Caco Barcellos: Da Vala de Perus aos pobres mortos pela PM na pandemia

 

A editora Alameda e o Instituto Vladimir Herzog lançam, nesta semana, Vala de Perus – Uma Biografia, do jornalista Camilo Vannuchi, com prefácio do também jornalista Caco Barcellos.

“Ao longo de 21 anos, a ditadura militar matou mais de 400 opositores – 434 mortos e desaparecidos políticos segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade”, escreve Barcellos. “Pois neste ano de 2020, em plena pandemia, a Polícia Militar de São Paulo matou mais de 500 pessoas apenas no primeiro semestre. No ano passado, só a Polícia Militar do Rio de Janeiro matou quase 2 mil pessoas.”

Leia abaixo o prefácio de Vala de Perus – Uma Biografia.

Comecei a investigar a vala de Perus no dia em que encontrei uma pista no meio de milhares de papéis envelhecidos, sujos de sangue, amontoados numa grande sala do Instituto Médico Legal de São Paulo. Eu estava pesquisando aqueles arquivos com o propósito de identificar todas as pessoas mortas pelas PMs ao longo de toda a sua história, sobretudo as execuções decorrentes das ações da Rota, uma tropa de elite da PM paulista criada em 1970 como força auxiliar de oficiais do Exército, alguns deles envolvidos em episódios de tortura e morte de opositores da ditadura militar.

Uma das coisas que encontrei ali foram os exames necroscópicos. Um indivíduo, quando morre por causa violenta, passa por um exame e é feito um laudo que recebe a assinatura de um médico legista. Observei que, de 1970 a 1972, em alguns desses laudos, os médicos haviam feito uma marca, uma letra “T” escrita em vermelho. Descobri depois que, para eles, era “T” de “terrorista”. Esses documentos tinham duas coisas em comum: os corpos nunca eram reclamados pelos familiares e seu destino era sempre o Cemitério Dom Bosco, em Perus.

O cemitério de Perus começou a fazer parte do meu roteiro de fim de semana. Eu ia para lá na tentativa de encontrar parentes das vítimas da Rota e, dessa maneira, identificá-las. Com a ajuda de um amigo, um grande pesquisador, Maurício Maia, conseguimos confirmar que esses corpos tinham sido registrados nos livros de entrada do cemitério e, ao lado de cada registro, havia uma anotação com o número da respectiva sepultura. Ao procurar essas ossadas nas covas, elas não estavam mais lá.

O mistério só foi resolvido no dia em que conheci o administrador do cemitério. Toninho Eustáquio é uma pessoa imprescindível, essencial para se conhecer mais a história da repressão política no Brasil. Ele me contou que, em meados da década de 1970, ossadas de aproximadamente 1.500 pessoas tinham sido exumadas de suas sepulturas e colocadas numa grande vala, aberta de forma clandestina.

O cemitério de Perus era também o destino preferencial dos corpos das vítimas da Rota, também enterrados como indigentes, por isso eu ia muito lá. Fizeram uma mistura daquelas ossadas, as dos desaparecidos políticos com as dos mortos da PM, puseram dentro dessa grande vala com outras ossadas, de indigentes, de vítimas dos esquadrões da morte e de pessoas não identificadas, e cobriram. Nunca mais se falou disso.

Perguntei ao Toninho se ele tinha falado sobre essa vala para mais alguém. “Sim, contei para um engenheiro, irmão de um desaparecido político”, ele disse. Fui atrás, localizei o engenheiro Gilberto Molina, irmão de Flávio Molina, e o entrevistei no Rio de Janeiro. Molina repetiu o relato do Toninho. Emocionado, disse mais:

“Caco, eu pedi para ver o conteúdo da vala e o Toninho escavou alguns metros até encontrar os primeiros sacos com ossos”, relatou. “Constatei que, onde deveria haver uma pequena ficha com o nome do cadáver ou o número de identificação de desconhecido, esse pedaço de papel havia sido comido pelo tempo. Já não havia mais como identificar o irmão que eu tanto procurava”.

Bastante emocionado, Molina teria pedido para que Toninho devolvesse os sacos e fechasse aquele buraco novamente.

Para mim, ficou a certeza de que a vala existia. Era uma vala clandestina, não estava em nenhum mapa do cemitério ou da Prefeitura. Ela era clandestina e precisava ser aberta. A sociedade precisava saber disso.

As primeiras pessoas que eu procurei, naturalmente, foram os membros da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, e foi assim que eu conheci a Suzana Lisbôa, que teve uma participação fundamental no processo de abertura e revelação pública da vala, em 4 de setembro de 1990, e em tudo o que aconteceu depois.

Este livro, escrito pelo jornalista Camilo Vannuchi, narra em detalhes a descoberta da vala de Perus, 30 anos atrás. E também os 50 anos compreendidos entre a construção do Cemitério Dom Bosco, em 1970, e a recente retomada das análises das ossadas em busca de identificação, trabalho que prossegue em 2020, na Unifesp.

Para mim, o que fica dessa história é que ela continua. Passados 30 anos, ela está mais viva ainda, nunca deixou de estar viva.

Ao longo de 21 anos, a ditadura militar matou mais de 400 opositores – 434 mortos e desaparecidos políticos segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Nunca vamos nos esquecer disso. Pois neste ano de 2020, em plena pandemia, a Polícia Militar de São Paulo matou mais de 500 pessoas apenas no primeiro semestre. No ano passado, só a Polícia Militar do Rio de Janeiro matou quase 2 mil pessoas.

A maior diferença está no perfil das vítimas. No passado, os mortos e desaparecidos políticos – categoria que considera somente as vítimas que exerciam alguma atividade de resistência ou oposição à ditadura – eram majoritariamente jovens brancos, de todas as classes sociais, muitos deles estudantes. Hoje, a história se repete. As vítimas são novamente jovens, mas a maioria formada por negros, e todos, absolutamente todos, filhos de trabalhadores de baixa renda. São unidades matadoras de pessoas pobres, que têm as suas histórias sempre desqualificadas moralmente, apresentadas como bandidos.

Temos muito ainda que trabalhar.

Publicado originalmente no Balaio do Kotscho (UOL)

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