“A Odisseia”: Atena, respeitada por Zeus, reduzida por Nolan

 

Professor Cláudio Moreno critica “A Odisseia”, de Christopher Nolan, por reduzir a complexidade das personagens femininas de Homero

Christopher Nolan transformou a física em drama existencial (Interestelar), fez da memória o eixo de um thriller (Amnésia) e levou para o cinema personagens marcados por dilemas morais, ambiguidades e conflitos internos. Não por acaso, consolidou a reputação de um cineasta fascinado pela complexidade humana.

Foi justamente por isso que sua adaptação de A Odisseia passou a ser examinada sob uma crítica já dirigida a outros filmes de Nolan: a de que suas personagens femininas recebem menos espaço narrativo e profundidade psicológica do que os protagonistas masculinos.

Para especialistas em literatura clássica, Nolan simplificou exatamente as personagens que fazem da epopeia de Homero uma obra singular: as mulheres. Centrais na narrativa original, elas perderam densidade dramática e, em muitos casos, aparecem reduzidas ou simplesmente desaparecem da adaptação.

A Odisseia nunca foi apenas sobre Ulisses

Para o professor e especialista em cultura clássica Cláudio Moreno, existe um equívoco recorrente na leitura da obra de Homero: enxergar a epopeia apenas como a história de um homem tentando voltar para casa. No vídeo publicado em seu canal do YouTube após a estreia do longa, ele propõe outra interpretação. “A jornada de Ulisses é a passagem por uma série de mulheres.”

A frase resume uma leitura segundo a qual Penélope, Circe, Calipso, Atena e Nausícaa não são personagens periféricas. Cada uma representa uma etapa da transformação de Ulisses e altera o rumo de sua jornada. Em outras palavras, o herói só se torna quem é porque passa por esses encontros. É justamente essa arquitetura narrativa que, segundo Moreno, desaparece na adaptação de Nolan.

De Penélope a Nausícaa: o que Nolan deixou pelo caminho

Foto: reprodução

A primeira vítima dessa simplificação, segundo Cláudio Moreno, é Penélope. Rainha de Ítaca e esposa de Ulisses, ela costuma ser lembrada como símbolo da fidelidade conjugal. Para o pesquisador, porém, essa imagem reduz uma das personagens mais sofisticadas da epopeia. “Ela mantém o reino sozinha. Os pretendentes começam a chegar no décimo segundo, décimo terceiro ano da ausência de Ulisses, vão assediando o palácio e passam a ameaçar Telêmaco de morte. Ela sozinha faz isso porque é inteligente. Homero a caracteriza como uma mulher de extrema inteligência”, afirma. É essa inteligência, explica Moreno, que leva Penélope a desconfiar até mesmo do marido quando ele finalmente retorna a Ítaca. “Ela aplica testes que o Nolan não mostra. Quer ter certeza de que aquele Ulisses não é um deus disfarçado.”

O mesmo acontece com Circe. Na leitura do pesquisador, a feiticeira está longe de ser apenas a mulher que transforma homens em porcos. “Ela simboliza a mulher que desperta a animalidade dos homens. Apaixonada por Ulisses antes mesmo de conhecê-lo, escolhe seus parceiros, vive com ele durante um ano e depois diz: ‘Acho que está na hora de voltar para casa. Vou te dar bons conselhos. Vai ao mundo dos mortos, cuida disso, cuida daquilo’. É um papel importantíssimo”, afirma. Para Moreno, Nolan esvazia completamente essa construção ao retratá-la como “quase uma megera”, apagando justamente uma personagem que, em Homero, “dominava completamente o mundo masculino”.

Calipso também perde a força dramática que possui na epopeia. Para Moreno, a personagem criada por Homero é movida pelo desejo, pela autonomia e pelo conflito. É ela quem desafia os deuses, insiste em manter Ulisses ao seu lado e lhe oferece “aquilo que todo mortal gostaria”: a imortalidade, sem doença e sem velhice. Na adaptação, porém, essa mulher intensa e contraditória é substituída por uma figura quase maternal. “Essa Calipso do Nolan parece uma enfermeira séria cuidando de um paciente”, ironiza.

Atena: respeitada por Zeus, reduzida por Nolan

Nem Atena escapa. A deusa da sabedoria e da estratégia, “que até Zeus respeita”, transforma-se, segundo o pesquisador, em “uma jovem tímida que assiste a tudo com o olhar meio úmido, emocionada, sem ter o poder que ela tem”. Já Nausícaa, princesa que salva Ulisses após o naufrágio e lhe oferece a possibilidade de reconstruir a vida longe de Ítaca, simplesmente desaparece da adaptação. “Vejam que o elenco feminino e a importância dele na Odisseia é imenso. Isso não está no filme. Nolan desperdiçou as mulheres que Homero tratou com grande respeito”, conclui.

A crítica de Emily Wilson

Emily Wilson, professora da Universidade da Pensilvânia e autora da tradução inglesa de A Odisseia utilizada por Nolan como referência, foi ainda mais dura. Disse que teria “vergonha” de assinar aquele roteiro. Na avaliação da pesquisadora, o filme sacrifica justamente a complexidade psicológica que faz dos personagens de Homero figuras inesquecíveis.

Para ela, Penélope perde inteligência política, Calipso transforma-se praticamente em uma terapeuta do protagonista e diversas personagens femininas passam a existir quase exclusivamente em função de Odisseu. Ainda assim, Wilson reconhece o impacto do filme ao recolocar A Odisseia no centro do debate cultural.

As escolhas de Nolan

Ao longo da carreira, Christopher Nolan costuma afirmar que evita transformar seus filmes em instrumentos de persuasão política e defende que o cinema deve convidar o espectador a sentir, e não dizer o que pensar.

A recepção de A Odisseia, no entanto, mostra que essa postura não impede que suas escolhas narrativas sejam interpretadas e debatidas. Afinal, adaptar um clássico quase nunca significa apenas escolher o que cortar para caber em duas ou três horas de projeção. Significa também definir quais personagens receberão profundidade, quais conflitos serão preservados e quais vozes permanecerão no centro da narrativa.

No caso de A Odisseia, é justamente essa seleção que passou a ser questionada. No fim, a discussão provocada pelo filme talvez não seja sobre fidelidade ao texto de Homero, mas sobre um paradoxo curioso: uma epopeia escrita há quase 3 mil anos continua sendo lembrada pela força de suas personagens femininas, enquanto uma superprodução do século 21 é criticada por reduzir exatamente esse legado.

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