Capela da Cascatinha

“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa uma boa média que não seja requentada. Um pão bem quente com manteiga à beça, guardanapo. Um copo dágua bem gelada.

Feche a porta da direita com muito cuidado, que eu não estou disposto a ficar exposto ao Sol.

Vá perguntar ao seu freguês do lado qual foi o resultado do futebol.” (Noel Rosa)… Nada melhor que o velho Noel para dar início a nossa prosa. Eu, na verdade, comecei a beber em casa. Meu pai bebia muito. Aprendi a beber com ele. Pausa. (Antes de continuar este texto, no entanto, preciso dizer que não se trata de uma apologia ao consumo de álcool. Trata-se de um conto da minha história).

Eu já havia decidido, na quinta-feira acordei cedo, pus Mauricio no carro – seu filho a tiracolo e tomamos o rumo de Curitiba. Junto estava seu genro, rapaz magro, falador e gremista. A amizade verdadeira é aquela você sabe que pode contar com o amigo.

 

Tinha um porquê. Para além da graça e necessidade de levá-lo (Mauricio) para resolver pendengas no banco, eu queria passar no Mercado Municipal e comprar algumas frutas e frutos como amêndoas, nozes, castanha-do-pará, avelã e castanha-de-caju. Estes pequenos alimentos tem uma ligação muito forte e particular com o solstício de inverno da antiga Roma, e continuam sendo habituais durante as celebrações de fim de ano, que aqui no Brasil ocorrem em pleno verão.

Depois de um vai aqui vai ali, acertadas as contas com o gerente do banco, Mauricio resolve me levar até o tradicional bairro da Cascatinha, em Santa Felicidade. Já no final de tarde.

Há poucas coisas mais brasileiras do que os botequins, ou como são mais comumente conhecidos, os botecos. Os ingleses têm seus pubs duvidosos, os franceses seus cafés imundos e os americanos os seus dives. Mas nenhum deles se equivale aos nossos bons e velhos botecos. Porem aviso: Para um bar se tornar um boteco de respeito, são anos e anos de resistência, dedicação e preguiça. E lembrar que todas as lutas, derrotas, conquistas sociais, políticas, econômicas e culturais foram umedecidas pela boa cerveja gelada de um botequim.

Chegamos num recanto bucólico e aconchegante, numa subida cercada de coqueiros, cedros e azaleas. Em uma pequena elevação, com uma bela vista para a rua Manoel Ribas. Era a Capela São Judas Tadeu. Estranhei que tenha sido levado a uma igreja.

A capela existe desde 1956, quando em julho daquele ano, o Sr. Pedro Trevisan, morador do bairro, manifestou ao então pároco de Santa Felicidade, padre Maximiliano Sanavio, a ideia de se construir uma pequena igreja no lugar.

Fiquei sabendo e, conto aqui, que toda a comunidade do bairro, e também de Santa Felicidade, movimentaram-se para dar início à construção. Todos ajudaram com o que dispunham, com a maior boa vontade, muitos doando pinheiros para fazer o vigamento. Igreja toda de madeira. A capela mantém a mesma aparência original, desde que foi construída, graças à cuidadosa manutenção.

Se você está lendo isso aqui, provavelmente está se perguntando: sim, mas o que tem haver capela com boteco?

Subido por uma estrada que serpenteia a capela, assim como uma trilha cercada de flores, arvores e muito verde, e nesse caso poderia se usar – defrontar-se, descobrir, encontrar, esbarrar, topar, sinônimos de deparar com um “boteco”. Mas não qualquer boteco. Um “santo Boteco”. Com uma obra acoplada as benfeitorias da capela. Com cancha de esporte e bocha que servem como ponto de encontro de lazer para os “nonos” do bairro, que se reúnem todo final de semana para jogar tradicionais jogos de cartas de herança italiana, como o “cinqüilio”, o “treis-sete”, o “truco” e onde trimestralmente são promovidos os “almoços italianos”. O bar funciona todos os dias e no vasto gênero de bares, pubs, tabernas e casas noturnas, esse tem sua particularidade. No começo de cada fim de tarde chegam seus frequentadores, todos moradores na região, médicos, advogados, aposentados, funcionários públicos, vendedores, prestadores de serviços etc… Mauricio também não conhecia o lugar que lhe foi indicado por seu barbeiro, também frequentador.

Não é possível conceber um boteco da noite para o dia. É necessário frequentar regularmente e para um bar se tornar um boteco de respeito, repito, são anos e anos de resistência, dedicação.

Estranhos no lugar, chegamos com aquele sorriso simpático de quem acha ser uma boa maneira de ser bem recebido. Ali nem todos eram exploradores como nós. Não importa quem você seja, os relacionamentos são fundamentais para a sua existência como seres humanos. Não são os bares bonitos que marcam nossas vidas, mas sim as pessoas que ali se encontram que têm o dom de jamais serem esquecidas!

A função social do bar é justamente liberar os espíritos e fazer aflorar as identidades a fim de facilitar a conversa. Lá chegando havia alguns habitues, e foi justamente na chegada que deparamos com algo diferente. Inusitado. Não havia garçom como na música de Noel. Não havia nem o dono do bar que teria ido pescar deixando a chave do estabelecimento a um dos frequentadores.

Muitos homens ali, e nenhuma mulher. Todos já com quarenta anos adiante, enchendo seus copos com bebidas e conversando entre si coisas que só eles sabiam.

Um deles, o mais falador e simpático, apontou uma geladeira e disse: pode abrir e buscar a cerveja de sua preferência. Aqui no balcão tem alguns tira-gosto e é só pegar. No final vocês acertam o pagamento. E então olhou para o horizonte, tirou o cigarro da boca e disse – arrumem uma mesa e fique à vontade. A casa é de vocês.

A vida bem que poderia ser como aquele momento em um bar de bairro qualquer num fim de tarde. Você pede, usufrui, saboreia, filosofa asneiras com o amigo na mesa de bar e depois vai embora, sem deixar de pagar a conta, mesmo que o dono do botequim tenha ido pescar e deixado a porta do estabelecimento aberta aos amigos tantos, até porque gastar o tempo reclamando da vida é pior que gastar o tempo bebendo.

Depois de pagar a conta, antes de sairmos o sujeito falador e simpático tascou uma frase que marcou:

– Quando vierem aqui de volta, digam em casa que irão na Capela da Cascatinha. A família ficará feliz!

 

Cláudio Ribeiro

Compositor – Jornalista

 

PS – Endereço: R. Ângelo Trevisan – Cascatinha, Curitiba.

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