Quando a arte educa o ouvido, a sensibilidade agradece e a poesia resiste
Antes de qualquer palavra, vem ela. A música chega sempre antes, como se abrisse caminho para o que sentimos e nem sempre sabemos dizer. Em um samba-choro de minha autoria, em parceria com os grandes Claudionor Cruz e Gerson Bientinez, começo assim: “E vem a música, divina música, que os anjos colhem de Deus.” Não é apenas verso — é confissão. A música, quando verdadeira, não nasce do esforço, mas da escuta. Ela desce suave, atravessa a alma e nos escolhe para ser dita. É sobre essa presença invisível, que consola, provoca e explica o mundo sem pedir licença, que esta crônica começa.
“gosto se discute, sim”. E eu, que venho do rádio, do samba, da escuta atenta e da curiosidade teimosa, fiquei observando as ondas que ela provoca. Discutir gosto não é brigar por preferência, nem erguer um palanque para decretar o que é melhor ou pior. Discutir gosto é, antes de tudo, conversar sobre escuta, repertório e acesso.
Ninguém nasce gostando disso ou daquilo por obra do acaso ou por iluminação divina. Gosto se constrói. E se constrói com tempo, com oferta, com curiosidade e, sobretudo, com oportunidade. Quanto mais amplo é o acesso ao conhecimento, maior é a capacidade de escolha. E escolher não é repetir. Escolher é perceber nuances: a riqueza melódica, o balanço do ritmo, a ousadia da harmonia, o cuidado com a palavra. Não se trata de hierarquizar estilos, mas de reconhecer quando há alma, trabalho e intenção.
Vivemos tempos apressados. O mundo, ao que parece, vai perdendo poesia em prestações. Tudo precisa ser explicado, simplificado, mastigado. A arte, no entanto, ainda resiste como um dos poucos territórios onde não é preciso provar nada com gráficos ou fórmulas. Ela provoca sem didatismo, ensina sem quadro-negro, amplia a inteligência sem humilhar a sensibilidade. A arte sugere, insinua, convida ao silêncio — coisa cada vez mais rara.
A música brasileira, essa senhora de muitas vidas, também atravessa sua crise. E não falo apenas de mercado, algoritmos ou cifras. Falo da dificuldade de diálogo, da escassez de crítica construtiva, da troca rasa que substitui a escuta profunda. Em vez de conversa, grito. Em vez de reflexão, repetição. Em vez de cuidado, pressa.
Talvez por isso seja tão urgente defender a discussão do gosto. Não para apontar dedos, mas para abrir ouvidos. Não para excluir, mas para ampliar. Porque quando a gente aprende a escutar melhor, aprende também a viver melhor. E, quem sabe, a devolver ao mundo um pouco da poesia que ele anda perdendo pelo caminho.
Cláudio Ribeiro
Jornalista – Compositor
Caçula
Claudionor Cruz, Gerson Bientinez e Cláudio Ribeiro.
E vem a música
Divina música
Que os anjos
Colhem
De Deus
Pirilampos sempre invisíveis
Sopram no ar
O sentimento não-falar
E esta música divina música
Procura dos sensíveis
Alcançar um olhar
Pólen de ouro
Grande tesouro
Linha das luas
Das mãos tão nuas
Jasmim
Colhe o mel do luar
De Deus
Que embalança o Mar
Que meus sonhos navegam
O que não sei contar,
E vem, bordando, o dia traz
Histórias, que a gente faz.
Vem sem a hora
Vem buscando ter
O seu lugar;
Planta o sorriso
Paraíso
Flor manhã.
Da nossa dor colhe o afã
Semeia a paz.
Do canto faz
Seu povo
De novo…
Tecendo saudade acalentar
Caçula:
Amor de todos será!
Então…
A letra da música “Caçula” explora temas relacionados à espiritualidade, ao encanto da música, à natureza e à criação.
Faça um comentário