55 anos do Golpe: dois filmes para entender o legado de Jango

Na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, um golpe de Estado liderado pelas Forças Armadas derrubou o presidente João Goulart, o Jango, e instalou uma criminosa ditadura militar no Brasil. Jango partiu para o exílio, vindo a morrer na Argentina em dezembro de 1976. Sua história e seu legado foram temas dos documentários Jango (1984), de Sílvio Tendler, e Dossiê Jango (2013), de Paulo Henrique Fontenelle.

O ex-presidente João Goulart, personagem de dois documentários: “Mesmo morto, Jango incomodava. E, pelo visto, ainda incomoda”  O ex-presidente João Goulart, personagem de dois documentários: “Mesmo morto, Jango incomodava. E, pelo visto, ainda incomoda”

A jornalista Carolina Maria Ruy, autora do livro O Mundo do Trabalho no Cinema (2015) e coordenadora do Centro de Memória Sindical, escreveu sobre esses dois filmes. Nos 55 anos do Golpe de 64, o Prosa, Poesia e Arte publica abaixo as duas críticas e celebra a memória do presidente João Goulart.

 

I

JANGO

 

Um primoroso e melancólico documento sobre a História do Brasil

 

 

Jango conta a trajetória política de João Belchior Marques Goulart, o 24° presidente brasileiro, deposto pelo golpe militar em 1º de abril de 1964. O documentário captura a efervescência da política brasileira durante a década de 1960 e narra os detalhes do golpe.

 

Produzido em 1984, último ano da ditadura militar, o documentário não conta com diversos fatos que foram descobertos desde então, sobretudo os que envolvem a misteriosa morte do ex-presidente. Gaúcho de São Borja (RS), nascido em 1º de março de 1919, filho de um estancieiro e coronel da Guarda Nacional e de uma dona-de-casa, Jango, como era conhecido, ingressou na carreira política em 1945, por influência de um ilustre amigo da família: Getúlio Vargas.

 

Dali para que ele se tornasse ministro do Trabalho foram oito anos. De orientação progressista, o nome de Goulart no Ministério ajudava Vargas a lidar com os trabalhadores que, desde a posse de Getúlio Vargas, em 1950, manifestavam-se contra o alto custo de vida.

 

Como ministro, Jango tomaria uma medida radical que custaria seu cargo: em janeiro de 1954 enfrentou a pressão dos trabalhadores por um reajuste salarial de 100%, e também a rejeição dos empresários. Como o desfecho foram os 100% pleiteados pela classe trabalhadora, Jango sofreu uma forte pressão dos empresários e da imprensa, o que o levou a renunciar ao cargo.

 

Em 1955 Goulart foi eleito vice-presidente do Brasil, na chapa PTB/PSD, tendo obtido mais votos que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek (naquela época, as votações para presidente e vice eram separadas). Na eleição de 1960 ele foi novamente eleito vice-presidente, concorrendo pela chapa que fazia oposição ao eleito, Jânio Quadros.

 

Só que o Brasil não esperava que o excêntrico Jânio Quadros, pouco tempo depois de assumir a Presidência, renunciasse ao cargo, em agosto de 1961, o que abriu uma das maiores crises políticas de nossa história quando os ministros militares, contrariando a Constituição, vetaram a posse de Jango na Presidência. Diziam que ele encarnava a ameaça comunista.

 

Começou então, liderada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, a Campanha da Legalidade. Brizola, que mobilizou uma cadeia de mais de cem emissoras de rádio para conclamar o povo a sair às ruas em defesa daquilo que estava previsto na Constituição: a posse de Jango.

 

A crise foi contornada pela adoção do parlamentarismo, com parte do poder presidencial deslocada para um primeiro-ministro. Desta forma Jango assumiu a Presidência em 8 de setembro de 1961, sendo Tancredo Neves seu primeiro-ministro.

 

Desde o início Jango teve uma atuação peculiar. Sua inclinação progressista acirrava a efervescência política e cultural vivida no Brasil nos primeiros anos da década de 1960.

 

No famoso Comício da Central do Brasil, no dia 13 de março de 1964, realizado em frente ao Edifício Central do Brasil, no Rio de Janeiro, cerca de 150 mil pessoas ouviram o presidente anunciar uma série de medidas, que instituiriam as reformas de base.

 

Mas, se por um lado os movimentos sociais e os partidos de esquerda se fortaleciam, por outro, a direita se organizava. E a ultraconservadora Marcha da Família com Deus pela Liberdade tomou as ruas, em 19 de março, manifestando-se contra o governo de Jango. Naqueles dias ocorreu também a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais no Rio (28 de março de 1964). Incentivados pelo filme soviético O Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein (1925), aqueles trabalhadores lutaram contra os baixos salários e as más condições de trabalho, transformando tais reivindicações trabalhistas em um autêntico ato político.

 

A assembleia foi chefiada por José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo, que era (descobriu-se depois) um agente policial infiltrado no movimento social. O fato de Goulart ter se recusado a punir os insubmissos, provocou a indignação dos oficiais da Marinha.

 

Em 30 de março, em discurso na festa promovida pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar, no Automóvel Clube do Brasil, Jango denunciou a existência de uma forte campanha contra seu governo.

 

Isto era um fato concreto. Na madrugada do dia seguinte, o general Olímpio Mourão Filho iniciou a movimentação de tropas de Juiz de Fora (Minas Gerais) em direção ao Rio de Janeiro. Foi o início do golpe que derrubou o governo de João Goulart. Leonel Brizola ainda sugeriu que Jango resistisse, mas ele não acatou, para evitar “derramamento de sangue” (uma guerra civil).

 

João Goulart teve seus direitos políticos cassados após a publicação do Ato Institucional Nº Um (AI-1). Exilado no Uruguai e, mais tarde, na Argentina, onde faleceu em 1976, Jango só voltou para o Brasil em seu funeral. Aclamado pelo povo, seu caixão foi carregado por milhares de pessoas já cansadas do regime repressivo submisso ao FMI dos ditadores.

 

O filme Jango relata, através de depoimentos e de documentos históricos, como vídeos, áudios e fotos, as atrocidades cometidas pela ditadura até o ano de 1976. Com as informações que poderiam ser obtidas naquela época, o filme é um primoroso e melancólico documento sobre a história do Brasil. Mas o tempo nos mostrou que a ditadura militar, além de anos de chumbo, representou anos de segredos de Estado. E ainda há muito a ser revelado sobre esta história.

 

II

DOSSIÊ JANGO

 

Debates e dúvidas sobre a História do Brasil

 

 

Dossiê Jango levanta as polêmicas envolvendo a morte do ex-presidente João Goulart e questiona a postura dos governos brasileiros – de 1985 a 2013 –, que não se preocuparam em reaver esta história e honrar o presidente morto ainda no exílio (impedido de voltar ao Brasil).

 

O filme passa rapidamente pela trajetória política do ex-presidente, mas não se debruça sobre ela como fez Jango, de Silvio Tendler. O foco de Dossiê Jango é o obscurantismo que cerca a morte de João Goulart, em 1976, na Argentina.

 

A sequência de mortes e perseguições políticas no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, no contexto da chamada Operação Condor, instituída pelas ditaduras do chamado Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile e Uruguai), com apoio do governo dos Estados Unidos da América, confere a perspectiva internacional da história.

 

Nesta linha, o roteiro vai além do senso comum em termos de ditadura militar. Logo no início, a frase provocadora intriga o espectador: “Tudo que pensamos ser verdade um dia muda”. Ele mostra com argumentos lógicos e documentados a articulação entre as ditaduras latino-americanas, fortemente apoiadas e patrocinadas pelo governo estadunidense – que, no contexto da Guerra Fria, visava cooptar territórios políticos, mantendo-os nos arreios de sua ideologia capitalista.

 

Gravações em áudio do embaixador Lincoln Gordon e do ex-presidente americano John Kennedy, exibidas no filme, comprovam a preocupação dos Estados Unidos com o momento político do País. Em outra passagem, o também ex-presidente Lyndon Johnson revela que seria possível agir no Brasil para instituir a ditadura e assegurar o afastamento de Jango.

 

Mas o mais interessante é que Dossiê Jango defende que esta não é uma situação que ficou no passado, superada pelo fim da ordem mundial bipolar e pela redemocratização brasileira. Com a afirmação “àqueles que pensam que derrotaram Jango, nós estamos debatendo Jango até hoje”, João Vicente Goulart, o filho do ex-presidente, ilustra como esta é uma ferida aberta na nossa história.

 

Jango era temido pela elite e pelo regime militar devido às suas ideias progressistas e, sobretudo, à sua grande aceitação popular. Por isto, sua trajetória na política sempre foi marcada por boicotes e tentativas de golpes. Mas, mesmo morto, Jango incomodava. E, pelo visto, ainda incomoda.

 

Neste momento em que o governo brasileiro demonstrava uma disposição em “acertar contas com o passado” por meio da criação da Comissão Nacional da Verdade, o filme Dossiê Jango surge como um rico instrumento de debate. Um instrumento que, mais do que esclarecer questões, suscita dúvidas pertinentes e profundas sobre a história do Brasil.

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