A excêntrica homenagem da Flip a Elisabeth Bishop

Num momento de ataque à nossa cultura, em que temos um governo que festeja a ignorância, que bate continência para a bandeira norte-americana e defende o regime militar, a nossa maior feira literária, pela primeira vez, vai homenagear um autor estrangeiro – uma escritora de língua inglesa, que apoiou o golpe de 1964.

 

Não temos brasileiros dignos de tal celebração? E se querem um estrangeiro, por que não latino-americano? Por que não de língua portuguesa? Por que não um africano? Uma escolha desse tipo sempre é política, ainda mais nesse Brasil de 2019.

 

Texto de Schneider Carpeggiani sobre o assunto: “Uma análise de hoje na Folha elogia a escolha de Bishop para a Flip a partir da sua visão do Brasil, “excêntrica no melhor dos sentidos”. Mas a visão de Bishop do Brasil não é tão interessante, apesar das falas que têm circulado desde ontem da autora, sobretudo sua simpatia (vamos usar um eufemismo) em relação à ditadura. A política não era seu forte, a relação com o Brasil não era o mais importante. Uma relação amorosa com uma brasileira não faz dela brasilianista. A visão de Bishop do Brasil é lugar-comum da elite. Tem horas que parece uma Odete Roitman ou um Paulo Francis falando.

 

Ela é importante por sua poesia, pouco conhecida por aqui para além do poema “uma arte”. E a poesia de Bishop nesse atual momento não tem calor, mas talvez seja isso o que, no fundo, todos desejam. Lembro que nos anos 00, ou seja, um outro planeta, houve uma homenagem para Bishop na Flip com a apresentação da peça Um porto para Elizabeth Bishop. Naquela época parecia já de bom tamanho.

 

É sintomático também o primeiro estrangeiro da Flip não ser um hispano-americano, no momento de pensarmos cada vez mais as tensões em comum do continente. A escolha de uma autora de língua inglesa como primeira primeira homenageada estrangeira diz muito, diz em excesso. A gente não quer ser nunca latino-americano, a questão só não é identitária se estivermos falando em inglês. Acho complicado também o xingamento de ‘nacionalista” para quem reclama de que há outros autores brasileiros que mereçam atenção da Flip nesse momento. É justo. Estamos no Brasil.

 

Duvido que a maior festa literária dos estados unidos agora, num momento de tensão como vivem os estados unidos, vá homenagear um latino-americano. Ainda que ele tenha namorado um norte-americano.”

 

Por Joana Rozowykwiat, em seu Facebook

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