Quando o calendário se mede em confete, trabalho e dignidade
Carnaval chegando — e, acredite, ainda há autoridades municipais que olham para ele como quem vê espuma de chope: bonita, mas descartável. Acham que é só barulho, fantasia e gente suada pulando atrás de um trio. Esquecem (ou fingem esquecer) que o Carnaval é uma das mais poderosas indústrias culturais do país, dessas que não precisam de chaminé, mas fazem a economia respirar melhor.
Enquanto alguns gabinetes bocejam, hotéis acordam cedo. Bares esticam o horário. Restaurantes reforçam a cozinha. Costureiras viram madrugada. Músicos afinam sonhos. Vendedores ambulantes aprendem, na prática, o que nenhum manual ensina: quando a cidade pulsa, o dinheiro circula. É simples assim. O Carnaval transforma lazer em trabalho, alegria em renda, cultura em sustento — para o empregado e para o empresário.
Sou suspeito, confesso. Sou apaixonado pelo Carnaval. Não aquele do folião de ocasião, mas o Carnaval vivido por dentro, com calo no pé, caderno de anotações e madrugada de ensaio. Apresentei, coordenei e criei projetos. Fui atrás de patrocínio quando não havia porta aberta. Acreditei quando diziam que não dava. Como compositor, então, me joguei de corpo inteiro: fiz samba como quem constrói casa, verso por verso, acreditando que ali também mora futuro.
Por isso, não conto minha vida por aniversários. Conto por Carnavais. Lembro de cada um como quem lembra de um amor antigo: o primeiro desfile, a chuva que não apagou o sorriso, a arquibancada vazia que virou cheia, o aplauso tímido que virou coro. O Carnaval marca o tempo porque ensina algo que muita autoridade ainda não aprendeu: cultura não é gasto — é investimento. E dos mais seguros.
Quem insiste em tratar o Carnaval como despesa talvez nunca tenha visto uma cidade trabalhar sorrindo. Quem entende, aposta. E quem aposta colhe — em emprego, renda, turismo e dignidade. O resto é silêncio fora de época. Confete varrido antes da hora. E um calendário que perde o melhor jeito de contar a vida.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor
Faça um comentário