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Os ‘ratos e urubus’ de Joãosinho Trinta voltam a assombrar em 2020

O histórico desfile da Beija-Flor de exatas três décadas trazia mazelas que há pouco tempo começávamos a superar. Àquela época, tínhamos esperança. E hoje?

 

por Wagner de Alcântara Aragão

 

 

Foto: reprodução de frame de trechos do desfile de 1989 da Beija-Flor.

Dá para afirmar sem medo de errar: é unanimidade, ao menos entre quem pensa num outro mundo possível, que 2019 já vai tarde. Antes da despedida, convém lembrar um aniversário celebrado neste malfadado 2019. O aniversário de um episódio que nos apresentava um cenário que, há pouco, considerávamos como superado. Cenário, no entanto, que volta a nos assombrar.

 

Refiro-me aos 30 anos do histórico desfile “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, do Carnaval de 1989, concebido por Joãosinho Trinta (1933-2011), protagonizado pela comunidade de Nilópolis, da Beija-Flor. Um desfile que levou para a avenida o povo marginalizado. Que apontou a desigualdade social e a elite do atraso como as responsáveis pelas mazelas de uma nação que tinha (e tem) tudo para ser soberana. Desfile que foi, assim, à raiz dos nossos problemas.

 

Trinta anos depois, o desfile de Joãosinho Trinta representaria com precisão os tempos de hoje. Equívoco considerar, porém, que nada mudou. O desfile da Beija-Flor de 1989 não continua atual. O desfile da Beija-Flor de 1989 voltou a ser atual.

 

Se a gente quer se livrar dos ratos e urubus que aterrorizam o Brasil para 2020, é imprescindível que não deixemos que se percam no tempo e na memória as conquistas recentes. Sim, podemos considerá-los lentos, aquém das necessidades, mas avanços fizeram ficar no passado a fome, a miséria, o desalento. Estávamos longe do paraíso, não vivíamos às mil maravilhas, todavia até o pré-golpe de 2015 e a consumação do golpe de 2016 experimentávamos o sabor de um mínimo de dignidade.

 

Ficavam cada vez mais para trás o desemprego nas alturas, a informalidade e precariedade do trabalho, o desalento, a mendicância, a censura, a ignorância, o descaso com os mais pobres, com os grupos identitários diversos. Tudo aquilo que Joãosinho Trinta fez a Beija-Flor mostrar na Sapucaí em 1989 aos poucos superávamos. Ou, ao menos, tínhamos perspectivas e instrumentos reais e concretos para superar.

 

A política de cotas começava a incluir negros, indígenas, pobres no ensino superior. Um dique de contenção à retirada de direitos trabalhistas, à entrega das nossas riquezas e patrimônio estava sendo erguido. O pré-sal ficava sob controle da nação brasileira, e seus dividendos seriam canalizados para a educação e saúde. Assistência médica chegava aos rincões, o sonho da casa própria começava a se tornar realidade.

 

Há um detalhe que faz deste 2020 que se aprochega mais desafiador (para não dizer menos animador) que o 1989 de Joãosinho Trinta e da Beija-Flor. Naquele Carnaval, estávamos às vésperas da primeira eleição presidencial depois da ditadura. Naquele Carnaval, a Constituição, recém-nascida, iluminava e ampliava os horizontes. Para 2020, o que temos para nos agarrar?

 

Talvez o próprio Carnaval possa nos sinalizar um caminho. Os desfiles deste novo ano devem vir carregados de crítica social e política. De inspiração, também – afinal, o que não deverá ser Elza Soares sendo homenageada pela Mocidade Independente de Padre Miguel?

 

Como disse o mesmo Joãosinho Trinta lá em 1989, em entrevista à TV Manchete enquanto entrava na avenida, “escola de samba é muito mais que oba-oba de Carnaval. É um grande momento da vida brasileira. É momento de emoção, de beleza, de realização”. Podemos nos fortalecer bebendo dessa fonte, não?

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Author: Brasil Cultura

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