Entre a militância, a amizade e o Direito, a trajetória de Luiz Carlos da Rocha atravessa gerações sem perder a ternura, a memória e o compromisso com o tempo em que viveu
Conheci o Rochinha — assim chamávamos o Luiz Carlos — nos tempos em que a juventude acreditava que podia mudar o mundo com reuniões intermináveis, panfletos mimeografados e uma coragem quase ingênua, mas profundamente sincera. Éramos jovens. Militávamos no movimento estudantil e partidário como quem escreve, com as próprias mãos, uma carta para o futuro. Futuro feliz e igualitário.
Rochinha já trazia no nome um peso histórico e afetivo. Filho do velho camarada Espedito Rocha, carregava consigo não apenas a herança de uma família, mas uma tradição inteira de luta política, resistência e compromisso social. Espedito havia iniciado sua militância no Partido Comunista Brasileiro ainda em 1938, em Pernambuco, quando sonhar com justiça social podia custar a liberdade — e, às vezes, a própria vida.
Chegou ao Paraná no início dos anos 1950 para trabalhar na colonização do Norte do Estado. Depois veio Curitiba, o barro vermelho das obras do Centro Cívico, a organização sindical, os embates políticos, as conversas atravessando madrugadas. Espedito era daqueles homens que ajudaram a construir não apenas prédios e avenidas, mas também consciência política em tempos difíceis.
E Rochinha cresceu nesse ambiente onde política não era carreira, nem marketing, nem espetáculo: era convicção.
Talvez por isso sempre tenha carregado uma serenidade rara. Mesmo nos momentos mais tensos, havia nele um jeito afável, quase nordestino de olhar a vida — uma mistura de firmeza e delicadeza que herdara da família e da terra de origem.
Os anos passaram depressa, como passam para todos nós. Alguns ficaram pelo caminho; outros mudaram de rumo. Mas Rochinha transformou a inquietação da juventude numa advocacia sólida, respeitada e construída sem atalhos.
Em 1986, enquanto o Brasil reaprendia a respirar democracia e preparava a Constituição que mudaria a história do país, Luiz Carlos da Rocha iniciava sua trajetória profissional. O Direito brasileiro também estava em transição: velhas estruturas conviviam com novos princípios, e advogar exigia mais do que técnica — exigia compreensão do tempo histórico.
Rochinha soube entender aquele momento.
Construiu uma carreira baseada no estudo, na disciplina e numa percepção humana que poucos profissionais conseguem manter depois de décadas de exercício. O escritório França da Rocha Advogados, hoje reunindo dezenas de associados, tornou-se reflexo dessa caminhada: uma advocacia fundada no rigor técnico, mas também no respeito às pessoas e às suas histórias.
Quarenta anos depois, não é apenas um escritório que comemora sua existência. É uma geração inteira que se revê nessa trajetória.
E talvez não exista símbolo mais bonito para essa celebração do que reunir amigos na Ópera de Arame ao som de Maciel Melo. Porque Maciel não canta apenas canções; ele canta pertencimento. Canta o sertão, a saudade, as festas juninas, os amores simples e a memória de um Brasil profundo que resiste dentro da gente.
Quando Rochinha fala do amigo pernambucano, seus olhos parecem voltar para algum lugar antigo — talvez para as histórias do pai, talvez para a infância atravessada pelo sotaque nordestino que nunca deixou de existir dentro dele.
Há homens que envelhecem endurecendo.
Outros amadurecem sem perder a capacidade de sonhar.
Luiz Carlos da Rocha pertence a essa segunda espécie, cada vez mais rara.
E olhando para ele hoje — advogado respeitado, professor, escritor, palestrante, homem público — ainda consigo enxergar o rapaz da militância estudantil, caminhando apressado entre debates e esperanças, acreditando que ética, justiça e solidariedade não eram palavras abstratas.
E talvez não sejam mesmo.
Talvez sejam justamente isso que permanece quando o tempo passa: a coerência entre aquilo que se viveu e aquilo que se escolheu continuar sendo.
No fundo, é isso que os quarenta anos de Rochinha celebram.
Não apenas uma carreira.
Mas uma vida inteira de fidelidade à própria história.
Cláudio Ribeiro
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