Chico César clama por humanidade mais liberta

 

O Brasil é (e sempre foi) uma pandemia para negros, índios, pobres em geral e seus descendentes. Temos de reinventar o Brasil. De refundá-lo”… Chico César é direto, sem meias palavras quando fala da situação dos excluídos. O cantor e compositor, autor de raridades poéticas como as canções.  À primeira vista e Mama África, em entrevista exclusiva ao Correio, não acredita em grandes mudanças nas relações sociais depois que o fantasma da Covid-19 se afastar no horizonte. Pede mudanças estruturantes na política cultural e critica os efeitos do capitalismo sobre o homem moderno. “O resultado é uma distopia profunda, pois um grande número de pessoas vai buscar respostas na negação da política e no fundamentalismo religioso”, acrescenta.

 

 

Por que arte e cultura perderam espaço no mundo contemporâneo para a ignorância e o ódio?

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Não concordo que arte e cultura tenham perdido espaço. Tenho até a impressão de que nunca se consumiu tantos produtos culturais e que isso tem crescido com uma imensa oferta, através da rede mundial de computadores. Acho que a educação e a comunicação têm falhado na missão de preparar o ser humano e a sociedade para as complexidades contemporâneas. A política também não tem trazido boas respostas. O resultado é uma distopia profunda, pois um grande número de pessoas vai buscar respostas na negação da política e no fundamentalismo religioso. Falta à social-democracia uma resposta contundente dos valores democráticos em si e do reconhecimento de que o capitalismo ou tem a injustiça social em seu próprio DNA ou deu errado em todos os lugares do mundo.

 

 

 

A tecnologia revelou o lado ruim do homem? Ou ela contribuiu para que se formassem pessoas egoístas?

A tecnologia é fruto das relações humanas, da busca do homem pelo conhecimento. O que contribui para a formação de pessoas egoístas é o capitalismo.

 

 

Em meio a essa infodemia (turbilhão de notícias falsas, que disseminam ódio) há redes de afeto e solidariedade, muitas usam a música como ferramenta de mudança. É esse o caminho?

O caminho é a Justiça e o Legislativo enquadrarem todos os criminosos que estão instrumentalizando o Executivo na defesa do interesse escuso de milícias e do imperialismo americano, claramente em queda.

 

 

Como você vislumbra o Brasil e o mundo depois da pandemia? Sairemos melhores dessa?

Será o Brasil de sempre: injusto, desde o nascedouro com direito a pequenas alegrias. Um carnavalzinho aqui, uma parada gay acolá. Na essência não muda. O Brasil é (e sempre foi) uma pandemia para negros, índios, pobres em geral e seus descendentes. Temos de reinventar o Brasil. De refundá-lo.

 

 

A cultura popular, como o festejo de São João, sofreu um baque. Artistas não conseguem garantir o ganha-pão, isolados e passando por momentos difíceis. O que fazer? Como o Estado e as pessoas podem contribuir para atenuar tanta dificuldade?

Não acho que a festa de São João ainda seja cultura popular. Faz tempo que não é. É um grande negócio. Outro. Talvez seja num lugar ou noutro. Os grandes negociantes e manipuladores dessa privatização da coisa pública sempre darão um jeito de ganhar seu dinheirinho para depois passear na Disney. Fundo Nacional de Cultura com Sistema Nacional de Cultura, com pacto federativo, que é bom ninguém quer pensar. Esse Estado? Não acredito em nada dele. A sociedade pode e está fazendo. Solidária agora. Quem sabe, depois cada um poderá voltar a correr atrás do seu…

 

 

Na canção Se essa praga morresse, você pergunta: “Será que o ser que do escuro sairá / É ciência ou religião?” Eu te pergunto: será luz ou escuridão?

O conflito antigo entre os dois, o lusco-fusco de sempre.

 

 

E seus projetos musicais? Como você está? Acha que o ócio é criativo ou prejudicial? Como você se conforta?

Eu crio sempre. Nunca tive ócio. Trabalho desde os 8 anos de idade e minha mente não para. As vicissitudes sempre foram alimento pra mim. Mas também sei viver sem elas. Acabando a pandemia retomo à estrada com o show O amor é um ato revolucionário e também começo a turnê de meu duo com Geraldo Azevedo.

 

 

Catolé do Rocha, onde você nasceu e tive a alegria de conhecer, é uma cidade no interior da Paraíba igual a milhares no Brasil, sem infraestrutura adequada para combater a covid-19. Num país em que o governante considera a tragédia do século uma gripezinha, como enfrentar tanta dor?

Desobedecer as orientações do governo federal é fundamental para buscar salvação. É preciso ouvir as autoridades mundiais na área de saúde e a orientação lúcida de alguns governadores e prefeitos: fiquemos em casa.

 

 

Você, que trabalhou como secretário de Cultura do estado, como fazer com que o poder público, eleito pelo voto popular (parlamentares e governador), entenda a importância da cultura e da arte no cotidiano das pessoas, no combate ao medo e à ignorância?

É necessário criar sistemas de cultura, que não possam ser mudados de acordo com a vontade do mandatário de plantão. Precisamos de políticas estruturantes. Isso agora me parece impossível.

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