Quem foi Bárbara Heliodora, a primeira mulher a fazer poesia no Brasil

Na semana em que se comemora o Dia Mundial da Poesia (21 de março), o Prosa, Poesia e Arte apresenta uma das autoras mais importantes e pioneiras da literatura brasileira: a mineira Bárbara Heliodora (c.1759-1819), que foi uma aguerrida lutadora social no período da Conjuração Mineira (1789) e é considerada a primeira poeta do País. O artigo é da professora Adrienne Savazoni, doutora em Estudos Literários pela Unesp. Leia abaixo.

É de Bárbara Heliodora, heroína da Conjuração Mineira (1789), o primeiro registro de uma mulher usando a pena para escrever poesia É de Bárbara Heliodora, heroína da Conjuração Mineira (1789), o primeiro registro de uma mulher usando a pena para escrever poesia

Bárbara Heliodora, nossa primeira poeta e uma lutadora social

 

Por Adrienne Kátia Savazoni Morelato*

 

É de Bárbara Heliodora o primeiro registro, no Brasil Colônia, de uma mulher usando a pena para escrever poesia nestas terras. Bárbara é conhecida hoje como heroína da Inconfidência Mineira, pois teve um papel determinante no movimento, muito mais do que apenas ser a musa inspiradora do poema Bárbara Bela de Alvarenga Peixoto, seu marido:

 

Bárbara bela,

Do Norte estrela,

Que o meu destino

Sabes guiar,

De ti ausente

Triste somente

As horas passo

A suspirar.

Por entre as penhas

De incultas brenhas

Cansa-me a vista

De te buscar;

Porém não vejo

Mais que o desejo,

Sem esperança

De te encontrar.

Eu bem queria

A noite e o dia

Sempre contigo

Poder passar;

Mas orgulhosa

Sorte invejosa,

Desta fortuna

Me quer privar.

Tu, entre os braços,

Ternos abraços

Da filha amada

Podes gozar;

Priva-me a estrela

De ti e dela,

Busca dous modos

De me matar!

 

O poema de Alvarenga Peixoto, escrito em seu exílio na África, embora pareça ser uma poesia de amor, demonstra certa inveja de Heliodora por esta poder continuar no Brasil em companhia da filha. Inveja que se expõe ainda mais em alguns poemas que hoje não sabemos se são dele ou da esposa.

 

Na verdade, estamos falando de uma mulher que viveu no século 18, em uma colônia de exploração de matéria-prima, regida pela escravidão e pelo coronelismo. Uma mulher que assumiu seu relacionamento afetivo sem se casar oficialmente, gerenciou as fazendas da família, lutou na Inconfidência (mesmo que isso custasse sua herança, sua família e sua vida), ousou escrever poesias quando as mulheres nem alfabetizadas eram e acabou cuidando e educando os filhos sozinha depois do exílio do marido.

 

A poesia se tornou, para essa forte mulher à frente do seu tempo, uma forma de resistência ao silêncio imposto às mulheres durante milênios. Não é a toa que, quando os esbirros da rainha Maria Antonieta, a “Louca”, adentraram sua residência à procura de seu marido e de provas cabais do envolvimento de ambos no movimento, a primeira coisa que esses soldados fizeram fora destruir seus cadernos de poesia. Rasgando seus escritos, o que a corte portuguesa desejava era calá-la e deixar claro que uma mulher não poderia ter voz na vida pública. Com esse ato, condenavam à inexistência não só Bárbara – mas a todas que pudessem vir depois dela.

 

Talvez por esse motivo colocar alguns de seus poemas sob o nome de Alvarenga Peixoto fosse uma forma de sobrevivência. Bárbara não era uma mulher de se dobrar nem aos reis, nem às circunstâncias, nem ao seu tempo. Era decidida, ética e culta em um local onde a presença da mulher era nula na sociedade.

 

Conta-se que as reuniões da Inconfidência Mineira eram em sua casa, sendo notória sua participação. Quando os inconfidentes foram descobertos, Peixoto pensou em delatar os companheiros como uma forma de escapar das punições e se safar de uma pena de morte ou exílio (assim como a delação premiada de hoje). Bárbara Heliodora foi veemente contra. Como afirmou em um poema, “Antes a miséria, a fome, /a morte, do que a traição!”. Assim, Alvarenga nada falou. Heliodora não só tinha consciência altruísta – mas principalmente tinha consciência política de seus atos.

 

Alvarenga Peixoto foi exilado e os bens de Bárbara foram confiscados pela metade. Só não lhe tiraram tudo porque ela soube usar os meios legais da época para passar o que restava ao seu filho, alegando que estava em profunda demência. Essa foi a imagem que dela para a história restou: a de que, ao perder tudo, passou a vagar pelas ruas da cidade como louca. Contudo, pesquisas indicam que Bárbara usou desse subterfúgio para não ser espoliada totalmente, o que demonstra sua grande inteligência e sagacidade.

 

Depois que o marido partiu, ainda perdeu a filha de Maria Ifigênia em um acidente de cavalo. Foi para a filha que Bárbara escreveu um soneto que é o mais belo poema de sua autoria:

 

Amada filha, é já chegado o dia,

em que a luz da razão, qual tocha acesa,

vem conduzir a simples natureza:

– é hoje que o teu mundo principia.

 

A mão, que te gerou, teus passos guia;

despreza ofertas de uma vã beleza,

e sacrifica as honras e a riqueza

às santas leis do Filho de Maria.

 

Estampa na tua alma a Caridade,

que amar a Deus, amar aos semelhantes,

são eternos preceitos da Verdade.

 

Tudo o mais são ideias delirantes;

procura ser feliz na Eternidade,

que o mundo são brevíssimos instantes.

 

Dos três poemas que sobraram de Bárbara Heliodora, dois se relacionam com a maternidade. Além do soneto para a filha, há Conselhos para os Meus Filhos. A maternidade talvez fosse o reino permitido para uma mulher de seu tempo. Alguns críticos chegaram a considerar esses poemas como de autoria de Alvarenga Peixoto – uma descrença que só mostra o quanto a crítica literária é patriarcal, masculina, falocêntrica. Não se admitia que uma mulher naquela época pudesse escrever. Talvez nem hoje.

 

O soneto à filha tem uma construção belíssima, muito própria para o Iluminismo. Vemos a figura da razão, da luz, através da tocha e da virtude. O que Heliodora ressalta em seus versos é que o mundo e a realidade se contrapõem a todo instante aos sentimentos e aos valores de amor e pureza que uma criança carrega diante da vida. Entretanto, a direção que ela deve seguir não é outra que não seja a do coração e dos valores cristãos.

 

O terceto final fecha com o ápice ao mostrar a contradição entre a positividade da época e a consciência da efemeridade da vida. Os brevíssimos instantes do mundo se opõem à eternidade que se procura a felicidade e que só será possível quando acatado os ideais cristãos de amor e de caridade. Apesar do tom didático, moral e conselheiro para a filha, o poema apresenta uma melodia e uma sonoridade pessimista. Os instantes destroem, de alguma maneira, toda a perspectiva otimista e conselheira do poema. Nada pode ser mais claro do que a reflexão sobre o término da vida e sobre a pequenez humana na face da Terra.

 

A aliteração criada no último verso desfaz todo tom incisivo e declarativo do poema. Este se torna ainda mais dramático quando descobrimos o destino trágico de Maria Ifigênia, morta 13 anos de idade numa queda de cavalo.

 

Bárbara (até a semântica de seu nome reflete sua simbologia) foi protagonista tanto da vida quanto da escrita – seu corpo teve voz e texto. Contudo, ela foi desterritorializada de si-mesma: enquanto Alvarenga Peixoto sofreu um exílio físico, Bárbara sofreu um exílio simbólico. Não só enquanto ser vivente que se mobilizava dentro de um espaço e tempo real, ao fluir dos acontecimentos – mas também com o apagamento de seu nome dos registros críticos e historiográficos durante o tempo posterior à sua morte.

 

Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa sentiram necessidade de resgatar a obra e a vida de nossa primeira poeta. Esse resgate demonstra o quanto escritoras e poetas do século 20 sentiam a falta de uma tradição literária feminina – e de se enxergarem em outras mulheres que escreviam no passado. A conclusão da busca não é que essas mulheres não existiram. Embora escassas, o que as tirou da linha da história foi a imposição de um apagamento de seus nomes pelo simples fato de serem mulheres.

 

Henriqueta Lisboa chegou a escrever um ensaio sobre Heliodora, em que comenta exatamente o esquecimento em que caiu a persona e as poesias da heroína da Inconfidência. Ela faz um apanhado dos poucos registros críticos que existem sobre essa mulher, numa tentativa de reconstrução da historiografia, do corpo e da voz de Heliodora. Henriqueta a desenha como uma deusa grega dos pés à cabeça e termina com um desabafo sobre a condição de ser mulher, a qual, para a poeta mineira, se torna ridícula em relação aos limites impostos pela sociedade daquele período histórico:

 

Sob o signo da contradição, viveu e passou à posteriedade Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, musa da história e da tragédia. Como evocá-la? A imagem de Clio, coroada de louros. A mão direita uma trombeta. A esquerda um livro, aos pés o globo terrestre, acompanhada pelo tempo? A semelhança de Meipomene, de atitude grave, ricamente vestida numa das mãos um cetro noutra um punhal, seguida pelas figuras do Terror e da Piedade? […] Se pela estirpe, descendente que era de bandeirantes, Bárbara Heliodora tinha orgulho no sangue e majestade no porte pela sua condição de mulher amantíssima saberia suavizar a situação patética em que transpôs o limiar da história.

 

A busca pela mãe literária esconde uma preocupação metalinguística das mulheres escritoras de refletir e discutir o cânone. Há também uma busca pela presença do sexo feminino na história literária – uma forma de dizer que houve territórios na escrita construídos por elas. A primeira poeta brasileira parece encarnar essa mãe perdida no espaço e no tempo. Seu apagamento diante da história literária do país esconde o quanto essa crítica literária é machista e seletiva, como se a literatura fosse uma herança dos homens para outros homens, o escritor velho se torna o pai do escritor novo. Nessa geração espontânea, não cabe o sexo oposto.

 

A perda real da filha e das terras passa a ser um símbolo da perda de territorialidades – tanto física quanto de significações e representações mentais que ela construiu sobre si mesma. E por não ter tido espaços para sua voz, ou por seus poemas todos não terem sobrevivido, é que Bárbara representa tanto desterritorialização da linguagem feminina do mundo público, a perda do corpo textual, quanto existência desta no que Showalter chama de território selvagem, a essência que Cecília e Henriqueta irão buscar:

 

Talvez pelo fato de a protagonista ter sido mulher e poeta, o Drama de Bárbara Heliodora tenha recebido de Henriqueta Lisboa um tratamento tão soberbo. (…) Henriqueta Lisboa confere ao drama de Bárbara Heliodora a dimensão trágica cerrada que só encontramos na mais alta tragédia grega.

 

Cecília Meireles também escreveu sobre Bárbara Heliodora em O Romanceiro da Inconfidência. O fascínio da trágica história de Bárbara comove não só pelo fato da sua queda de status social, mas pelos significados que engendram seu esquecimento como poeta. Sua história não era contada pela História Oficial, a não ser como apêndice da história do marido Alvarenga Peixoto – este, sim, visto como revolucionário e poeta. Por essa razão, duas mulheres poetas do século 20 levam a voz de Bárbara ao centro do poema, para contar por si mesma sua participação na História, transfigurando o que antes era considerado apenas um drama pessoal em um drama político e literário.

 

E não é de espantar que, para Bárbara ganhar voz histórica e voz poética, precisou que mais mulheres adentrassem o mundo público e fizessem jus a essa voz. Para ter voz, é preciso ter corpo. Bárbara passa a ser contornada e seu corpo começa novamente existir como texto. Mulheres contando história de mulheres. Elas representam o discurso da alteridade, e é nessa alteridade que vão afirmar as especificidades desse discurso. O sofrimento sai da esfera privada, para o qual se havia destinado o território do feminino, e entra para o espaço público, através da escrita.

 

* Adrienne Kátia Savazoni Morelato, mestre e doutora em Estudos Literários pela Unesp, é professora da rede estadual de São Paulo

 

Leia mais poemas de Bárbara Heliodora

 

 

Conselhos a meus Filhos

 

I.

 

Meninos, eu vou ditar

As regras do bem viver;

Não basta somente ler,

É preciso ponderar,

Que a lição não faz saber,

Quem faz saber é o pensar.

 

II.

 

Neste tormentoso mar

De ondas de contradições,

Ninguém soletre feições

Que soletre feições,

Que sempre se há de enganar,

De caras e corações

Há muitas léguas que andar.

 

III.

 

Aplicai, ao conversar,

Todos os cinco sentidos,

Que as paredes têm ouvidos

E também podem falar;

Há bichinhos escondidos

Que só vivem de escutar.

 

IV.

 

Quem quer males evitar,

Evite-lhe a ocasião,

Que os males por si virão,

Sem ninguém os procurar:

Antes que ronque o trovão

Manda a prudência ferrar.

 

V.

 

Não vos deixeis enganar

Por amigos, nem amigas,

Rapazes e raparigas

Não sabem mais que asnear;

As conversas e as intrigas

Servem de precipitar.

 

VI.

 

Sempre vos deveis guiar

Pelos antigos conselhos,

Que dizem que ratos velhos

Não há modos de os caçar;

Não batais ferros vermelhos,

Deixai um pouco esfriar.

 

******

 

O Sonho

 

Oh que sonho! Oh! que sonho eu tive n’esta,

Feliz, ditosa e socegada sésta!

Eu vi o Pão de Assucar levantar-se

E no meio das ondas transformar-se

Na figura de um indio o mais gentil,

Representando só todo o Brazil.

Pendente ao tiracol de branco arminho

Concavo dente de animal marinho

As preciosas armas lhe guardava;

Era thesoiro e juntamente aljava.

De pontas de diamante eram as setas,

As hásteas d’oiro, mas as pennas pretas;

Que o indio valeroso altivo e forte

Não manda seta, em que não mande a morte,

Zona de pennas de vistosas côres

Guarnecida de barbaros lavores,

De folhetas e perolas pendentes,

Finos chrystaes, topazios transparentes,

Em recamadas pelles de sahiras,

Rubins, e diamantes e saphiras,

Em campo de esmeralda escurecia

A linda estrella, que nos traz o dia.

No cocar… oh que assombro! oh que riqueza!

Vi tudo quanto póde a natureza.

No peito em grandes letras de diamante

O nome da augustissima imperante.

De inteiriço coral novo instrumento

As mãos lhe occupa, em quanto ao doce accento

Das saudosas palhetas, que afinava,

Pindaro americano assim cantava.

 

Sou vassallo e sou leal,

Como tal,

Fiel constante,

Sirvo á glória da imperante,

Sirvo á grandeza real.

Aos elysios descerei

Fiel sempre a Portugal,

Ao famoso vice-rei,

Ao illustre general,

Ás bandeiras, que jurei,

Insultando o fado e a sorte,

E a fortuna desigual,

Qu’a quem morrer sabe, a morte

Nem é morte, nem é mal.

 

[Observação: a grafia original foi mantida]

 

 

 

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