Quando a juventude abraça o samba

 

Um agradecimento ao Bloco Boca Negra, herdeiro da Colorado, e à nova geração que escolheu preservar a memória da cultura popular brasileira

 

Há momentos em que a esperança resolve aparecer vestida de simplicidade. Ela não chega fazendo discursos grandiosos, mas cantando um samba, ocupando uma rua, reunindo pessoas e provando que a cultura continua sendo o maior patrimônio de um povo quando encontra quem a ame e a preserve.

Foi exatamente esse sentimento que experimentei neste sábado, 27 de junho, ao participar da 3ª Roda de Samba em homenagem a Xangô, promovida pelo Bloco Boca Negra, na minha querida Vila Capanema, esse verdadeiro celeiro de bambas, de histórias e de resistência do samba curitibano.

A rua foi tomada por sambistas, famílias, jovens e admiradores da cultura popular. Um encontro onde a música caminhou de mãos dadas com a ancestralidade, a espiritualidade afro-brasileira e o respeito às nossas raízes. Um encontro que demonstrou que o samba continua vivo porque continua sendo transmitido de geração em geração.

O que mais me emocionou, porém, foi perceber que essa chama está sendo alimentada por uma juventude ligada à Universidade, que resolveu olhar para trás não por saudosismo, mas para reencontrar valores que jamais deveriam ser esquecidos. Jovens que compreenderam que preservar a cultura popular é construir o futuro.

O Bloco Boca Negra carrega, com orgulho, a herança da velha e inesquecível Escola de Samba Colorado, uma das mais importantes páginas da história do carnaval de Curitiba. E ver essa nova geração assumir essa responsabilidade é motivo de alegria para todos nós que dedicamos uma vida ao samba.

Entre as inúmeras atividades humanas, acredito que a cultura seja, sem dúvida, aquela que mais eleva o espírito. Ela ultrapassa as fronteiras das ciências, da técnica e da razão, porque nasce da alma dos povos. É expressão da nossa vontade coletiva, instrumento de coesão social e, sobretudo, de pertencimento. É ela que nos faz reconhecer quem somos como paranaenses e brasileiros.

Por isso, meu agradecimento é profundo.

Ao meu parceiro Léo Fé, cuja dedicação e sensibilidade ajudam a conduzir esse bonito trabalho. Esse piá é um agitador cultural fantástico e um dedicado historiador.

À antropóloga social Caroline Blum, cuja presença reafirma a importância do diálogo entre a universidade e a cultura popular.

Ao querido amigo, professor Ricardo Prestes Pazello, do Curso de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná, cuja atuação demonstra que o conhecimento acadêmico também pode caminhar ao lado do povo, do samba e da memória coletiva. Também meu parceiro.

E a tantos outros companheiros e companheiras que fizeram daquela tarde/noite uma verdadeira celebração da vida.

Recebi uma das maiores honrarias da minha caminhada no samba: a oficialização do meu nome como Presidente da Ala de Compositores do Bloco Boca Negra.

Confesso que a emoção foi difícil de conter.

Mais emocionante ainda foi ouvir meus sambas sendo cantados por aquela multidão que lotava a rua. Para um compositor, poucas alegrias se comparam à de ver suas canções ganhando a voz do povo.

Saí dali com o coração cheio de gratidão e renovada esperança.

Enquanto houver uma juventude disposta a estudar, preservar, cantar e celebrar nossa cultura popular, haverá futuro para o samba.

E enquanto houver samba, haverá memória, identidade, resistência e Brasil.

Meu muito obrigado ao Bloco Boca Negra. Meu muito obrigado a essa extraordinária piazada que escolheu fazer da cultura um ato de amor.

O velho sambista voltou para casa mais feliz do que chegou.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor e Compositor

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