Quando o Samba Toma a História nas Mãos

 

 

A noite em que a Acadêmicos de Niterói emocionou a avenida — e expôs os limites da transmissão da Globo

 

Há desfiles de Escolas de Samba em que o Carnaval deixa de ser apenas festa e se transforma em narrativa coletiva. A apresentação da Acadêmicos de Niterói, abrindo o desfile do Grupo Especial neste domingo (15/2), foi exatamente isso: um espetáculo que combinou emoção, política e memória social de forma inteligente e arrebatadora.

Desde os primeiros acordes do samba-enredo, a escola deixou claro que não faria apenas uma homenagem protocolar. O que se viu foi a construção de uma história que dialoga diretamente com milhões de brasileiros: a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, o retirante nordestino que enfrentou a seca, a fome e a desigualdade, tornou-se operário, líder sindical, presidente da República e uma das figuras políticas mais conhecidas do cenário internacional.

Antes mesmo do início oficial do desfile, as arquibancadas já cantavam com entusiasmo contagiante. O refrão — “Lu-lá, Lu-lá” — ecoava pela Sapucaí com espontaneidade, como expressão orgânica de um público que se reconhecia naquela narrativa.

A entrada de Lula foi um momento de forte simbolismo. Vestido de branco, com seu inseparável chapéu, caminhou pela avenida com naturalidade e carisma, sendo saudado por aplausos e gritos de apoio. Não era apenas o homenageado sendo celebrado; era uma biografia que, para muitos, representa superação social e reconstrução democrática.

Mas quem acompanhou o desfile exclusivamente pela televisão não viu tudo isso com a mesma intensidade.

Detentora exclusiva dos direitos de transmissão, a TV Globo optou por uma cobertura que pareceu cuidadosamente contida. A transmissão começou atrasada e, ao longo da exibição, a narrativa priorizou comentários genéricos, evitando aprofundar o significado político do enredo. As imagens de Lula foram raras e rápidas, algo no mínimo curioso quando se trata de uma homenagem dessa dimensão.

Nos dias que antecederam o desfile, setores da oposição levantaram a tese de que o evento configuraria “campanha eleitoral antecipada”. Chegou-se a especular, inclusive, sobre a possibilidade de a emissora não transmitir a apresentação. Como a ausência seria interpretada como censura explícita, adotou-se um caminho intermediário: transmitir, mas reduzir ao máximo o protagonismo do homenageado.

A estratégia visual reforçou essa escolha editorial. Planos abertos captados por drones, cortes rápidos, closes fugazes. Pouco se mostrou da vibração das arquibancadas, dos detalhes das alegorias ou das reações do público. A narrativa foi esvaziada de sua força simbólica.

E havia muito simbolismo em jogo.

O desfile não se limitou à biografia de Lula. A escola também revisitou capítulos recentes da política brasileira: o impeachment de Dilma Rousseff, os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro e o período de instabilidade institucional que marcou o país. O carro da comissão de frente sintetizou esse ciclo com imagens fortes e críticas diretas, incluindo referências às consequências judiciais enfrentadas por Bolsonaro.

São representações que disputam a memória histórica — e é justamente essa disputa que parece incomodar parte da grande mídia. Ao suavizar ou minimizar esses elementos, a Globo assumiu uma postura que vai além da estética televisiva: revelou um recorte editorial.

Ao final, o desfile foi encerrado sob gritos de “sem anistia para golpistas”, entoados pelas arquibancadas em coro vibrante. Mais uma vez, a transmissão registrou pouco da intensidade desse momento.

É provável que, nos próximos dias, surjam críticas classificando o desfile como “excessivamente político” ou “eleitoral”. Mas a campanha oficial sequer começou, e Lula não é candidato declarado. O que se viu na avenida foi uma manifestação cultural que exercitou a liberdade artística para contar uma história recente sob a ótica popular.

A Acadêmicos de Niterói apresentou mais que um desfile: apresentou uma leitura de país. Um Brasil que enfrenta seus traumas, revisita seus conflitos e reivindica a própria narrativa.

Já a Globo, ao optar por uma cobertura seletiva e contida, deixou a impressão de que ainda prefere administrar a memória nacional em vez de registrá-la em sua complexidade.

Parabéns à Acadêmicos de Niterói pelo espetáculo histórico.
E parabéns a Lula por uma homenagem que traduziu, na avenida, um sentimento real e visível.

 

Cláudio Ribeiro

Jornalista – Compositor

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