Na Marca da Vida (Crônica)

 

 

 

Entre amigos, memórias e um pênalti que todos nós cobramos

 

Sexta-feira Santa costuma ser um dia de silêncio, reflexão e, para alguns, peixe e camarões no almoço. Mas ontem, entre uma conversa e outra, resolvi trocar o recolhimento pelo encontro — daqueles que alimentam a alma de outro jeito. Fui, com alguns amigos, assistir ao Casagrande. E já começo confessando: há convites que a gente aceita, e há presentes que a vida entrega com laço. Esse veio pelas mãos do Getúlio Guerra, amigo de tempos que nem sei mais contar — produtor, articulador de encontros e, naquele momento, quase um cupido cultural.

Chegando lá, antes mesmo das luzes se apagarem, o espetáculo já tinha começado no saguão. Velhos camaradas surgiam como quem sai de dentro de fotografias esquecidas: abraços demorados, risadas fáceis, aquele clássico “quanto tempo!” que nunca vem sozinho. Era uma plateia que misturava tudo que gosto: gente da arte, da cultura, e, claro, uma parcela considerável de corinthianos — esses que não torcem, praticam fé.

Nunca duvidei que a vida de Walter Casagrande Jr. daria um livro. Aliás, deu três — e dos bons. Em parceria com Gilvan Ribeiro  (não sei se é meu parente), ele já revisitou seus próprios fantasmas, suas glórias e seus abismos. Mas ontem não era sobre páginas. Era sobre pele, voz e presença.

No palco do Guaíra, sem firulas e com a honestidade de quem já não precisa provar nada, Casão entrou como quem entra numa conversa de bar — só que com uma plateia inteira disposta a ouvir. Disse, logo de cara, que não precisava de roteiro. E não precisava mesmo. Há vidas que, de tão intensas, dispensam ensaio.

Falou de tudo: da infância, da bola, das vitórias, das derrotas — inclusive aquelas que não aparecem no placar. Falou das loucuras, do fundo do poço, das felicidades que resistem. E, em certo momento, lançou a pergunta que ficou ecoando mais que qualquer aplauso:
“Quantas decisões importantes na vida você teve que tomar?”

Casagrande relembrou também a Democracia Corinthiana — aquele raro momento em que um time de futebol ousou ser mais do que esporte e virou símbolo político. Ao lado de Sócrates e Wladimir, ajudou a empurrar um país inteiro em direção à liberdade. E pensar que, enquanto lutavam por democracia dentro e fora de campo, eram observados de perto por uma ditadura que não entendia — ou talvez temesse — o poder de um time que pensava.

Mas o que mais tocou não foi o ídolo, nem o comentarista polêmico que ele se tornou depois. Foi o homem. O homem que se perdeu, que pagou pedágios caros na estrada da autodestruição e que, quando muitos já tinham desistido dele, resolveu voltar. E voltou.

Com uma franqueza quase desconcertante, ele falou sobre dependência, dor e reconstrução. E aí aconteceu algo curioso: em algum ponto — talvez nos primeiros trinta ou quarenta minutos — a história deixou de ser dele. Virou nossa. Porque, como ele mesmo disse, quase toda família tem alguém que luta essa batalha. Ou conhece alguém. Ou finge que não conhece.

Saí do teatro com aquela sensação boa de quem assistiu algo que não termina quando as luzes se acendem. Do lado de fora, Curitiba seguia sua rotina de sempre, mas dentro de mim havia um certo silêncio — não o da Sexta-feira Santa, mas aquele silêncio cheio de pensamento.

E, entre um abraço de despedida e outro, percebi: a gente pode até não ser Casagrande, não ter jogado no Corinthians, nem feito história em campo. Mas, de alguma forma, todos nós já estivemos — ou ainda estamos — na marca do pênalti.

 

Lembrei-me do meu pai — não apenas como homem, mas como aquele atleta profissional de futebol que transformava o campo em destino. O som seco da bola, o silêncio antes do chute, a coragem escondida no olhar. Ele era, acima de tudo, um bom sujeito. Mas, assim como o Casão, travou uma batalha dura com o vício da bebida — uma luta silenciosa, daquelas que não aparecem no placar, mas que mudam completamente o rumo do jogo. E mudou. Mudou tudo na minha vida pessoal.

De repente, o campo já não era só lugar de sonho — também era de ausência, de incerteza, de aprender cedo demais que nem todo herói vence fora das quatro linhas.

E, no meio disso tudo, me vi também: um garoto que, desde os 15 anos, corria contra o tempo entre estúdios de rádio, redações de jornal, acordes de música e bastidores da política. Uma vida em movimento, intensa, quase ofegante — como se o mundo nunca parasse de apitar o início de mais uma partida. E nessa correria toda, talvez até tentando fugir de algo, acabei me casando dos 16 para os 17 anos.

Foi ali que entendi, de verdade, o sentido do título.

“Na marca do pênalti” não é sobre futebol. Ou talvez seja — mas não daquele que cabe nos estádios, nas transmissões ou nas estatísticas. É sobre o outro jogo. O invisível. O que se joga no silêncio das escolhas, no peso das decisões, na solidão dos instantes que antecedem o chute.

Porque, no fim das contas, é isso que somos: jogadores de um campo que ninguém vê. E estamos sempre ali, diante da bola, com o coração disparado, o mundo em suspenso — carregando nossas histórias, nossas faltas, nossas cicatrizes — sabendo que não existe replay. Só existe o agora… e a coragem de decidir para onde chutar.

Ah! Sobre o Casão, seguimos aprendendo que o essencial, agora e sempre, é coragem e resistência.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Escritor – Compositor

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