Relato de ator que descobriu no set que filmava cinebiografia de Bolsonaro amplia sequência de denúncias envolvendo a produção, já investigada por órgãos públicos
Se a proposta era manter o suspense, a produção de Dark Horse parece ter levado o conceito longe demais. O ator Dover Godoi Buzoni revelou que só descobriu que participaria da cinebiografia de Jair Bolsonaro quando já estava uniformizado como policial, dentro do set montado no Hospital Indianópolis, em São Paulo (SP).
Segundo ele, o anúncio de seleção informava apenas que se tratava de uma produção estrangeira gravada na capital paulista. O enredo permaneceu em segredo até o momento em que outra atriz lhe mostrou uma prancheta com os nomes dos filhos do ex-presidente.
Dover afirma que deixou imediatamente a produção. Para ele, embora seja comum preservar o sigilo sobre detalhes de grandes filmes, é responsabilidade da equipe informar previamente aos profissionais quando a obra envolve temas políticos ou potencialmente controversos. “O rosto e o nome são meus, eu decido onde eles vão estar”, resumiu.
Um filme cercado por polêmicas
O episódio se soma a uma coleção de problemas que parece crescer mais rapidamente que a campanha de divulgação do próprio longa. Uma novela de tramoias mais difícil de acreditar do que certos filmes B de espionagem, que renderiam uma série em temporadas na Netflix. Melhor não dar ideia!
Desde maio, diferentes reportagens revelaram denúncias de agressões físicas, assédio moral, atrasos de pagamento, alimentação considerada inadequada, revistas pessoais constrangedoras e contratação de trabalhadores sem a formalização exigida pela legislação trabalhista.
O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (Sated-SP) reuniu ao menos 15 relatos de profissionais envolvidos nas filmagens. As denúncias levaram o Ministério Público do Trabalho a instaurar um inquérito para apurar as condições de trabalho no set.
Hollywood no discurso, improviso nos bastidores
A produção foi apresentada por seus apoiadores como uma “superprodução em padrão hollywoodiano”. Nos bastidores, entretanto, os relatos descrevem uma realidade bem menos cinematográfica.
Figurantes afirmaram ter recebido apenas um kit lanche durante jornadas superiores a oito horas. Outros denunciaram pagamentos inferiores aos previstos em convenção coletiva, além de atrasos nos cachês. Houve ainda relatos de comida estragada, transporte descontado da remuneração e restrições consideradas abusivas ao uso de celulares e até ao acesso aos banheiros.
Em outro episódio amplamente divulgado, um figurante registrou boletim de ocorrência após afirmar ter sido agredido por integrantes da equipe de segurança durante as gravações.
Pelo visto, o único “thriller” garantido acabou acontecendo atrás das câmeras.
Milhões anunciados, documentação ausente
As dificuldades de produção também ganharam dimensão institucional.
Reportagens publicadas em maio revelaram que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) informou não ter recebido qualquer comunicação obrigatória referente às filmagens estrangeiras de Dark Horse, como exige a regulamentação para esse tipo de produção.
A agência declarou não possuir registro da obra, enquanto sindicatos questionam contratos, vínculos de trabalho e a regularidade das contratações realizadas no Brasil.
Ao mesmo tempo, vieram à tona informações sobre o elevado financiamento do projeto e sua ligação com aliados políticos da família Bolsonaro, ampliando o interesse público em torno da origem dos recursos e da condução da produção.
O roteiro continua fora de controle
A produtora Go Up Entertainment atribuiu o recrutamento dos figurantes a empresas especializadas em casting e sustenta que os pagamentos praticados seguem os padrões do mercado para produções internacionais. Também afirma ter observado os protocolos usuais da indústria audiovisual.
Enquanto isso, seguem em andamento investigações do Ministério Público do Trabalho e questionamentos apresentados por entidades representativas da categoria.
No ritmo em que as notícias aparecem, Dark Horse vai consolidando uma curiosa inversão de expectativas: antes mesmo da estreia, o making of já produziu mais capítulos que o roteiro — e, para muitos dos envolvidos, parece ter sido muito mais difícil de acreditar.
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