Marcelo Coelho: A vingança do circo contra o cinema

Em 1970, por encomenda da RAI (emissora de TV italiana), Federico Fellini (1920-1993) lançou Os Palhaços (I Clowns), um dos mais belos e tristes tributos do cinema ao circo. Misto de documentário e drama, o filme só estreou no Brasil no final de 2002, ocasião em que recebeu uma crítica à altura do cientista social Marcelo Coelho. Nos marcos do Dia Mundial do Circo (27 de março), o Prosa, Poesia e Arte recupera o texto de Coelho, prestando homenagem às artes circenses – e também a Fellini.

Lançado em 1970, filme de Fellini estreou no Brasil 32 anos depois Lançado em 1970, filme de Fellini estreou no Brasil 32 anos depois

A vingança do circo contra o cinema

 

Por Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo

 

Um grupo de pessoas rindo, afirmou o filósofo Theodor Adorno, já não passa de uma paródia, de uma caricatura da humanidade. Escrita por volta de 1945, a frase era uma reação tanto à barbárie nazista quanto aos horrores da indústria do entretenimento, com a qual o teórico marxista era forçado a tomar contato em seu exílio norte-americano.

 

Os Palhaços, semidocumentário de Federico Fellini rodado na década de 70, só agora estreou em São Paulo. No começo do filme, aquela idéia de Adorno parece ter sido posta de cabeça para baixo. Fellini lembra que, quando criança, tinha muito medo dos palhaços de circo: impressionava-o a semelhança que tinham com algumas personagens reais, os loucos, os tarados, os mendigos de sua cidade natal.

 

Aqueles tipos ridículos e desgraçados eliminavam qualquer possibilidade de achar divertido um espetáculo de circo. As primeiras cenas do filme reconstituem um picadeiro paupérrimo, em que truques banais e figuras grotescas se alternam diante dos olhos assustados de um menino provinciano.

 

Reconstituem também algumas imagens da cidade de Rimini, que mais tarde viriam a ser imortalizadas em Amarcord, a obra-prima do diretor. Fellini recria com realismo o ambiente, os lugares, os personagens daquela pequena cidade italiana dos anos 30, enquanto, no circo, as cenas mais implausíveis e as enganações mais baratas se sucedem pateticamente.

 

No circo, um falso Tarzã agarra bufando um canhão de papel cinzento, enquanto “lá fora”, no filme, uma cidade real, com sua estação de trem, seus cafés e calçadas é mostrada de modo persuasivo para o espectador. Mas é claro que a Rimini de 1930 não existe mais e que o filme nos engana com seu realismo.

 

À primeira vista, assim, toda a nostalgia de Fellini com relação ao mundo do circo seria um tanto contraditória: lamentando a morte das formas ingênuas de espetáculo, Os Palhaços estaria também contribuindo para enterrá-las. O cinema, afinal, constrói ilusões muito melhores, muito mais fantásticas e convincentes. Se há algo de comovente no circo, é porque com o tempo aprendemos a perceber a miséria de seus prodígios.

 

O bonito de Os Palhaços, entretanto, é que o filme inteiro vai minando essa conclusão. Fellini transforma o seu documentário numa vingança do circo contra o cinema, denunciando todos os truques “realistas” da linguagem cinematográfica.

 

O filme se apresenta como um documentário, com o próprio Fellini entrevistando palhaços e especialistas na história do circo. No estilo que, hoje em dia, nos acostumamos a ver nos documentários de Eduardo Coutinho, a equipe de filmagem do diretor aparece explicitamente em cena, insistindo o tempo todo em que, naquele filme, não há ilusão nenhuma, tudo é real, e, portanto, o mundo das ilusões “autênticas” será ainda e sempre o circo.

 

Mas isso também é falso. Numa outra reviravolta, Fellini deixa entrever que aquela equipe de filmagem, o cameraman, o sonoplasta, até a secretária da produção, nenhum deles é de fato profissional do ramo. Encarregada de datilografar um texto, a secretária rasga o papel; um ajudante gordo dá topadas em todo lugar; o sonoplasta tem uma cara esquisitíssima; as próprias lentes da câmera, filmadas de perto por Fellini, mostram-se feitas de celofane…

 

Sim, aquilo tudo é uma vasta palhaçada – e o espectador, que se comovia diante da primária e pungente farsa dos cirquinhos de província, não mais capazes de enganar ninguém, termina vendo que foi enganado o tempo todo por artistas de circo “reais”.

 

O que era uma elegia sobre o circo se transforma, então, em apoteose, num daqueles finais triunfantes que Fellini gosta de fazer. Mas um momento. O filme ainda não acabou. Uma vitória do circo sobre o cinema seria, ela própria, falsa. As deslumbrantes imagens de um cortejo de palhaços, a princípio fúnebre e, depois, carnavalesco, vão ficando mais frenéticas a cada minuto. A cena se prolonga, vai dando vertigem, os clowns vão caindo de cansaço.

 

Se o filme começava mostrando cenas pungentes, pobres e tristíssimas de um circo mambembe e termina num esplendor de cores, roupas bizarras, marchas frenéticas e serpentinas, nem por isso se deixa de falar da mesma realidade, com a mesma angústia.

 

Quando vemos aqueles palhaços do início trocando marteladas na cabeça, tentando exercer o ofício de carpinteiros, barbeiros e cozinheiros, entregues à mais convulsiva incompetência, é sem dúvida a vida real -o cotidiano do trabalho manual e da violência física- que está sendo retratada no circo.

 

O cinema mais lírico, “poético” e “mágico” costuma ocultar com facilidade coisas desse tipo. Mas Fellini escapa das armadilhas do cinema “de arte”. Pois as cenas mais exaltadas e fantasiosas do final do filme são também marcadas pelo ritmo cansativo, mecânico e escravizante daquelas atividades que os palhaços parodiam. Trabalho e sonho se misturam, miséria e magia se alimentam e se destroem mutuamente.

 

Os Palhaços termina como que pelo esgotamento dos próprios recursos de ilusão e de ironia. E só então, quando ficção e realidade parecem ter rodopiado até morrer, uma perseguindo a outra, o filme subitamente se aquieta e a câmera passeia pela arquibancada escura e vazia. Nesse momento, em que sono, cansaço e noite se abatem sobre a tela, os fantasmas coloridos e irreais do circo podem finalmente aparecer. Só existem, parece dizer Fellini, quando fechamos os olhos.

 

(Texto originalmente publicado em 8 de janeiro de 2003)

 

 

 

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