Da fé católica à militância comunista, livro resgata trajetória de Alba Correia em seis décadas de educação popular, sindicalismo e resistência em Alagoas.
Maceió recebe, na próxima sexta-feira, 10 de abril, às 19 horas, o lançamento do livro autobiográfico de Maria Alba Correia da Silva, militante histórica do PCdoB de Alagoas. A obra, organizada pela jornalista e escritora Cíntia Ribeiro, é editada pela Editora da Universidade Estadual de Alagoas (EdUneal) em parceria com a Fundação Maurício Grabois. O evento acontece no auditório da Associação Comercial de Maceió, no bairro de Jaraguá, com noite de autógrafos embalada por composições do período da resistência democrática (1964–1985), interpretadas pela voz e violão do jornalista e músico José Luiz Pompe.
Com larga história de lutas desde o início dos anos 1960, Alba Correia percorreu organizações como o Movimento de Educação de Base (MEB), a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Universitária Católica (JUC), a Ação Popular (AP) e a Ação Popular Marxista-Leninista (APML), até chegar ao PCdoB, partido em que milita até hoje.
Das encíclicas à militância
Alba Correia nasceu no dia 13 de maio de 1938, em Maceió, na Rua Santa Cruz, no bairro do Farol. Sexta filha de Amélia Maria da Silva (1906–2006) e Aluízio Correia de Lima (1906–1980), estudou em escolas públicas durante toda a vida e, muito jovem, ligou-se aos movimentos católicos de ação e crítica social.

Acompanhando o Concílio Vaticano II (1962–1965) e atenta às encíclicas Mater et Magistra e Pacem in Terris, a então estudante mergulhou nas discussões que redefiniram a presença da Igreja no Brasil e no mundo: uma fé voltada para a justiça social, com um novo olhar sobre a dignidade humana e a paz entre os povos. Esses documentos não se restringiram, para ela, a dogmas e regramentos espirituais e morais — tornaram-se parte de sua prática cotidiana, de sua pedagogia, de seu jeito de se posicionar em sintonia com o método da própria Ação Católica: ver, julgar e agir.
Foi esse mesmo impulso renovador que a levou a reconhecer, nas contradições de seu tempo, também os limites da Igreja. As tensões entre pensamento conservador e progressista, entre evangelização e repressão, eram latentes. No livro, Alba reflete sobre a efetividade dos discursos acerca do respeito às liberdades individuais e a retórica do amor ao próximo diante da omissão de parte da Igreja frente à tortura. Ao lado de uma instituição que se dividia entre opostos irreconciliáveis, ela fez sua escolha: caminhou com aqueles que colocavam o Evangelho a serviço da participação coletiva e do Estado democrático de direito.
O MEB e a virada política
A aprovação no concurso para professora da rede pública estadual, em 1959, não a afastou da fé católica. Em 1962, foi convocada pela Arquidiocese de Maceió para compor o Grupo Técnico do Movimento de Educação de Base. Tinha pouco mais de vinte anos, lecionava na rede estadual e carregava a formação católica que marcara sua infância. A entrada no MEB levou à reinterpretação da fé à luz de um momento em que o Concílio Vaticano II impulsionava a Igreja latino-americana a unir religião e justiça social. Além das atividades no movimento, lecionou religião em escolas estaduais e participou de cursos sobre pedagogia catequética e orientação educativa.
Em 1965, partiu para o Uruguai para integrar um curso latino-americano de cooperativismo promovido por redes católicas ligadas à Acción Cultural Popular. A experiência ampliou seu repertório: em oficinas e conversas noturnas, ouviu relatos de militantes camponeses do Chile e de educadoras peruanas perseguidas por regimes similares ao brasileiro. Ali compreendeu que a rádio do MEB era uma entre muitas ferramentas de organização popular. Regressou ao Brasil com o olhar ainda mais atento às contradições de classe e ao lugar que as mulheres ocupavam — ou eram impedidas de ocupar — nesses processos.
Décadas de militância
Nos anos 1960 e 1970, Alba militou na Ação Popular e na Ação Popular Marxista-Leninista, até se filiar ao PCdoB, cuja direção estadual integra desde 1973. Em 1986, candidatou-se a deputada estadual, ainda sob a legenda do PMDB — o processo de legalização do partido só seria concluído em Alagoas com a formalização das filiações de toda a militância em 1987.
Nos anos 1980, reestruturou a Associação dos Professores de Alagoas (APAL). Eleita presidenta da entidade, organizou sua transformação no Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (SINTEAL). Sua liderança foi decisiva para a virada no caráter e na política sindical do professorado alagoano, tornando a entidade referência do sindicalismo combativo no estado — nos moldes do movimento metalúrgico do ABC que marcou o fim dos anos 1970 e os anos 1980.
Na Universidade Federal de Alagoas, contribuiu com projetos de formação docente, extensão e educação a distância. No campo da educação ambiental, sua atuação deixou marcas fundadoras precisamente quando mulheres, em escala mundial, forçavam as portas pelo direito de voz no debate. Esse engajamento se expressou no trabalho desenvolvido no Instituto do Meio Ambiente (IMA) e na criação, em 1997, do Núcleo de Educação Ambiental (NEA).
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