Morre aos 98 anos Tia Maria do Jongo, fundadora da Império Serrano

“Nasci com o jongo e vou com ele até o final. Só paro de dançar quando Deus quiser”, disse neste mês Tia Maria do Jongo, em sua derradeira entrevista. Pois foi na Casa do Jongo da Serrinha, em Madureira, tocando tambor numa aula de jongo para adultos, que a matriarca morreu, aos 98 anos, sábado (18). Única fundadora da escola de samba Império Serrano que ainda estava viva, ela se sentiu mal às 11 horas, desmaiou e foi levada ao Posto de Atendimento Médico de Irajá, onde não resistiu.

 

“Suas últimas palavras foram quando perguntei como estava se sentindo, e ela respondeu: ‘Ah, minha filha, meio barro, meio tijolo’”, conta a psicóloga Livea Nascimento, testemunha do último suspiro da “rainha do jongo” (Livea é nora de Nelson Sargento, um dos grandes amigos de Tia Maria).

 

Maria de Lourdes Mendes, a Tia Maria do Jongo, era figura famosa do Morro da Serrinha. Ela foi uma das principais responsáveis por manter vivos e transmitir às novas gerações os ensinamentos do jongo, também conhecido como caxambu. Com origem no Congo e Angola, o jongo chegou ao Brasil na época da Colônia, trazido pelos negros bantos que foram escravizados. No Rio de Janeiro, onde se disseminou no século 19, o ritmo africano teve influência na criação do samba.

 

Filha e neta de escravos que vieram de Minas Gerais para a favela da Zona Norte carioca, ela nasceu em 1920 e cresceu em meio às festas que o pai dava. Quando criança, não podia participar das rodas, já que, por tradição, o jongo deve ser dançado apenas por idosos. “A gente dançava escondido da minha mãe no terreiro”, costumava lembrar.

 

Ao ver que, por causa dessa restrição, a batucada corria o risco de desaparecer, uma vizinha, Vovó Maria Joana (1902-1986), incumbiu o filho, Mestre Darcy do Jongo (1932-2001), de mantê-la viva. Ele chamou outras jongueiras e surgiu, então, o Jongo da Serrinha.

 

“Depois da morte do Mestre Darcy, Tia Maria tomou a frente da batalha na preservação da memória do jongo. Tornou-se uma figura emblemática, que deixa um legado através de seus discípulos, como as Meninas do Jongo da Serrinha”, conta a pesquisadora Rachel Valença. “Perdemos uma pessoa atuante, que tinha consciência da necessidade de preservação de uma cultura popular já tão abandonada. É um susto: eu a conhecia há quase 50 anos. Estava bem atuante e alegre.”

 

Tia Maria era também, até ontem, a última fundadora viva do Império Serrano. A verde e branco de Madureira nasceu no quintal de sua casa. “Ela tinha a memória desse fato tão importante para nós, imperianos. Tinha uma narrativa inteiramente confiável e direta da fundação. Das pessoas que participaram diretamente da fundação do império, ela era a última sobrevivente. Aescola perdeu todas as suas testemunhas oculares desse tempo”, lamenta Rachel, autora do livro Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba.

 

Na terça-feira (14), Tia Maria recebeu o Prêmio Sim à Igualdade Racial 2019, do Instituto Identidades do Brasil, na categoria Arte em Movimento, pilar Cultura, em cerimônia no Copacabana Palace. Ela concorria com o ator Fabrício Boliveira e o rapper Djonga. Estava muito feliz, subiu no palco com sua tradicional simpatia, aquele sorrisão largo, e disse: “Vai ser um grande prazer se um dia vocês puderem passar uma tarde com a gente. O jongo é bom, vocês vão gostar.”

 

Joacyr Nogueira, do coletivo Museu Virtual Serrano, residente na Casa do Jongo, sabe exatamente como são (e agora, eram) essas tardes por lá. “Na Casa, a gente fica sentado olhando para a tia e aprendendo, mesmo ela estando calada e sentada. De repente, ela diz: ‘Leva a vó em casa?’”, conta. “Da Casa do Jongo até a casa dela são 500 cumprimentos, de crianças de colo até mulheres e homens de 80 anos. Todo dia é igual.”

 

O amor pelas crianças era marca dessa senhora sabida, que entendia o respeito aos pequenos como uma forma de perpetuar a riqueza cultural do jongo. Um de seus grandes prazeres, além da dança, claro, era esperar a fruta madurar no pé plantado em seu quintal para fazer seu doce de laranja da terra, famoso na vizinhança. Em abril, durante o projeto Samba e Prosa, ela falou sobre a vida longa.

 

“Tenho 98 anos e mamei até os 8. Minha mãe lavava roupa lá no poço na rua que hoje chama Mano Décio. Ali tinha um terreno baldio que tinha três poços. As mulheres iam todas lá lavar roupas. Eu ia lá mamava, mamava e subia carregando água na minha latinha”, lembrou. “A prima da minha mãe cantava: ‘Maria sobe morro, bunda dela tremeu’. Eu não gostava, jogava minha latinha no chão e tinha que voltar para encher de novo. Tinha que voltar no poço e acabava mamando de novo. Esse é o segredo da longevidade.”

 

Tia Maria vinha se recuperando de um cateterismo, feito em março, e enfrentava problemas de circulação. Também havia passado por cirurgias de catarata. O atestado de óbito diz que a causa da morte é indeterminada. Viúva, deixa um filho, Ivo Mendes, com quem estava morando atualmente — ela, inclusive, o chamava de “papai”, por conta de sua dedicação.

 

A jongueira, que deve ser enterrada neste domingo (19), no Cemitério de Irajá, deixa ainda dois netos, quatro bisnetos, além de uma legião de fãs formada pela comunidade jongueira da Serrinha. “Hoje descansa Tia Maria do Jongo. Silencia o tambor, o Jongo se despede da sua maior referência”, registrou a Império Serrano nas redes sociais. Sua benção, Tia Maria!

 

 

Da Redação, com agências

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