O anjo torto da História

Walter Benjamin, escrevendo sobre o Angelus Novus de Paul Klee, no ensaio Sobre o Conceito de História, identifica um anjo que parece desejar se afastar de alguma coisa, ao mesmo tempo que a observa fixamente. “Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto”, escreve o filósofo alemão.

 

Por Claudio Daniel*

Capa de <i>Palavras para Estrangular Silêncios</i>, de Edelson Nagues Capa de Palavras para Estrangular Silêncios, de Edelson Nagues

“Seu rosto está voltado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única (…). Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.

 

Esta reflexão alegórica de Benjamin vem à nossa mente após a leitura de Palavras para Estrangular Silêncios, novo livro de poemas de Edelson Nagues, dividido em quatro partes, identificadas apenas com algarismos romanos, que abordam temas como a memória, o tempo, a angústia, a solitude e a própria poesia, a partir da posição de um observador que contempla os acontecimentos de nosso confuso e conflituoso presente.

 

O nosso poeta é um rigoroso artífice da palavra, atento à depuração do verso e à busca da expressão precisa, mas, ao mesmo tempo, é uma testemunha perplexa de nossa triste época, que faz questão de inventariar a insânia. A poesia de Edelson Nagues, especialmente neste volume, está suja de história; não é uma escrita ingênua, pura, inocente, mas um registro do horror e violência que vivemos.

 

Assim, por exemplo, numa composição de ordem mais reflexiva e logopaica, dividida em quartetos, intitulada Tempus edax rerum, o autor escreve: “Tempo, este, que tudo morde / — um cão faminto e sem dono. / Caninos a moer mentes: / homens-zumbis, se não mortos. // Tempo que nos amordaça / na profusão das palavras. / As vidas, em cristal líquido, / nas telas se liquefazem. // Tempo de rancor e medo / — dois sentimentos num só. // O outro compartilha a rede, / mas nunca almoça conosco”.

 

Nestas linhas, reconhecemos a tradição poética a que Edelson Nagues pertence: aquela inaugurada por Carlos Drummond de Andrade (sobretudo o CDA de Rosa do Povo) e João Cabral de Melo Neto, embora também notemos os ecos antifonais do Livro do Eclesiastes, atribuído a Salomão, pela linguagem substantiva e construção anafórica do ritmo.

 

Em outra peça, de diversa fatura, intitulada Cromatismo, o poeta diz: “Fantoches dançam / em dedos ágeis / no hall do silêncio. // As negras mãos / avivam sonhos / policromáticos. // Cinzas são as dores / então amortecidas / [por um só instante]. // Branca é a redoma / que os acordes — aço — / perfuram, penetram. // Verde é a espera / nas contas das costelas em teclas transmutas. // De onde vem o dom / que rompe a fronteira /das invisíveis cercas?”

 

Estas estrofes iniciais, de forte imagética e apelo sensorial e sinestésico, em que as cores adquirem ainda sentido metafórico, apenas prenunciam a cena urbana de racismo, exclusão e arbitrariedade, que vemos acontecer com certa frequência nas grandes cidades brasileiras.

 

Na segunda metade do poema, porém, a trama se desenrola de forma mais intensa, evidenciando o contexto social: “Se pelouro houvesse, / seriam outras notas, / a soar, nas costas, o vermelho açoite. // Pelouros há, em disfarces: / turvos caleidoscópios / em circular movimento. // (…) Nesta quinta-feira azul, / no Shopping Liberty Mall, / na capital do país, / um evento multicor /desafia o establishment.”

 

Há uma narrativa poética nessas linhas, mas ela não é linear, sequencial-discursiva, e sim esfiapada, fragmentada, reduzida a poucas pistas semânticas, para que o leitor monte as peças do quebra-cabeças ele mesmo. Isto acontece porque há um espírito lúdico na poesia de Edelson Nagues, que solicita do leitor não apenas uma passiva atitude de leitura, de recebimento de sinais, mas também uma posição ativa de jogador, que participa do jogo poético, colaborando na criação dos significados.

 

O gosto pelos enigmas, paradoxos, metáforas e adivinhas aparece também em outras composições, breves e irônicas, como por exemplo em Às Avessas: “Vivo às avessas, / pra enganar esta dor / que me atravessa. // Em todo abril, / procuro a rima / que me pariu. // Seco em janeiro. / Floresço em agosto. / Em dezembro, o céu. // O meu oposto / é a parte de mim / em que sou eu”.

 

A temática lírica, subjetiva, atravessa todo o volume, fazendo par com o eixo histórico e social; o leitor deste livro não espere, porém, por uma escrita confessional, porque o daimon metalinguístico que rege todo o volume coloca em primeiro plano a função poética, que transfigura fatos, emoções, pensamentos, cenas e acontecimentos em seres de linguagem de timbre seco, que derivam de um peculiaríssimo imaginário, como acontece no poema Do Osso: “O que está no osso / é muito mais do que / o que está na alma. // O que está no osso / é mineral, carbono: / arquitetura fóssil. // Não é só tutano. / É a vida mesma / em seu eixo físico. // Por dentro, sustendo, / o que não se mostra / em instância falsa”.

 

Haveria muito mais o que dizer sobre a poesia de Edelson Nagues, como o uso singular que ele faz do humor e a desconstrução do cotidiano, mas tal esforço iria além do escopo de um pequeno texto crítico. Convido o leitor a mergulhar nas páginas densas deste volume, que estão entre as mais originais e consistentes que tenho lido nos últimos tempos. Edelson Nagues é um autor que se destaca entre as novas vozes poéticas da Literatura Brasileira Contemporânea.

 

* Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, com mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa pela USP, além de pós-doutorado em Teoria Literária pela UFMG. É colaborador do Prosa, Poesia e Arte

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