Liberado no YouTube, filme ‘Brincante’ traz luz a tempos sombrios

 

A necessidade do lúdico nunca foi tão essencial. Não como uma simples fuga de uma realidade que parece querer nos estilhaçar psicologicamente dentro dessa apreensão em torno do nosso futuro, afinal, nenhuma fuga é capaz de nos fazer esquecer o que atualmente nos assombra. Mas, sim, como uma espécie de paliativo. Algo que sirva como um breve momento de alivio diante de tantas más notícias e presságios sombrios a nos ameaçar. Foi com essa sensação de leveza momentânea que revisitei, após seis anos, Brincante: O Filme, obra de Walter Carvalho acerca do projeto cultural liderado pelo multiartista Antonio Nóbrega.

E a impressão de adentrar em uma realidade de leveza que nos tira dessa gravidade da atualidade se confirmou em cada um dos breves 90 minutos do filme, que foi disponibilizado gratuitamente no YouTube, no canal do Instituto Brincante, essa semana. Para acesso direto, basta buscar por Brincante: O Filme.

Outros contornos

A ressignificação que a obra nos traz seis anos depois de seu lançamento comprova a importância da arte popular em tempos nos quais ela é abertamente negada por aqueles que detêm mecanismos políticos de propagação cultural.

O desânimo nesse sentido e a vontade de mergulhar nesse lúdico vêm forte quando lembramos disso.

Quando lembramos que, há poucos anos, havia um Brasil que tinha uma valorização maior destinada ao cinema, à dança, às artes plásticas, ao circo, à música popular, à arte mambembe, ao cordel, à poesia, onde projetos de difusão de tais expressões possuíam um espaço em planejamentos, ao invés de serem esculachados por interesses mesquinhos de projetos pessoais de política. É quando, mesmo sem querer, voltamos ao real.

Tal real, repleto de tempos acelerados, regidos por uma necessidade estranha de constantes conexões virtuais, nos afasta da introspecção necessária à reflexão. “Escutai com silêncio e atenção o momento imortal da criação. É o mundo que recomeça agora”, afirma Tonheta, personagem de Antonio Nóbrega logo nos minutos iniciais de Brincante.

É quando saímos da constante pressa desse mundo, no qual telas de celular e metas de “likes” se tornam obsessões. Em Brincante somos levados a um mundo de desaceleração e apreciação. A dança, a música e os sorrisos adentram a grande metrópole, que rima com a simplicidade das pequenas cidades. “As redes sociais tomam um tempo bastante grande nosso. Às vezes desmensurado. E nós ficamos até um pouco atônitos, sem saber como responder a elas. Há momentos em que pensamos em negá-las completamente. Isso ocorre muitas vezes quando estamos sendo excessivamente requisitados”, opina Antonio Nóbrega.

Tal busca por uma menor velocidade no absorver de informações precisa chegar a adultos e crianças. Estas, sim, ainda sem a consciência do que é um tempo menos frenético, capaz de ser encontrado em expressões artísticas, requerem um atenção maior.

“A gente quer restituir à criança uma cultura que seja mais compatível com a sua idade física e com a sua idade mental. É provável que o uso do celular traga ganhos em algum sentido. Mas é também muito provável que ele traga perdas. E essa equalização é que consiste na luta que todos nós temos de tentar empreender para ver como colocamos tudo isso nas nossas vidas de uma forma menos agressiva e menos dominadora”, explica Antonio Nóbrega.

Projetos brincantes

Além do filme já disponibilizado no canal do Brincante no YouTube, a partir de amanhã, dia 20, e seguindo até o dia 29, sempre às 19h, um total de 40 aulas de música, dança e poesia serão disponibilizadas no mesmo canal. No site do instituto (institutobrincante.org.br), contribuições voluntárias podem ser feitas para ajudar na manutenção do local, atualmente fechado por conta da pandemia.

“Nós nos dedicamos principalmente ao ensino da percussão, da música e da dança brasileira. Sobretudo aquelas ligadas ao universo chamado de cultura popular, que é muito rico em representações simbólicas. Matrizes culturais, sejam em relação à música, à dança e à poesia. Vamos aproveitar esse período para mostrar como é que a gente trabalha esse universo. Como é que a gente dinamiza, recria e potencializa. Temos um elenco bastante grande, heterogêneo de professores. E cada um deles vai mostrar um pouco do que faz em sala de aula, as suas atividades com os alunos dentro do Instituto Brincante. Essa é a filosofia desse evento”, pontua Antonio Nóbrega.

Em uma atualidade na qual pretensamente poderosos e com exércitos de ignorantes ao seu redor se declaram abertamente contra a cultura e a arte, esse tipo de iniciativa representa um alento para a angústia que se faz presente em uma realidade de incertezas. Principalmente para a identidade cultural do Brasil.

“Esses cantos, esses toques e essas danças são as pedras do meu céu e as estrelas do meu chão. Com eles, soletro, penso e esperanço meu sonho humano. Com eles aprendi a amar o meu país e o seu povo”, ouvimos Antonio Nóbrega dizer ao final de Brincante: O Filme.

E a vontade de esquecer a realidade que nos cerca só cresce. Mas esquecer não é abandoná-la. Sigamos resistindo.

João Paulo Barreto | Crítico de cinema

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