Quando a luta contra o crime pode virar desculpa para ameaçar a soberania brasileira
Já faz algum tempo que venho alertando aqui: existe um perigo rondando a América Latina. E ele não chega de tanque na fronteira nem com soldados desembarcando em praias tropicais. Ele chega vestido de discurso moral, de combate ao crime, de defesa da democracia e da segurança internacional. Sempre foi assim.
Agora, mais uma vez, os Estados Unidos colocam os olhos sobre o Brasil e suas riquezas estratégicas. Não é exagero nem teoria conspiratória. Basta olhar a história da América Latina para perceber que toda vez que um país ousou defender sua soberania, controlar seus recursos naturais ou construir um projeto independente, imediatamente surgiu alguma justificativa externa para interferências “necessárias”.
Desta vez, o argumento atende pelo nome de combate ao terrorismo.
O governo dos Estados Unidos anunciou que pretende classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas internacionais. Evidente que ninguém aqui é ingênuo para defender facção criminosa. PCC e CV espalham violência, medo e destruição. O problema não está em combater o crime. O problema está em quem ganha o direito de agir dentro do nosso território usando essa justificativa.
E é aí que mora o perigo.
Porque quando os Estados Unidos classificam grupos estrangeiros como terroristas, eles não estão apenas mudando um nome burocrático. Eles estão criando instrumentos políticos, econômicos, diplomáticos e até militares para agir onde julgarem necessário. A história recente do mundo está cheia de exemplos disso.
Primeiro vem o discurso de proteção internacional. Depois aparecem sanções, pressões diplomáticas, monitoramento, espionagem, acordos forçados e, em casos extremos, intervenções militares “preventivas”. Tudo em nome da segurança.
O que me assusta não é apenas a decisão americana. O que me assusta é ver brasileiros comemorando isso sem perceber o tamanho da armadilha.
Mais grave ainda é observar que o anúncio ocorre logo após encontros de Flávio Bolsonaro com Marco Rubio e Donald Trump. Não parece coincidência. Parece alinhamento político. Parece construção de narrativa.
E narrativas são perigosas.
Porque amanhã podem dizer que a Amazônia precisa de “proteção internacional”. Depois podem afirmar que nossas fronteiras estão fora de controle. Em seguida, alegar que o Brasil não consegue enfrentar sozinho o narcotráfico. E quando percebemos, já existem interesses estrangeiros opinando sobre segurança interna, recursos minerais, petróleo, água doce e soberania nacional.
O Brasil possui algumas das maiores riquezas naturais do planeta. Água, biodiversidade, minerais estratégicos, petróleo, terras férteis e uma posição geopolítica gigantesca. Não sejamos inocentes: o mundo inteiro observa isso com cobiça.
A América Latina conhece bem esse roteiro. Já vimos golpes apoiados externamente, governos derrubados, economias sufocadas e países inteiros transformados em quintais políticos de interesses estrangeiros.
E o mais irônico é que nossa própria legislação contra o crime organizado já é severa. Especialistas afirmam que, em muitos casos, ela é até mais dura do que leis antiterrorismo. Ou seja: o Brasil possui instrumentos legais para combater facções criminosas sem precisar terceirizar sua soberania.
Combater o crime é obrigação do Estado brasileiro. Defender nossas fronteiras também. Mas entregar a narrativa da nossa segurança nacional para interesses estrangeiros é outra história completamente diferente.
Eu continuo acreditando que o povo brasileiro precisa abrir os olhos. Nem todo abraço internacional é amizade. Às vezes, é apenas a mão medindo o tamanho daquilo que deseja tomar.
E quando uma potência mundial começa a falar demais sobre segurança dentro da nossa casa, talvez seja hora de verificar não apenas quem são os criminosos… mas também quem está interessado no nosso quintal.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Escritor – Compositor
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