A importância da MPB para a compreensão da identidade nacional

 

mpb-brasil-cultura1Poderiam o grupo Mamonas Assassinas, a cantora Kelly Key e o axezeiro Netinho contribuir de alguma forma para a compreensão do conceito de identidade nacional? Para o sociólogo belo-horizontino Daniel Martins, sim. Recentemente, defendeu a dissertação Das coisas que aprendi nos discos: cancioneiro popular brasileiro e identificação nacional no mestrado em sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): analisando 165 músicas que tocaram muito no rádio entre 1956 e 2005, obteve precioso retrato do país dos pontos de vista urbano, político, étnico, racial, religioso e de gênero.

O caso de Daniel é, felizmente, mais um em meio ao crescente interesse da academia pela riqueza documental da música popular brasileira. Apreciador de música, decidiu estudar o assunto depois de ler uma série de teóricos que pensaram o Brasil, como Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr, Florestan Fernandes, Roberto DaMatta. “Pensei que dava para fazer isso com música. Queria ver qual imagem do país os compositores passam por meio das canções. Fui procurar bibliografia a respeito e descobri que existiam trabalhos semelhantes, mas abordando músicas com viés extremamente subjetivo”, lembra.

O trabalho começou com 5 mil canções: as 100 mais tocadas nas rádios brasileiras anualmente, num intervalo de 50 anos. Foram eliminadas todas que eram cantadas em línguas que não fossem o português e tivessem temática amorosa. O que restou foi categorizado em nove temáticas, das quais apenas as cinco com mais canções foram aproveitadas. “O gênero era irrelevante. Tem modinha, axé, sertanejo, pop rock, tropicalismo, bossa nova, manguebit. Tudo misturado. Um caldeirão mesmo. Pelas minhas mãos passou até a Kelly Key, com a música Cachorrinho”, conta o sociólogo.

“À medida que fui analisando as letras, pegava o que estava sendo dito, comparava com o período histórico e com o que diziam os teóricos da minha área sobre aquele período. Vi que as três coisas batiam. O compositor não falava nada completamente desvinculado da realidade social dele naquele momento. Quando Zé Keti cantava, em Opinião, que não sairia da favela de jeito nenhum, era momento da remoção das favelas e a teoria falava da valorização da habitação por meio dos moradores. Nada do que falam é desconexo”, analisa.

Exemplo bem recente é de Robocop gay, do grupo Mamonas Assassinas. “Naquele momento, 1995, era extremamente possível, mesmo que brincando, uma banda falar de homossexualismo abertamente: ‘Abra sua mente, gay também é gente’. Isso podia ser cantado por crianças sem que fossem repreendidas pelos pais. Eles até cantavam com as crianças. É uma abertura muito grande. Cabeleira do Zezé é de 1964. O Zezé devia ter uma franja igual à dos Beatles e pensavam que ele era transviado. Trinta anos, em história, é uma vírgula, quase nada. É uma mudança muito rápida”.

Compositores cultuados, como Chico Buarque, Caetano e Gilberto Gil, foram analisados da mesma forma que o cantor baiano Netinho. “Algumas pessoas falam: ‘Axé? Mas o que tem do axé?’. O Netinho tem uma música que compôs quando ainda era da Banda Beijo, que fala de barracos em Salvador, habitação precária, desabamentos. O axé falava disso e entrou na parada. O Olodum, com a questão do samba-reggae e preconceito no Brasil, era extremamente politizado”, observa.

Rap, caipira e brega

Para Heloísa Starling, vice-reitora da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora do Projeto República, que tem entre suas linhas de pesquisa a análise da canção popular brasileira, o tema já constitui campo de estudo para a universidade. “Essa discussão pode ser encontrada em várias áreas de conhecimento da universidade. Na Faculdade de Direito, por exemplo, uma professora usa a canção popular para trabalhar temas do direito. Também já vi essa discussão em áreas da saúde, como odontologia e farmácia”, afirma. O projeto já rendeu três livros (série Decantando a República), programa de rádio e filme.

“Da mesma forma que na França a literatura é o lugar, por excelência, para fazer isso, no Brasil é a canção. Parafraseando Guimarães Rosa, diria que a canção tem de tudo para quem quiser ver. A gente só não pode perder de vista o fato de que é uma linguagem específica e, portanto, tem que ser trabalhada respeitando essa linguagem. Não se deve, por exemplo, separar música da letra, ou seja, levar em conta o que é próprio da linguagem”, observa. “Vi trabalho muito bonito sobre rap na Faculdade de Educação. Também estão trabalhando a canção caipira e brega. Na universidade, gostamos muito de Chico e Caetano, mas sabemos que o mundo é maior do que eles”, completa.

Exportação

Professor da Universidade Federal de Uberlândia, Adalberto Paranhos tem produzido regularmente textos sobre a relação entre música e política no Brasil, com ênfase no período do Estado Novo. Inclusive, terá trabalho a respeito publicado em breve, em livro editado pela editora da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. “Havia certo ranço acadêmico, conservador, em relação ao tema até os anos 1980. Entendia-se como perfumaria, pesquisa menor”, revela.

“Hoje, temos muitos pesquisadores destacados nas universidades brasileiras e no exterior que se dedicam ao estudo da música popular brasileira. Temos um número apreciável de brasilianistas, particularmente norte-americanos, dedicados a isso. Até porque, parece não haver dúvida de que a nossa música é o principal item cultural de exportação”, diz ele, que também é vice-presidente da seção latino-americana da Associação Internacional para o Estudo de Música Popular.

Eduardo Tristão Girão

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