
Entre 22 de março e 1º de abril deste ano, a capital do Paraná realiza a 16ª edição do seu mais comentado evento cultural – advinha qual? Após tantas edições apostando nas estréias, nas montagens “para viajar”, destacáveis apenas pela presença de globais, e acumulando descrédito, o Festival de Teatro de Curitiba já não é mais o mesmo. Ele calibrou essencialmente o seu perfil. É um veterano, mas ainda troca de camisa como se fosse mocinho.
Nos últimos anos, o FTC fez opção preferencial pelas montagens de grupo, sem o glamour discutível dos famosos de revistas. Optou por um teatro mais autoral, mais artístico. Certamente, um teatro menos televisivo. Por mais paradoxal que isso pareça, nos últimos anos o festival apanhou uma feição bastante carioca – ao menos em relação à Mostra Principal, o filé mignon do evento. Antes, essa feição era prodominantemente paulista, mais precisamente paulistana.
Este ano, por exemplo, embora o teatro do Rio venha perdendo viço, potência, sete montagens da Principal são cariocas, enquanto outras seis são de São Paulo. As outras seis atrações escaladas – são 20, no total – são originárias do Paraná (três), Bahia, Rio Grande do Sul e Pernambuco (uma, cada).
De Minas, tradicionalmente bem representado na grade Principal, este ano não há nenhum grupo, nenhuma montagem. Nem o Galpão, infelizmente. A não ser que se considere (um tanto) mineiro também o musical “Besouro, Cordão de Ouro”, texto do poeta e letrista Paulo César Pinheiro, que João das Neves e Bya Braga dirigiram. No elenco de 13 figuras, Maurício Tizumba e Sérgio Pererê têm presenças destacadas. Iluminação e cenografias também são destacadíssimos.
Apenas no Fringe, o conhecido salve-se-quem-puder da mostra paralela, o teatro mineiro dá as caras. Ali, estão inscritas nove montagens: três são do interior e as seis restantes da capital – mais informações nesta página.
Estimulado pela performance de bilheteria das Campanha de Popularização anterior e atual – há dois anos consecutivos, é o segundo produtor que mais conseguiu vender ingressos -, Marco Amaral leva “Meu Tio é…Tia!” a Curitiba novamente.
Apesar do enorme sucesso em Belo Horizonte, sua comédia (dos sexos) não repercutiu no Paraná em 2006. Por melhor que tenha sido o boca a boca entre o público, ela não ecoou na mídia. E mídia é o objetivo básico de quem vai a Curitiba encarar os sopapos do Fringe. Sobretudo – imagine -, disputar atenções entre 187 montagens escaladas.
Além do interesse que nos desperta a presença das montagens de Minas, o Fringe escala este ano dois representantes internacionais: a estréia da peça italiana “Prometeu Acorrentado – Sob a Cinza Há Sempre Uma Chama” e o espetáculo de rua mexicano, “Cus Cus Circus”.
Além de “Meu Tio é… Tia, “O Conto do Vigário” e o infantil “O Menino e a Água” deverão compor a subfranja nomeada Minas em Cena na mostar paralela. Não é justo dizer que essas três produções representem “o” teatro que se pratica hoje no Estado. Mas como há quem goste tanto delas por aqui, é provável também elas encontrarem afeições por lá.
Aliás, o Risorama, vitrine de humoristas (quase) consagrados, é o programa paralelo que mais mobiliza público na grade do FTC. De ponta a ponta do país, o riso sugere retornar melhor pelo que cobra. Seja lá o que cobrar.
A propósito, “O Menino e a Água”, cruzada (discutível) contra a poluição de água potável, também integra a Mostra Infantil. Ali, outros 27 espetáculos estão escalados, uma tendência que se adensa nos grandes festivais: São José do Rio Preto e Londrina já adotaram uma grade específica para crianças. Falta o nosso FIT também adotar uma.
Convenhamos, oferecer teatro para crianças é um inegável formador de público, infinitamente mais do que diversas outras iniciativas prometem ser.
A CENA DE MINAS – Quem vai daqui
As Super Poderosas – Três candidatas a modelo buscam oportunidades na carreira em São Paulo. Montagem de Santa Rita do Sapucaí, escrita e dirigida por Janilton Prado.
Dorotéia Vai à Guerra – A relação sufocante entre a velha e doente Dorotéia e sua filha, Madalena. Direção e interpretação de Sérgio Arcuri. Texto atribuído a Luiz Carlos (de fato, o mineiro Carlos Alberto) Ratton.
Match de Improvisação – Montagem com formandos do Cefar em 2006. Uma modalidade híbrida, entre o teatro e o jogo, que se utiliza das improvisações dos atores para responder às sugestões dramatúrgicas da platéia. Trilha sonora ao vivo.
Mendigos – Texto, direção e interpretação de José Domingos de Souza, de São João del Rei. Quadros do dia a dia e das necessidades humanas de um mendigo.
Meu Tio é… Tia, O Conto do Vigário e O Menino e a Água – Montagens da Marco Produções, compõem o projeto Minas em Cena.
Sua Alma, Sua Palma – Dois velhos amigos se reencontram no interior de Minas para checar memórias de infância. Montagem da Carrusca Produções, de BH.
Trabalhos de Amor Perdidos – Montagem da Cia Lúdica, atualmente em cartaz na Campanha de Popularização. Um texto de William Shakespeare ainda inédito no Brasil.
Festival de Teatro de Curitiba – programação completa no site www.festivaldeteatro.com.br