‘Macbeth’ a soma de todos os medos de Sérgio Brito

 

 

A montagem da ópera Macbeth, de Giuseppe Verdi, que teve sua estréia esta semana no Theatro Municipal do Rio, dirigida por Sérgio Brito, reúne o melhor das três versões que o autor deu à obra, desde sua estréia, em Milão, em 1847. “Deixei os trechos que ele cortou para a versão que estreou em Paris logo depois e também o balé das bruxas criado para a ocasião”, adianta Brito que, no ano passado, dirigiu O Elixir do Amor, de Donizetti. A mudança da leveza desta para o ambiente opressivo de Macbeth agrada ao diretor. “Adoro textos pesados, me fazem pensar mais. O Elixir é fácil, aqui é difícil chegar ao ponto.”
Macbeth é uma das primeiras óperas de Verdi, composta aos 34 anos. O Rio teve uma das primeiras montagens, em 1852, no Teatro Provisório, por iniciativa de d. Pedro II. É baseada na tragédia de Shakespeare, sobre o casal que destrói tudo e a si mesmo movido pela ambição. Verdi gostava tanto da peça que escreveu o libreto, mas tomou liberdades. “Cortou 11 personagens e resumiu a ação entre o casal e as bruxas que prevêem seu futuro como rei”, adianta Brito. “Pela primeira vez, o protagonista é um barítono (Rodrigo Esteves e Manoel Alvares) porque um tenor não chegaria ao tom sombrio do personagem. E Lady Macbeth (Jeanette Dornellas e Mariana Zvetkova) chega a notas agudíssimas, mas a soprano não pode ter voz muito agradável.”

A recomendação é de Verdi, que pedia aos protagonistas que mais interpretassem que cantassem. Sérgio Brito respeita essa linha, embora faça sua montagem expressionista. Para isso, contribuem os cenários e a luz opressivos de Hélio Eichbauer, quase de filmes de terror. “Dráculas e Frankensteins do cinema americano foram importados do expressionismo alemão. Lá e aqui não imitamos a realidade”, ensina o diretor, que também tomou suas licenças poéticas. “Criamos gárgulas, que são os guardiães do demônio. Eles coroam Macbeth e dançam com as bruxas, vividas por bailarinas daqui. Foi idéia do coreógrafo Fábio de Melo misturar o estilo clássico delas com o afro, popular deles.”

Brito e Eichbauer se conheceram montando Os Veranistas, em 1978, quando o cenógrafo começava e o diretor só tinha a A Traviata no currículo. “Agora, nosso entendimento é perfeito, o que eu imaginava num dia ficava pronto no outro”, conta Sérgio Brito. Não é uma tarefa fácil porque só no palco (sem contar a Sinfônica do Municipal), há 135 pessoas. O diretor, que vem de três espetáculos com pouca gente no palco (o monólogo Sérgio 80 e os dramas americanos Longa Jornada Noite adentro e Pequenas Raposas) redobra a ansiedade anterior à estréia. “Sozinho, chego ao teatro duas horas antes para passar o texto porque dá medo de subir no palco. Numa produção como essa, multiplico esse medo por 135”, afirma. Brito se diz exausto, mas exibe um vigor raro aos 80 anos. “Ópera é muito difícil, muito cansativo, mas eu adoro. Mais que teatro porque sempre foge ao realismo. E aqui realizei tudo que imaginei.”

Author: Redação

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