Projeto que sufoca o Carnaval escancara desigualdade, racismo estrutural e o desprezo pela cultura do povo
Eu já narrei muitos desfiles nessa vida. Vi escola pequena se tornar gigante, vi avenida vazia virar mar de gente. Vi Curitiba — tantas vezes chamada de cinza — explodir em cor, suor e dignidade quando o samba pisa firme no asfalto. Fui presidente da Associação das Escolas de Samba, e muitos sambas meus ecoaram pela avenida.
Aprendi uma coisa: o Carnaval não pede licença. Ele simplesmente existe.
Por isso, quando leio um projeto como esse, assinado pelo vereador Eder Borges, não é só indignação que me vem. É um cansaço antigo. Um cansaço de quem já viu essa história sendo contada com outras palavras, em outros tempos, mas sempre com o mesmo enredo: tentar empurrar para fora da cidade aquilo que nasce do povo — especialmente do povo negro.
Proibir o financiamento público do Carnaval não é, como querem fazer parecer, uma decisão técnica ou neutra. Não é sobre orçamento. Nunca foi. É sobre escolha. E escolher retirar o apoio justamente da manifestação cultural mais popular, mais negra, mais periférica, mais coletiva que temos diz muito — mas muito mesmo — sobre o projeto de cidade que está sendo desenhado.
Eu conheço esse discurso. Ele vem embalado em palavras bonitas: “prioridades”, “responsabilidade”, “nem todos gostam”. Mas, no fundo, ele carrega um incômodo antigo com o que é diverso, com o que ocupa a rua sem pedir autorização, com o que não cabe na estética higienizada que alguns insistem em vender como identidade curitibana.
Curitiba, aliás, que muitos fingem não saber: é uma das capitais com maior população negra do Sul do Brasil. E é exatamente essa população que construiu — com pouco, com quase nada — o Carnaval que hoje querem asfixiar.
Porque é disso que se trata: asfixia.
Dizer que o Carnaval pode existir sem apoio público é como dizer que ele pode sobreviver sem ar. Na teoria, não está proibido. Na prática, está condenado. Quem já esteve em barracão sabe. Quem já viu costureira virar a noite, ritmista tirar do próprio bolso, mestre-sala ensaiar em quadra improvisada sabe. Sem apoio, não há igualdade de disputa. Sem apoio, só desfila quem pode pagar. E aí o Carnaval deixa de ser do povo — vira vitrine de poucos.
E não me venham dizer que isso é justo.
A Constituição fala em incentivar a cultura. Incentivar. Não selecionar. Não excluir. Não punir manifestações específicas porque incomodam certos olhares. Quando se escolhe atingir apenas o Carnaval, o que se revela não é zelo com o dinheiro público — é preferência. E preferência, quando parte do poder público, tem outro nome: discriminação.
E há ainda um detalhe que parece escapar aos autores desse tipo de proposta: o Carnaval não é só cultura. É economia. É trabalho. É renda. É o ambulante que vende água, a costureira que garante o mês, o músico que respira. Cortar isso é cortar também o sustento de muita gente que nunca foi prioridade em mais nada.
Mas o que mais me revolta, confesso, não é nem a proposta em si. É a tentativa de deslegitimar o Carnaval como se fosse capricho, excesso, algo dispensável. Como se fosse possível apagar décadas de história, de resistência, de identidade, com uma votação em plenário.
Não é.
Porque o samba já sobreviveu a coisa pior. Já enfrentou preconceito aberto, polícia na porta, proibição explícita. E ainda assim, resistiu. Sempre resistiu.
Agora, mais uma vez, tentam silenciar o tambor. Mas quem conhece essa batida sabe: ela não para fácil.
O que está em jogo aqui não é só o desfile. É o direito de existir na cidade. É o direito de ocupar, de celebrar, de ser visto e ouvido. É o direito de uma Curitiba que não cabe no cartão-postal.
E essa Curitiba, meus amigos, não vai sair da avenida.
Pode faltar dinheiro. Pode faltar apoio. Mas não vai faltar voz.
Porque, na verdade, o silêncio que alguns querem impor… esse, sim, não desfila.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Escritor – Compositor
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