90 anos de Mojica, o Zé do Caixão e os medos profundos do Brasil

 

Há 90 anos nascia José Mojica Marins, criador de Zé do Caixão, figura que transformou o horror em alegoria dos medos políticos do Brasil: autoritarismo, violência e impunidade.

Há monstros que vêm de castelos europeus, outros saem de laboratórios futuristas. Mas um deles nasceu num cemitério poeirento do interior imaginário do Brasil.

Na sexta-feira, 13, celebramos com o sinal da cruz os 90 anos de nascimento, em São Paulo, de José Mojica Marins. Três décadas depois, ele criaria um personagem que pisaria fundo no imaginário nacional: o coveiro de cartola e unhas intermináveis conhecido como Zé do Caixão.

Mais do que assustar plateias, Mojica inventou um horror profundamente brasileiro — um terror que não vinha apenas do sobrenatural, mas da própria estrutura da sociedade. Ele traduz medos políticos profundamente enraizados na história brasileira: autoritarismo, violência social, desigualdade extrema e a fragilidade das instituições.

Nos seus filmes, o medo tinha cheiro de terra molhada, eco de igreja vazia e silêncio de autoridade ausente. Sua plateia reconhece as ruas de terra, os botecos fedendo a cachaça, os velórios comunitários e as pequenas cidades dominadas por boatos e superstições, originadas de seus sincretismo religioso.

O cineasta paulista revolucionou a sétima arte ao unir filosofia e medo, criando um ícone cultural que enfrentou a censura e marcou gerações com criatividade ímpar. Resta-nos celebrar a permanência de um imaginário que provou ser possível fazer terror com sotaque, filosofia e identidade nacional.

O tirano da pequena cidade

Quando apareceu pela primeira vez em À Meia-Noite Levarei Sua Alma, em 1964, Zé do Caixão não era exatamente um monstro.

Era algo talvez mais familiar ao Brasil: um homem que governava pelo medo.

Ele intimidava moradores, humilhava a religião local e fazia valer sua vontade pela força. A comunidade o temia, mas ninguém parecia capaz de detê-lo.

Essa figura lembrava um personagem recorrente da história brasileira: o mandão local, o coronel informal, o poder que se impõe sem prestar contas a ninguém.

O terror, ali, não era apenas o que Zé fazia — era a impotência coletiva diante dele.

Horror em tempos de autoritarismo

Não foi por acaso que o personagem ganhou forma no mesmo ano do Golpe de Estado no Brasil em 1964. Mojica entendia que o verdadeiro horror não está no sangue derramado, mas na atmosfera, na sugestão, no que não se vê mas se sente.

Embora Mojica nunca tenha feito cinema político no sentido tradicional, o clima de medo e arbitrariedade da época parecia infiltrar-se em suas histórias. Seus filmes frequentemente mostram personagens reduzidos a objetos de tortura ou experimentação.

Em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de 1967, os delírios infernais, as torturas e as punições grotescas lembram um país em que o poder podia ser exercido sem limites claros.

Em um país acostumado a importar monstros estrangeiros, Zé do Caixão provou que também era possível criar nossos próprios pesadelos. E nos pesadelos de Mojica, o horror não era apenas metafísico — era também social.

O terror não vem de monstros sobrenaturais, mas de medos cotidianos e locais — morte, maldição, loucura, violência doméstica, vingança. Os filmes de Mojica frequentemente mostram uma sociedade brutalizada por assassinatos cruéis, estupros, torturas psicológicas, justiça privada.

O medo da violência e da impunidade

O que torna a obra de Mojica ainda mais impressionante é o contexto de sua produção. Em um país onde o cinema muitas vezes luta por recursos, ele fazia milagres com orçamentos ínfimos. A criatividade suplanta a falta de dinheiro: efeitos práticos feitos com engenhoca caseira, cenários construídos com sucata e uma atmosfera densa que dispensava grandes produções.

Improvisava cenários e frequentemente enfrentava censura ou incompreensão. Ainda assim, insistia em transformar suas ideias em imagens. Enquanto parte da crítica torcia o nariz, o público reagia com fascínio e medo. As sessões de cinema viravam rituais coletivos — entre sustos, risadas nervosas e olhares espantados.

Nos filmes de Mojica, a violência aparece crua, direta, quase cotidiana. Assassinatos, perseguições e humilhações acontecem diante de uma comunidade paralisada.

Essa atmosfera revela um dos terrores políticos mais persistentes do Brasil: a sensação de que a lei nem sempre alcança quem exerce poder. Talvez o elemento mais brasileiro do terror político em Mojica seja a sensação persistente de impunidade.

Zé do Caixão avança como se fosse intocável. E por muito tempo parece ser mesmo.

Nesse sentido, o personagem se torna quase uma metáfora grotesca de uma sociedade em que o abuso muitas vezes encontra poucos limites.

Uma capa sombria sobre o país

O que torna a obra de José Mojica Marins tão singular é que seus filmes nunca dependeram de castelos góticos ou monstros estrangeiros.

Seu horror nasce de coisas reconhecíveis para qualquer brasileiro: pequenas comunidades dominadas pelo medo; religiosidade confrontada pela descrença; violência que substitui a justiça; e autoridade exercida sem controle.

Por trás da cartola e das unhas afiadas de Zé do Caixão, esconde-se algo mais perturbador que um demônio.

Esconde-se a caricatura de um poder sem limites — um espelho sombrio das ansiedades políticas de um país que, muitas vezes, também parece caminhar entre sombras. Mojica nos deixou em 19 de fevereiro, pouco dias antes da pandemia de covid-19 aterrorizar o país.

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