Entenda o que foi a Frente Negra, movimento pioneiro criado há 90 anos

 

Fundada em 1931, entidade se dissolveu em 1937; educação foi uma de suas prioridades

Em 5 de abril de 1932, o jornal Folha da Manhã noticiou em uma nota que havia numerosas adesões de pessoas à Frente Negra Brasileira, em Campinas, no interior de São Paulo. No dia seguinte, outra reportagem dizia que uma comitiva esteve na cidade de Sorocaba para “assentar as bases para a delegação representativa”.

Notícias assim passaram a ser comuns após um grupo de “homens de cor”, como eram chamados os negros na época, fundar a Frente Negra Brasileira, em 16 de setembro de 1931, em São Paulo.

Pioneira do movimento negro brasileiro, a associação tinha o objetivo de unir a população negra em defesa de seus direitos e contra o “preconceito de cor”, expressão que à época se usava para tratar do racismo.

“O objetivo formal da FNB era a afirmação dos direitos históricos da gente negra e a elevação moral, intelectual e social da população negra”, diz Márcio Barbosa, autor do livro “Frente Negra Brasileira — Depoimentos” (Quilombhoje, 1998).

“Podemos pensar que esses objetivos eram bem gerais, mas eram também muito ousados, se levarmos em conta o contexto da época, com todas as dificuldades de organização que se apresentavam interna e externamente”, afirma.

De acordo com Márcio Barbosa, temas que faziam parte das diretrizes da FNB permanecem na pauta do movimento negro atual, como a educação e a participação política.

“Em relação à educação, houve avanços, como a conquista das leis 10.639 e 11.645 [obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas] e das políticas de ação afirmativa no ensino superior”, afirma. “Por outro lado, no campo da atuação político-partidária, no século 20 não houve nenhum outro partido negro”, diz.

Segundo Petrônio Domingues, historiador e professor da Universidade Federal de Sergipe, quando se faz um paralelo entre a luta frentenegrina e a do movimento negro atual, percebe-se um avanço significatico. “A sociedade e o estado brasileiro passaram a compreender que o racismo no país é estrutural”, diz.

“Especialistas, e eu faço parte desse grupo, entendem que estamos em uma era pós-democracia racial. A narrativa de que não há racismo não cola mais”, afirma.

O historiador destaca também como importantes avanços o reconhecimento das comunidades remanescentes quilombolas, o que lhes deu o direito de titulação das terras, e a Lei Caó (1985), que tornou o racismo crime inafiançável.

Foi uma longa jornada de lutas, e ela começou antes mesmo de surgir a Frente Negra Brasileira.

Por volta de década de 1920, começaram a pipocar algumas associações de negros, em geral de cunho recreativo. Uma delas, o Centro Cívico Palmares, foi fundado em 1926 e dissolvido em 1929. Dois anos depois, alguns de seus membros criaram a Frente Negra, em São Paulo.

De acordo com o historiador Petrônio Domingues, a perspectiva era a de unificar a luta contra o racismo o Brasil, e a Frente Negra tornou-se a maior organização em defesa dos direitos do negro no período pós-abolicionista.

A primeira sede da entidade foi no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé (centro de São Paulo), mas o número de filiados cresceu tanto que precisaram se mudar para uma casa maior na rua da Liberdade, onde atualmente é a Casa de Portugal.

Grupo posa para foto em frente a sede da delegação da Frente Negra Brasileira (Foto: Acervo Biblioteca Nacional)

A adesão ao movimento frentenegrino expandiu de maneira tão rápida que, em menos de um ano, a entidade já estava no interior paulista. Não demorou muito para que suas ideias ganhassem adeptos em outros estados, como Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Não há consenso entre os especialistas sobre quantos filiados aderiram ao movimento. Alguns calculam que podem ter sido 50 mil. Outros estimam números entre 100 mil e 200 mil.

“Além da ausência de políticas públicas para essa população no período pós-abolição, o que a destinava ao desemprego ou aos subempregos, havia também uma situação de precariedade na área de saúde, com muitos casos de tuberculose”, diz Márcio Barbosa.

A entidade possuía diversos departamentos. Segundo especialistas, o da instrução se destacou ao oferecer aulas de alfabetização para crianças e turmas noturnas para adultos.

Crianças na escola da Frente Negra Brasileira (Foto: Arquivo pessoal de Márcio Barbosa)

“A educação era um pilar fundamental da proposta frentenegrina de elevação moral, intelectual e social da população negra. Por meio da educação, homens e mulheres poderiam superar a situação de marginalização, ganhar respeitabilidade e participar ativamente do cenário político”, afirma o autor.

Para escrever seu livro, Márcio Barbosa ouviu o depoimento de cinco frentenegrinos. Nas conversas, ficou evidente na memória deles o impacto da FNB nas situações mais cotidianas.

“Para essas pessoas, a situação econômica era um obstáculo, mas, a partir de sua inserção na FNB, elas conseguem fazer a associação dessa situação econômica com o racismo estrutural e conseguem sair do plano individual para o coletivo”, diz o autor.

“Aristides Barbosa afirma, por exemplo, que para ele a FNB era uma segunda casa, ele ia para lá todas as noites. Lá ele encontrava um local de sociabilidade, de convivência, afinal havia palestras, saraus, apresentação de peças teatrais, entre outras coisas”, afirma o escritor.

A entidade chegou a ter também uma banda e um time de futebol, além de oferecer assistência jurídica e médica e promover atividades culturais.

Mulheres negras tiveram papel fundamental na formação da associação. Entre os diversos grupos que elas criaram dentro da FNB, havia um voltado para promover atividades lúdicas, artísticas e culturais, chamado Rosas Negras. Outro fomentava atividades assistencialistas, tais como ações beneficentes.

Grupo Rosas Negras (Foto: Arquivo pessoal de Márcio Barbosa)

“Francisco Lucrécio também fala da importância das Rosas Negras e da mulher em geral para a FNB. Ele afirma que elas eram maioria e que tinham mais condições do que os homens de arcar com as mensalidades da associação, pois tinham mais ofertas de emprego trabalhando como cozinheiras”, diz Márcio Barbosa.

Ainda assim, não ocupavam cargos de diretoria, o que mostra que sua participação em postos de poder ainda estava submetida a uma lógica de exclusão, segundo o autor.

A imprensa também teve papel importante na época, tanto que, em 1933, a Frente Negra criou o seu próprio jornal, chamado “A Voz da Raça”.

A FNB compreendia sua luta em termos nacionalistas, por entender que a população negra era a mais brasileira de todas. Segundo Márcio Barbosa, essa concepção se deu por causa de seu primeiro presidente, Arlindo Veiga dos Santos, que tinha uma ideologia monarquista e era anticapitalista e anticomunista.

“Arlindo também tinha amizade com o integralista Plínio Salgado, por isso se tornou comum dizer que a FNB apoiava o integralismo”, afirma.

“Por outro lado, é interessante notar que vários personagens brancos conhecidos, e que foram integralistas ou simpatizantes, não tiveram sua imagem ligada a essa corrente ideológica tão intensamente como a FNB tem tido”, diz. “Temos uma tendência de julgar o passado a partir da nossa experiência presente, utilizando as mesmas referências”, afirma.

Para Petrônio Domingues, na Frente Negra nunca existiu um pensamento único. Ela reunia várias tendências e uma diversidade de ideias e pensamentos a ponto de ter socialistas, comunistas, monarquistas, fervorosos getulistas e anti-getulistas.

Na Revolução Constitucionalista de 1932, por exemplo, um setor minoritário da FNB apoiou São Paulo contra Getúlio Vargas. O episódio fez com que houvesse uma divisão entre seus membros, e do racha surgiu a Legião Negra.

Como última ação da entidade, em 1936, os frentenegristas criaram um partido político. Um ano depois, porém, Getúlio aboliu todos os partidos.

Segundo os especialistas, o episódio foi crucial para o destino da entidade. “Depois do decreto de Getúlio, a FNB encerrou suas atividades. Francisco Lucrécio, entretanto, não atribui só ao fato político o fim da FNB, mas também ao esgotamento físico e mental de seus membros”, diz Márcio Barbosa.

Após o episódio houve ainda uma tentativa de criar uma nova entidade chamada União Negra para dar continuidade ao trabalho da FNB, mas ela não vingou.

Compartilhar:

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*