As ressurreições de Marx

 

Karl Marx está nesse parnaso pouco povoado, junto a Isaac Newton, Charles Darwin e Albert Einstein

Karl Marx foi enterrado tantas vezes que o ato de ressuscitá-lo ameaça tornar-se cotidiano. Há várias maneiras de retornar – uma delas é como recordação de alguma coisa superada pelo tempo e, nesse sentido, visto como o construtor-chefe que construiu o escalão de um desenvolvimento que continuou.

Em determinado sentido, uma parte da obra de Marx é isso. É assim que o descreve o outrora influente e longe de ser comunista Jacques Attali: “Marx foi o primeiro a apreender o mundo em seu conjunto – que é, ao mesmo tempo, político, científico e filosófico”. Nesse sentido, Marx é, tal como disse o historiador comunista Eric Hosbawn, “o reconhecido pai fundador do pensamento moderno sobre a sociedade”.

Também há um retorno que implica uma maior persistência prática. Marx pretendeu uma maneira racional distinta de ver esse mundo no seu conjunto. Para isso, criou tantas ferramentas de análise para reavaliar não só o legado do pensamento filosófico, econômico e humanista até seus dias – mas dos dias que deviam vir.

É por isso que o Prêmio Nobel de Economia, e também longe de ser comunista, Sir John Hicks, admitiu que “a maioria daqueles que desejam estabelecer um curso geral de história utilizariam as categorias marxistas ou uma versão modificada delas, pois há poucas versões alternativas disponíveis”. Karl Marx está nesse parnaso pouco povoado, junto a Isaac Newton, Charles Darwin e Albert Einstein, os quais foram tão descomunais como para criar oficinas imperecedouramente úteis ao acionar intelectual humano.

Porém, há um terceiro retorno que os integra a todos e é uma verdadeira ressurreição heroica. Aquela que parte de sua máxima – e lanço mão da tradução de um amigo admirado: “Os filósofos não fizeram outra coisa a não ser interpretar de diversos modos o mundo. Mas cabe, também, transformá-lo”. Marxistas não são aqueles que acreditam, petulantemente, que estão entendendo o mundo a partir de suas leituras, mas, sim, todos aqueles que estão empenhados em tentar entendê-lo no processo de transformá-lo em algo melhor para as maiorias.

Nessa tamanha dimensão, Marx nasceu com Prometeu e na rocha enfrentou a água devoradora; esteve junto a Spartacus no estreito de Mesina; acompanhou Wat Tyler na grande revolta dos despossuídos; aconselhou Lênin naqueles dias que fizeram tremer o mundo; foi condenado à morte juntamente com Sacco e Vanzetti; desceu a escadaria com Julio Antonio Mella; organizou a greve com Rubén Martínez Villena; foi assassinado pelas costas em Manzanillo, para voltar lá mesmo com o General das Canas; atacou o quartel Moncada e desembarcou em Las Coloradas; ocupou Santa Clara e entrou em 8 de janeiro de 1959 em Havana.

Marx, todos os dias, redescobre Marx. Nós, em nosso empenho de continuar adiante, apenas somos suas reencarnações, nestas ideias, neste tempo, nesta Ilha.

Publicado originalmente no Granma

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