Design Gráfico 2

Design Gráfico

 

Nota – Este artigo deve ser fundido com: Design gráfico

 

 

 

 

 

Embora a maior parte das pessoas consiga identificar alguns dos casos de design gráfico que surgem na vida quotidiana, ainda se discute o que é exatamente essa disciplina, havendo definições contraditórias, além de opiniões divergentes sobre se o design gráfico é ou não arte.

 

 

Definição de Design de Walter Zanini

A obra “História Geral das Artes no Brasil”, da qual o professor Walter Zanini é o organizador, trata, em seu volume 2, da Comunicação Visual especificamente no Brasil. Sob o título “Pioneiros da Comunicação Visual”, o livro de Zanini busca traçar um rápido apanhado do “surgimento” da comunicação visual e da atividade de design no caso brasileiro. A palavra “surgimento” não usa por acaso: Zanini parece querer dizer que, após a Grande Guerra de 1939-1945, o design apareceu no Brasil, de uma hora para outra.

 

“Somente durante a Segunda Guerra Mundial é que se desenvolve a figura do designer gráfico como um especialista de problemas técnicos da criação dos elementos estruturais do comportamento visual; um profissional que desponta, a partir dos anos 50, após o aparecimento dos grandes conglomerados industriais”.

 

A afirmação de Zanini parece imprecisa, pois leva a crer que não havia design no Brasil no início do século XX. Havia, embora não tão desenvolvido quanto na Europa ou nos EUA, e nem chamado já de “design”. Mas é fato que o trabalho de pioneiros da comunicação visual brasileira, como Aloísio Magalhães e Alexandre Wollner, só “estoura” na década de 1950.

 

Essa década é a mesma do aparecimento da TV e do auge das revistas (principalmente as ilustradas) como meios de comunicação de massa. Para Walter Zanini, é nessa época que o designer “passa a programar os meios de comunicação através da estruturação racional, eficiente, não só da comunicação em si, mas em função do somatório de elementos técnicos, econômicos e materiais – enquanto elementos de identidade visual – ou seja, o profissional a que hoje denominam programador visual ou designer gráfico.”

 

Zanini continua, então, apresentando o que ele considera como “os três perfis” de designers atuantes no mercado:

 

o pintor/desenhista/gravador (metal, madeira e pedra), disponível no mercado como ilustrador de livros, capas de disco etc.;

o artista gráfico, com noções de Arte e conhecedor de princípios técnicos (impressão, tipos, cores etc.), atuante no mercado nas funções mais elevadas, de diretor de arte em publicidade ou em editoras de revista etc.;

o designer gráfico, programador racional dos meios de comunicação visual e da elaboração de programação de identidade visual.”

Um problema que existe (ou resiste) até hoje é a ocupação do mercado de Design por profissionais que não são designers e não possuem formação específica de comunicação visual e que, muitas vezes, simplesmente desprezam essa formação, por considerarem o Design uma simples variação ou extensão de suas próprias profissões. Esse fato pode ser encarado como conseqüência da indefinição de design gráfico e da área de atuação do designer (pois diferentes profissionais ); ou, também, como a própria causa dessa indefinição, pois o processo entra aí em um ciclo vicioso.

 

Um pensamento difundido que colabora com esse desprezo dos profissionais de artes, arquitetura e publicidade para com a formação profissional do designer é a idéia de que “design é arte”. Ora, arte todo mundo faz, seja boa ou ruim. O chamado artista gráfico, quando chamado para atuar em comunicação visual, possivelmente fará trabalhos de arte, mas não Design, se não possuir conhecimentos básicos de Comunicação e como combinar os elementos visuais para realizar essa comunicação. Hoje a mídia chama artistas plásticos de designers, e às vezes vice-e-versa. Isso é apenas um reflexo do papel ainda enevoado – mas necessário – que o designer tem na sociedade.

 

Definição de Design de André Villas-Boas

É essa visão, preconceituosa e “artística” do Design, que André Villas-Boas tenta desmentir. O designer carioca, logo no início do capítulo 00 de seu livro “O Que é [e o que nunca foi] Design Gráfico: The Dub Remix” (que é texto adaptado de seu mestrado em Comunicação), enuncia:

 

“Design gráfico é a área de conhecimento e a prática profissional específicas que tratam da organização formal de elementos visuais – tanto textuais quanto não-textuais – que compõem peças gráficas feitas para reprodução, que são reproduzíveis e que têm um objetivo expressamente comunicacional. Ou seja: foi feito para comunicar; não comunica por acaso ou porque tudo comunica, mas porque este é seu objetivo fundamental.”

 

Esse conceito de design inegavelmente como forma de comunicação difere em ângulo obtuso do conceito de design como arte, sugerido por Walter Zanini. Hoje, quase todos os estudos e conceitos formulados sobre a função do Design convergem no ponto “Design comunica”.

 

Há as correntes que prosseguem reafirmando que o design é uma forma de arte – apesar de inúmeros posicionamentos contra essa idéia –, mas mesmo estas já não podem refutar o caráter intrinsecamente comunicador do design. Marcada esta diferença, nos demais pontos ambos os autores concordam. O designer trabalha combinando diferentes elementos visuais, sejam textos ou imagens; o designer faz produtos para reprodução (o artista produz obras singulares); o designer é um programador racional e seu trabalho tem limitações formais. Assim, tanto Zanini quanto Villas-Boas concordam que o design gráfico é uma prática profissional que vive para o mercado. Já a arte independe do mercado. Isso leva a uma conclusão-síntese: o design, além de ser feito para vender, precisa igualmente se vender para garantir sua fatia no bolo comercial.

 

 

 

 

Conclusão

O Design, passados alguns anos de seu “nascimento” e primeiros passos, viveu uma longa etapa de amadurecimento e hoje, com a aplicação do computador – a ferramenta de produção gráfica mais dinâmica e versátil que o designer já conheceu, depois do lápis –, tem a sua frente um novo leque de opções e possibilidades a serem exploradas. Paralelamente, o Design passa a ser mais solicitado pelo mercado, agora como etapa indispensável em qualquer criação com fim comercial/industrial. Podemos dizer então que o Design está em sua adolescência, a fase de dúvidas e experimentações, em que as transformações repentinas e as exigências cada vez maiores do mundo exterior põem em xeque a sua própria identidade e sua própria visão sobre si mesmo. Ou seja, o Design pubescente entra em “crise de identidade”.

 

Mas há diferenças entre os “gêmeos” design de produto e design gráfico. O design de produto, estranhamente, está mais perto da definição do que o design gráfico. A atividade de desenhar produtos e objetos geralmente não é interferida por arquitetos, engenheiros e outros profissionais de áreas similares. O mesmo não acontece com o design gráfico: diversos profissionais de outros ramos, como já dito antes, se propõem a fazer “Design” – muitas vezes desconhecendo alguns princípios básicos da atividade – e tiram espaço no mercado dos profissionais que possuem formação específica para tal. O fato de o Design ser até hoje uma profissão sem regulamentação no Brasil (e na maior parte do mundo) é sintomático: não se pode exigir que a atividade seja limitada na Lei antes de ser limitada na prática.

 

Interessante é o que se deve notar que, em maior parte dos casos, a visão de Design como “arte” é uma visão externa, ou seja, de profissionais que não são designers, porém artistas ou arquitetos. E, em contraponto, a visão de Design como comunicação é vinda de dentro, do meio profissional de designers e comunicadores visuais. Mas, seja o pesquisador artista, seja o pesquisador comunicador, todos parecem concordar com um ponto: o objetivo de comunicar é caráter inerente da atividade do Design. Design que não comunica não é Design.

 

Numa entrevista à edição de março da revista “Design Gráfico”, voltada especificamente para este mercado, a designer libanesa radicada no Brasil Emilie Chamie afirma, em tom de desabafo: “Nem tudo que está impresso é design. Design tem que ter projeto que respeita uma estrutura do começo ao fim. O simples preenchimento de páginas com imagem e letras não é fazer design gráfico”. Emilie começou a carreira como artista gráfica.

 

Se não há consenso ainda sobre o que é exatamente o Design, há pelo menos consenso de para que é o Design; ele tem o objetivo de fazer comunicação, ele comunica, em sua própria natureza. Essa é a razão de seu ser: o Design (seja lá o que ele for), é feito para comunicar. A tal crise de identidade do Design, ainda que longe de ser resolvida, pelo menos já não o considera um deslocado social, um inútil na comunidade das profissões: ele existe para comunicar através dos elementos visuais.

 

Apenas como epílogo, batamos de novo na tecla “Design é arte?”. Existe, sim, a arte que é feita para comunicar. E o design, vimos, tem essa função inata. Mas a diferença reside num ponto fundamental: o caráter intimista ou social. A arte é uma atividade fundamentalmente individualista, introspectiva, introvertida (de intro, “para dentro” + versus “lado”, voltada para dentro). A comunicação, em oposição, é imprescindivelmente coletiva, pública, extrovertida (voltada para fora). Neste sentido, é teoricamente impossível o Design ser, ao mesmo tempo, comunicação e arte. E, se de fato for, passará a ser visto como algo ainda mais fantástico e fenomenal do que já é.

 

 

 

 

Author: Redação

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