Construção 50 anos: o mundo do trabalho na obra de Chico Buarque

 

Cinquenta anos depois e Construção continua um protesto contra as desigualdades, contra a exploração de quem vive do trabalho, contra a desumanidade do capital destruidor de vidas e de sonhos.

Mais do que celebrar a efeméride dos 50 anos de Construção, de Chico Buarque, considerado como um dos mais importantes álbuns da música popular brasileira, é necessário refletir sobre o papel que a arte tem na transformação do mundo.

Que Chico Buarque é um dos mais importantes autores da MPB e da literatura brasileira não há a menor dúvida. Por isso, ao celebrar os 50 anos desse álbum essencial para a MPB, Chico Buarque poderia bem receber o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. Assim como Bob Dylan merecidamente se tornou o primeiro compositor a receber o Nobel de Literatura de 2016, Chico possui centenas de poesias musicadas, dramaturgia e romances publicados que fazem jus ao prêmio.

Mas afinal, por que comemorar os 50 anos do álbum Construção? Porque as suas dez faixas reúnem toda a diversidade da música popular brasileira, com arranjos do tropicalista Rogério Duprat (1932-2006) e Magro (Antônio José Waghabi Filho, 1943-2012), do MPB4. O disco vislumbrou a maturidade e os novos caminhos de Chico Buarque, então com apenas 27 anos.

Construção

Chico havia acabado de retornar ao Brasil após 14 meses de exílio forçado na Itália e seguiu o conselho de Vinicius de Moraes (1913-1980) de voltar fazendo barulho. Gravou um compacto (disco de vinil com uma música de cada lado) – ainda não existia CD e muito menos plataformas online para lançamento de músicas, nem streamings, não havia internet.

Um dos lados desse compacto apresentou a histórica Apesar de Você, um canto contra toda a opressão do mundo, seja em épocas de ditadura explícita ou contra os tempos sombrios vivenciados atualmente, onde tentam a todo custo podar a força da classe trabalhadora e de todos os anseios por mudanças.

Aliás, a música Construção, fora os versos dodecassílabos (com 12 sílabas poéticas) com todos os versos terminados em proparoxítonas, as palavras mais raras da nossa língua, é uma pintura, que poderia virar filme. Tudo para dar caráter nobre à vida de um trabalhador oprimido pela ditadura fascista e pelo capital. Por tudo isso, a revista Rolling Stone elegeu Construção a melhor música brasileira já feita no país, em 2009.

Certamente a canção emblemática deve constar de todos os catálogos de melhores canções da MPB. Mas certamente Chico não parou no tempo e conta com canções tão boas quanto e até mais refinadas poética e melodicamente, como uma ordem natural das coisas de evolução com a maturidade. E o trabalhador “morreu na contramão atrapalhando o sábado” dos transeuntes desavisados.

Além de Construção a música incidental Deus Lhe Pague também se tornou um grande protesto. “Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir/A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir/Por me deixar respirar, por me deixar existir/Deus lhe pague”, versos extremamente atuais. Aliás todas as faixas foram sucesso, merecidamente. Nos tempos mais duros da ditadura.

Também compõem o LP (disco de vinil com várias canções, variando em geral, de 10 a 12 faixas).  CotidianoDesalento (em parceria com Vinicius de Moraes), CordãoOlha Maria (parceria com Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Samba de Orly (com Toquinho e Vinicius de Moraes), Valsinha (com Vinicius), Minha História (versão de música de Lucio Dalla e Paola Pallotino) e Acalanto.

Chico Buarque se firmava como uma das mais importantes vozes contra a ditadura (1964-1985) ao mesmo tempo como um dos mais importantes compositores do país. Posteriormente se transformaria também num dos nossos grandes escritores.

Deus Lhe Pague; cantada pelos Paralamas do Sucesso

A sua visão de como deve ser a arte e o artista está sintetizada numa parte da entrevista concedida ao jornalista Geraldo Leite em 1989 sobre a música Construção.

Ele diz que “se eu vivesse numa torre de marfim, isolado, talvez saísse um jogo de palavras com algo etéreo no meio, a Patagônia, talvez, que não tem nada a ver com nada. Em resumo, eu não colocaria na letra um ser humano. Mas eu não vivo isolado. Gosto de entrar no botequim, jogar sinuca, ouvir conversa de rua, ir ao futebol. Tudo entra na cabeça em tumulto e sai em silêncio. Porém, resultado de uma vivência não solitária, que contrabalança o jogo mental e garante o pé no chão. A vivência dá a carga oposta à solidão, e vem da solidariedade — é o conteúdo social”.

Acalanto

Cinquenta anos depois e Construção continua um protesto contra as desigualdades, contra a exploração de quem vive do trabalho, contra a desumanidade do capital destruidor de vidas e de sonhos. Chico Buarque tem uma obra com parte dela centrada no trabalho como motor da vida, da mudança e na construção de um mundo onde prevaleça o respeito e a dignidade.

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