Altamiro Carrilho cobra o direito de ouvir a nossa música no Brasil

 

 

“Ritmos americanos dominam o Brasil”. A opinião é do flautista Altamiro Carrilho, um dos músicos brasileiros mais rtespeitados, com uma enorme trajetória no Brasil e exterior, levando, desde os anos cinquenta, a música brasileira para os cinco continentes, em mais de quarenta países.

Conhecido e aclamado internacionalmente, o flautista Altamiro Carrilho, do alto dos seus setenta e sete anos de idade, e cinqüenta e sete de carreira, com mais de cem discos gravados, em meio a toda dificuldade oferecida pela mídia, continua em pleno vapor, percorrendo o país, juntamente com seu conjunto, formado por Maurício Vale no cavaquinho, Éber no pandeiro e Pedro Bastos no violão de sete cordas, com apresentações de clássicos do choro como Brasileirinho, Rosa, Assanhado e Carinho, e também novos sucessos e criações próprias.

Além disso, acabou de lançar mais um CD, o de número cento e doze, entitulado “Simplesmente Música”, com o repertório, há muito tempo sonhado, reunindo choros de sua autoria e coletâneas de mestres da música universal, em arranjos para conjunto de quatro componentes.

O artista tem preferência por tocar músicas brasileiras e diz, bem humorado, que fugindo disso, costuma tocar Bach, Beethoven, Mozart e outros do gênero. Nascido em dezembro de 1924, em Santo Antônio de Pádua, interior do estado do Rio de Janeiro, numa família de oito irmãos, já apresentava, desde os cinco anos de idade, sua vocação para a música, quando sua brincadeira preferida era tocar as flautinhas de bambu, que ele mesmo fazia.

Na verdade, sua vocação era de família, sendo seus tetravôs, bisavós, avós, tios e primos, por parte de mãe, quase todos músicos e maestros.

Aos onze anos freqüentava assiduamente as apresentações de Dante Santoro e Benedito Lacerda, os maiores flautistas da época, ao mesmo tempo em que ingressava na “Banda Lira de Arion”, tocando Tarol.

No ano seguinte comprou uma flauta de segunda mão e com ela ganhou o primeiro lugar no “Programa de Calouros” de Ary Barroso. Para continuar os seus estudos de música com Joaquim Fernandes, que lhe exerceu grande influência artística, trabalhava durante o dia como farmacêutico.

Mais tarde, aos vinte e oito anos, já comandava o programa “Em Tempo de Música”, na extinta Tv Tupi, com grande audiência e aos trinta anos, conquistou maior fama ao gravar “Rio Antigo”, famoso maxixe de sua autoria, dançado e aplaudido por todo o país.

Há quase sessenta anos Altamiro vem gravando discos ininterruptamente, aparecendo como solista principal em 80% destes e acompanhando artista de renome, desde Francisco Alves e Vicente Celestino, até os novos talentos.

Além dos inúmeros prêmios, entre medalhas, taças e troféus dos mais variados tipos, como o troféu “Villa Lobos, Disco de Ouro e por duas vezes o Prêmio Sharp de Música, Altamiro recebeu, recentemente, a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, sendo o único músico brasileiro a receber este prêmio”.

Ganhando o mundo, o artista percorreu mais de quarenta países, divulgando a música brasileira nos cinco continentes. Na Europa, passou pela Itália, França, Portugal, Alemanha, onde foi aplaudido de pé na exibição do “Concerto de Mozart” e Inglaterra, gravando programas para a BBC e NBC de Londres.

Também foram marcantes suas passagens pelo Líbano e Egito, sendo um dos mais emocionantes momentos de sua carreira, quando tocou para centenas de soldados na faixa militar de Gaza.

Na antiga União Soviética foi aclamado como um dos melhores solistas e considerado pelo maestro Boris Trisno como o “Melhor Solista de Flautim do Mundo”.

No México, tamanho foi o sucesso, que mudou os seus planos e, de uma temporada de vinte dias, acabou ficando um ano inteiro.

Nos Estados Unidos, convidado pelo Cônsul brasileiro em Los Angeles, participou de festejos em homenagem ao Brasil, na Universidade de Tucson.

Com muita coragem para inovar, apresentou em 1976, em Porto Alegre, RS, o Concerto nº 2 em Ré Maior Kv 314 de Mozart, intercalando pequenos trechos dos mais populares músicos, de Pixinguinha a Nazareth. Na ocasião, foi aplaudido de pé, inclusive pelos músicos e maestro Júlio Medaglia, da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.

Este fato foi considerado inédito em apresentações de música erudita, apresentada por grandes orquestras, e teve repercussão internacional.

Em 1992, apresentou o Concerto em Sol de Mozart, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, recebendo elogios por parte da crítica especializada.

Mesmo com tanto sucesso, o artista enfrenta problemas com a falta de espaço na mídia e invasão de rítmos estrangeiros de baixa qualidade.

Apesar de seu trabalho intenso e sucesso total, com casas cheias, Altamiro, bem brasileiro, se queixa de falta de espaço na mídia tomada por rítmos estrangeiros, de baixo nível.

“Temos muita música boa e original, mas também uma grande invasão estrangeira em nosso país, que é assimilada com facilidade pelas gravadoras, que as divulga, ainda que ruins, mais que a música nacional”, afirma.

Para ele, isso acontece por causa do jabá, nome dado a música que é paga para tocar. São maus brasileiros, que por alguns dólares, se vendem e com isso causam danos para o povo brasileiro, que fica privado da boa música.

“Essa é uma barganha terrível, um verdadeiro crime, por causa do dinheiro, mola mestra no mundo capitalista. Música é cultura e muitas vezes se conhece um país pela sua música. O brasileiro é um povo com características fortes, sendo o Brasil, o único país possuidor de mais de trinta rítmos distintos, não valorizados pela mídia”, esclarece.

“Nós temos as músicas mais bonitas e os rítmos mais dançantes do mundo, uma mistura do Lundu até timbalada. O povo brasileiro é tão musical que inventa um ritmo por dia”, continua.

Para afirmar isso, Altamiro se baseia na pesquisa feita pelo maestro Guerra Peixe, que apontou a existência de trinta e oito rítmos diferentes, fora os que podem ter surgido depois da pesquisa. Para concluí-la, o maestro levou anos percorrendo todo o país, entre capitais e cidades mais distantes, percebendo gênero, detalhes e estilos.

Na verdade, segundo Altamiro, a música brasileira, instrumental e também cantada, está atravessando uma fase ruim em termos de comércio musical, mas não em aceitação por parte do público, como demonstra o sucesso que tem feito, e o aparecimento de novos talentos.

Para ele, comercialmente a música vem sofrendo grande agressão. “Está sendo comercializada como se fosse um quilo de feijão ou arroz e não é assim, porque música é arte, e para se tocar bem um instrumento é preciso de seis a oito anos de estudo e um período de prática, porque o aluno quando sai da escola de música com o seu diploma, ainda não é um músico e sim um projeto de músico”, comenta.

“Ele será músico depois que começar a tocar e a sofrer, como os outros todos sofreram. O problema é que estão tornando as nossas lutas inúteis, quando, depois de estudarmos durante anos e nos aperfeiçoarmos, as grandes gravadoras multinacionais nos deixam de lado e forçam a execução de músicas de nível baixíssimo”, acrescenta.

Tamanhas são as dificuldades do mercado que obrigaram Altamiro, que sempre gravou seus cds pelas melhores multinacionais, o fazer de forma independente, com muito sucesso. “Nunca dei prejuízo para gravadora nenhuma, porque, apesar de não investirem em mim, com propaganda e divulgação, sempre existiram aqueles que procuram a boa música nas prateleiras das lojas de discos”, se orgulha.

Rítmos americanos dominam o Brasil

Altamiro tem observado que são os rítmos americanos que infestam o país, sendo muito difícil ouvir música alemã, francesa, italiana, japonesa e outras, tocar nas nossas rádios. “Encontramos uma infinidade de rock, rap, funk, e qualquer outra coisa que seja americana. Há uma grande preferência de se colocar no ar, divulgar, tudo o que vem dos Estados Unidos, independente de ser bom. Isso é uma coisa curiosa”, diz com ar indignado.

“Estamos bem servidos de músicos, sendo a nova fase excelente. No entanto, falta local para se apresentarem, já que, principalmente o Rio, tem a noite tomada pelos bailes funk, festas de rap e outros parecidos. Esses são gêneros que não apresentam músicas para se poder tocar e sim ritmo e percussão”. São ladainhas estúpidas acompanhadas de uma percussão qualquer, como palma, lata ou bumbo. É nisto que a mídia tem feito um investimento maciço”, lamenta.

O Brasil, fala Altamiro, sofreu uma grande mudança para pior, fazendo com que a música, principalmente a instrumental, ouvida com freqüência por jovens e pessoas mais maduras há alguns anos, hoje se encontre praticamente fora de alcance do público, porque os meios de comunicação não a executam. No entanto, existe uma lei internacional, em vigor desde a década de sessenta, que indica para as rádios, a obrigação de tocar música instrumental em 25% de sua programação, mas isso não acontece no Brasil. “Pelo tempo que essa lei existe, já era ocasião para alguém se preocupar em cumprí-la”, argumenta.

Para Altamiro, isso dá a impressão de que o povo brasileiro não gosta desse tipo de música, ao mesmo tempo em que lotam os locais onde é apresentada. Uma temporada sinfônica, por exemplo, lembra o flautista, não tem parte cantada, e lota qualquer espaço em que é apresentada.

Impedidos de ouvir música instrumental

Altamiro Carrilho lembra que há algumas décadas, o povo brasileiro era bem informado, musicalmente falando, e hoje isso não vem acontecendo. “Existia em cada estação de rádio e televisão, um diretor artístico, que tinha a função de filtrar e separar o lixo da coisa boa, porque o lixo sempre existiu”, esclarece.

Para ele, com exceção da rádio Mec, onde trabalha, e outras poucas, que não aceitam jabá em suas programações, a maioria das rádios impõem ao ouvinte uma programação muito ruim. “Com o Jabá, elas não querem saber se a música é boa ou não, ficando na base do: pagou tocou. Isso também acontece na televisão”, revela.

“Temos uma das músicas mais bonitas do mundo, mas não a apresentamos para muitos brasileiros, porque não nos deixam. O brasileiro não tem o direito de ouvir boa música de sua terra”, resume.

Fora do Brasil a música brasileira tem espaço

A música instrumental brasileira, como conta o artista, vem recebendo um grande apoio no exterior. Cada vez mais, países como o Japão, Estados Unidos e grande parte da Europa, estão tocando as músicas brasileiras.

“Todos os grupos de choro, por exemplo, estão fazendo um enorme sucesso e ganhando muitos adeptos no exterior. Nos Estados Unidos já existem uns cinco ou seis grupos de choro, no Japão está na faixa de dez ou mais. Também existem na Inglaterra, na Alemanha, França e outros locais. Alguns músicos estrangeiros estão vindo aprender a tocar choro conosco”, declara.

Se os trabalhos de música fossem bem executados dentro do país, diz Altamiro, evitaria que o artista tivesse que correr o mundo para divulgar a música brasileira, porque, os estrangeiros que passam por aqui, levariam para os seus países de origem uma fita ou CD e fariam esse trabalho. “Hoje estamos fazendo isso com sacrifício, em viagens de até vinte oito horas para o Japão, por exemplo”, confidencia.

Carrilho esteve recentemente no Japão, onde ficou por trinta dias. Neste período, tocou todas as noites, choro, samba, baião, maxixe, frevo, e tudo mais, em vários lugares. “A música instrumental tem uma grande vantagem sobre a cantada, que é o fato das notas musicais serem universais, enquanto os idiomas dificultam um pouco, já que poucas pessoas falam português no mundo”, analisa.

“Fizemos uma apresentação em Telavive, no Oriente Médio, com enorme sucesso. Devido ao grande número de pessoas que se aglomeraram do lado de fora da casa, completamente cheia, ao terminarmos o espetáculo, nos pediram para repetir a dose e voltamos ao palco após descansarmos somente trinta e cinco minutos”, conta com orgulho.

Ele tem uma visão otimista para o futuro, quando compara a música brasileira ao azeite. “Assim como se pingarmos uma gota de azeite em um copo com água e batermos por horas, ele não se misturará a ela, podendo ser visto com clareza ao pararmos de bater, assim é a música brasileira, que mesmo perdendo espaço dentro do país e em meio a uma grande invasão de rítmos estrangeiros, não se mistura e aparece”, conclui.

 

 

Rosa Mimine para Nova Democracia

Author: Redação

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