Com a PEC 241, incêndio do Museu Nacional foi tragédia anunciada

O incêndio do Museu Nacional é uma tragédia cultural, de enormes proporções, para o Brasil e para a humanidade. Comparável ao incêndio da Biblioteca de Alexandria, à destruição da cidade de Pompéia, à explosão dos Budas de Mianmar pelos Talibãs no Afeganistão.

 

Por Jandira Feghali e Alexandre Santini*

Tania Rego / Agência Brasil “O Brasil, como uma fênix, precisará renascer das cinzas” “O Brasil, como uma fênix, precisará renascer das cinzas”

Mais que um Museu, é parte da história brasileira, do império à república, que se esvai ardendo em chamas. Além da história do Brasil, foram destruídos patrimônios que remontam à história do mundo, antes mesmo da própria existência do ser humano. A coleção de paleontologia, com os Dinossauros que permearam a imaginação de gerações de crianças. As múmias egípcias, o acervo de arte africana doado pelo Rei do Daomé, todo o acervo de arte indígena, o fóssil de Luzia, nossa ancestral de 12 mil anos, são apenas alguns exemplos desta perda irreparável, desta ferida profunda que se abre em nossa história e em nossa memória com este trágico acontecimento de proporções irreparáveis.

 

Devemos lembrar que no Museu Nacional funcionava parte importante do trabalho de ensino e pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ali até ontem eram formados e trabalhavam antropólogos, museólogos, restauradores, arquivistas, pesquisadores. Não é só o passado, portanto, que se perde. O futuro também fica seriamente comprometido, em um momento que o país atravessa uma profunda crise, com o sucateamento do Estado, e dos serviços públicos essenciais. Não há como não associar esta tragédia ao golpe em curso contra o povo brasileiro. Trata-se de um incêndio criminoso, e como tal cabe apurar responsabilidades, apontando seus mandantes, co-autores e cúmplices.

 

Em todo o mundo, instituições como o Museu Nacional não só são sustentáveis, como também lucrativos. O Museu de História Natural de Nova York, os Museus do Ouro da Colômbia e do Peru, o Louvre, o Hermitage, o complexo museológico do Vaticano, são parte do “soft power” e das estratégias de desenvolvimento de seus países, fomentam a economia, o turismo, formam profissionais, empregam mão de obra especializada, geram trabalho e renda, são parte do orgulho nacional. É vergonhoso constatar que, até abril deste ano, um Museu dessa importância tenha recebido irrisórios 54 mil reais para o desenvolvimento de suas atividades, e que seus funcionários tinham que fazer vaquinha para comprar café e produtos de limpeza.

 

Assistimos, estarrecidos, à entrevista do Ministro da Cultura do governo golpista de Michel Temer, que ao vivo em rede nacional, diante da imagem do museu em chamas, tentou politizar a tragédia, e ainda se eximir de responsabilidade, declarando que o Museu Nacional era gerido pela UFRJ, e não pelo MinC. Ora, a quem cabe a gestão da política nacional de patrimônio artístico e histórico do Brasil, se não ao Ministério da Cultura?

 

Sabemos que o problema da falta de investimentos em nossa cultura e patrimônio não é de hoje. Há tempos temos chamado atenção para a necessidade de colocar as políticas culturais na centralidade de um projeto de desenvolvimento para o país. Mas é necessário reconhecer que, no governo Lula, junto a toda uma nova concepção de política cultural construída a partir da gestão de Gilberto Gil, a política de patrimônio museal ganhou novo impulso com a criação do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), da Política Nacional de Museus, do Estatuto dos Museus e de 14 novos cursos de Museologia nas universidades públicas.

 

Trata-se de tragédia anunciada, em um governo que aprova a PEC do teto de gastos, que cortou mais de 60% do orçamento de manutenção nas universidades públicas, que eliminou qualquer investimento em educação, ciência e cultura. O Museu Nacional em chamas é o símbolo da dilapidação do país, de seu patrimônio, memória, e inteligência. Não é fato isolado. A destruição do Museu Nacional é expressão de um projeto orientado para a destruição do Brasil, que se reflete na precarização dos serviços públicos, da explosão do desemprego e da fome, da volta de doenças já erradicadas, da explosão do desemprego e da violência. As chamas são uma trágica evocação das consequências sombrias do golpe para o futuro do Brasil.

 

O cenário da manhã desta segunda-feira de cinzas, em frente ao Museu Nacional, era a visão de um velório. O choro, a tristeza e a revolta dos servidores públicos, estudantes, técnico-administrativos, funcionários terceirizados da segurança e da limpeza, pessoas que dedicaram anos de sua vida àquele lugar. O Museu Nacional é aquele que boa parte toda a população fluminense visitou em sua infância, ou levou seus filhos para visitar, pela facilidade do acesso, pela localização privilegiada em um dos nossos maiores e melhores parques públicos, pela proximidade com o Jardim Zoológico. Aos trabalhadores e trabalhadoras do Museu Nacional e da UFRJ, todo o nosso apoio e solidariedade.

 

O Brasil, como uma fênix, precisará renascer das cinzas. Essa é a batalha diária que precisaremos enfrentar, a partir de agora, todas as horas do dia, para interromper a destruição de nosso país. O Brasil, que na última década se afirmava como uma esperança para o mundo, hoje emite sinais diários de degradação política e institucional. “Nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer” dizia o filósofo alemão Walter Benjamin, em seu célebre ensaio “Sobre o conceito de história”. O Museu Nacional em chamas é o alerta máximo de que é preciso salvar o Brasil, devolvendo ao povo nosso passado e nosso futuro, hoje sequestrados por um consórcio de oportunistas, bandoleiros e saqueadores do patrimônio público.

 

*Jandira Feghali é deputada federal pelo PCdoB-RJ e Alexandre Santini é diretor do Teatro Popular de Niterói Oscar Niemeyer

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