As redes sociais transformaram indignação em combustível eleitoral. E certos discursos continuam vendendo a mesma mercadoria: medo, moralismo, tradição e a promessa de que, se cada um permanecer obediente ao seu lugar, a ordem finalmente voltará.
Só esqueceram de avisar quem definiu os lugares.
A velha direita, especialmente em suas versões mais conservadoras, frequentemente apresenta a defesa de estruturas econômicas desiguais como defesa da liberdade, enquanto transforma privilégios históricos em “valores tradicionais”.
O passado vira argumento.
A religião vira escudo.
E a desigualdade, muito educadamente, desaparece atrás de palavras bonitas.
Mas alguma coisa mudou.
O público começou a desconfiar do mágico.
Começou a perceber que, enquanto o pregador aponta para o céu, alguém pode estar esvaziando os bolsos aqui embaixo.
Começou a perguntar por que aqueles que falam tanto de moral nem sempre gostam que se investiguem seus negócios, suas alianças e seus interesses.
Começou a perceber que caridade não substitui justiça.
Que discurso moral não substitui igualdade.
Que fé não deveria significar cegueira.
E que tradição não pode ser uma licença perpétua para conservar privilégios.
Talvez seja isso que esteja chegando ao fim: não a religião, não a fé e muito menos a espiritualidade.
O que pode estar chegando ao fim é a velha ideia de que questionar o poder significa desafiar Deus.
Talvez o menino que um dia foi coroinha tenha apenas crescido.
Naquele tempo, eu aprendia a servir.
Mais tarde, comecei a perguntar:
A quem, afinal, estamos servindo?
E talvez essa seja uma pergunta mais perigosa para qualquer poder do que mil sermões.
Porque, quando o fiel começa a fazer perguntas, o coroinha deixa de apenas carregar o incensário e começa a olhar para o altar.
E, às vezes, é justamente aí que a fumaça começa a dissipar.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Escritor – Compositor
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